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O Muro das Lamentações

O velho e o novo

Por Gustavo Martins-Coelho

Se o Primeiro-Ministro Passos Coelho (Pedro para os amigos do Facebook [1]) não tivesse anunciado mais uma das suas ideias peregrinas [2] para continuar a salvar Portugal à bruta [3], o texto que se segue teria sido publicado no passado Domingo. No entanto, como então expliquei, a seriedade da matéria anunciada por Passos Coelho não pôde deixar de merecer a minha prioridade neste blogue [4]. Agora que a poeira, muito devagar, começa a assentar — os comentadores já criticaram [5], o PS já anunciou que vota contra [6], o PSD já se opôs [7], o CDS já disse que não quer ter nada a ver com isso [8], os beneficiários não ficaram muito contentes [9], o povo já desabafou [10] e agora prepara-se para sair à rua [11] e o Ministro das Finanças parece ser o único que acredita [12] — posso reeditar aquele que é, talvez o texto mais localizado e datado de todos os que até agora publiquei na «Rua da Constituição». A sua reedição na «Rua da Constituição» prende-se mais com o interesse de registo do que propriamente com a sua actualidade ou relevância social e é nesse contexto que deve ser lido.

Em Abril de 2005, a Universidade do Porto [13] estava em processo de mudança de imagem. O logótipo antigo estava a ser substituído por um novo, que, entretanto, foi substituído pelo comemorativo do centenário [14]. Sete anos depois, a opinião que exprimi na altura e que pode ser lida abaixo mantém-se, sem alterar uma vírgula.

Não sei se os meus colegas da faculdade terão reparado nas mudanças que se andam a realizar na Universidade do Porto (UP), em termos de imagem. Anda por aí um novo símbolo a tentar roubar o lugar da histórica Minerva que sempre representou a nossa Universidade. Na vanguarda deste movimento, a Faculdade de Medicina (FMUP) foi ainda mais longe, tendo abandonado o seu próprio símbolo, que foi substituído por um qualquer produto minimalista. Como se pode ver na imagem abaixo, os dois símbolos históricos (à esquerda) serão substituídos pelos rectângulos da direita.

Antes de mais nada, é de notar que mais nenhuma faculdade abandonou o seu símbolo próprio, à semelhança do que fez a FMUP.

Agora que estão apresentados os factos, passemos ao comentário dos mesmos.

Em primeiro lugar, uma entidade que se pretende única e una (esse foi o principal argumento para a criação do novo símbolo) não deveria ter dois símbolos, como acontece neste momento com a UP: certas entidades da UP utilizam o novo símbolo; outras utilizam o antigo. Melhor ainda, parece que mesmo no seio da Universidade não existe acordo: por um lado, a UP possui duas páginas na rede totalmente distintas (veja: «http://www.up.pt» [13] e «http://sigarra.up.pt» [15]), que, curiosamente, utilizam as duas o símbolo antigo; por outro, se acedermos a um endereço denominado «http://minerva.up.pt» [16], em vez da Minerva deparamo-nos com o símbolo novo! Num mundo onde a imagem conta cada vez mais, toda esta confusão simbólica tem como resultado a aparência de desorganização e de incerteza da UP. De facto, a UP surge aos olhos de quem a visita como uma entidade que nem sequer tem um símbolo definido. Aliás, esta confusão, pelo visto, é para manter, pois a ideia é que um símbolo seja utilizado para situações nobres e o outro para o dia-a-dia. A UP passa, portanto, a ter um avental e um traje de gala.

Em segundo lugar, se é verdade que o novo símbolo se apresenta simples e de linhas modernas, não é menos verdade que o símbolo antigo tem a sua história e a sua classe. Não é por acaso que todas as universidades portuguesas, públicas e privadas, recentes e antigas, buscam símbolos elaborados e que lhes confiram um significado relevante na sociedade.

Mas, mais do que a estética, importa a história. A UP é uma instituição centenária, assim como centenário é o seu símbolo. A Minerva representa a sabedoria e o compromisso com a excelência na educação e na inovação que são apanágio desta universidade. O retoque do símbolo antigo foi já algo delicado, mas que, no fundo, se revelou positiva: foram introduzidas referências a anos importantes na história desta nobre instituição e foi adoptada a divisa latina que sempre acompanhou a academia (e que veio substituir o Universitas Portucalensis, para terminar de vez com as confusões e os aproveitamentos por parte doutras universidades que, em virtude do nome parecido, se faziam passar pelo que não eram).

Não havia, porém, necessidade, de estragar tudo no último momento. Cortando com o seu passado, negando a imagem que todo o mundo conhece, submetendo o peso da história ao mero interesse de facilitar o arranjo gráfico dum logótipo (porque um outro argumento utilizado é o de que a Minerva apresenta uma estrutura formal muito rígida, que limita a sua aplicação gráfica), a UP vem criar este novo símbolo, um U.PORTO que ninguém compreende donde vem. Para o estrangeiro, é um Oporto mal escrito. Para os portugueses, eu nem sei o que é.

Finalmente, mais uma vez fica patente a importância (ou a falta dela) que é dada aos estudantes, que não foram chamados a pronunciar-se sobre a mudança dum símbolo que é também deles. Porque, não esqueçamos, uma universidade serve para promover a educação, a ciência, a cultura, a tecnologia mas, acima de tudo, para formar os seus estudantes. Ainda que a universidade não seja exclusivamente para os estudantes, é por causa deles que ela existe! Contudo, parece que os responsáveis da UP se esqueceram desse facto, como, aliás, se esquecem variadíssimas vezes.

Quanto à FMUP, mais antiga do que a própria UP e habitualmente tão ciosa da sua história e do seu valor individual (muitas vezes ouvi pessoas que faziam questão de dizer Faculdade de Medicina do Porto, deixando «cair» a Universidade), foi a primeira (e, até ver, a única), a aderir a este desmando, abandonando o seu próprio símbolo e subjugando-se totalmente à Universidade do Porto. Já dizia um professor desta casa que a Universidade é a unidade na diversidade. Se é certo que a FMUP, sozinha, não tem cabimento num mundo à escala global, por ser um mero pontinho num oceano de instituições de ensino e investigação médicas, também não é menos verdade que, pela sua natureza, deveria ser a última das faculdades a ser absorvida e homogeneizada na UP, porque vive entre o ensino e o apoio à comunidade, porque está a meio caminho entre a formação médica e a prestação de cuidados de saúde, porque ela própria está fisicamente inserida num contexto diferente de todas as outras faculdades (as suas instalações são comuns às do Hospital de São João). Contudo, não parece ter sido assim, e a FMUP deixou de ser a FMUP para ser um pequeno rectângulo amarelo com umas letrinhas bem pequeninas debaixo dum «U.» que eu continuo sem perceber muito bem o que significa. Aliás, amarelo e branco; cada vez os médicos se confundem mais com os enfermeiros.

É, pois, com pesar que tomo nota deste crime que foi perpretado contra a imagem da UP e manifesto o meu desacordo profundo com tal desmando, pelas razões que acima acabo de expor. Não é negando o passado que se vive o presente e se constrói o futuro.

Um comentário a “O velho e o novo”

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