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O Muro das Lamentações

A água e o azeite

Por Gustavo Martins-Coelho

O texto seguinte foi publicado originalmente em Dezembro de 2005 e tem, à semelhança doutros dois que já aqui reeditei (vide «A democracia» [1] e «O velho e o novo» [2]), o seu interesse restrito em termos de momento e público, além de ter a particularidade de me ter rendido uma conversa com a tesoura do Dux Medicus Facultis nos Leões. Assim sendo, reedito-o para memória futura, para que o meu cabelo não tenha caído em vão e porque, anos volvidos, mantenho a minha opinião a respeito do caso que relato e doutros semelhantes, sem lhe alterar uma vírgula.

Tal como em Dezembro de 2003 escrevi a propósito das eleições [1] para os órgãos sociais da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (AEFMUP) [3], dois anos volvidos, o tema do texto era o mesmo e, assim como fizera em 2003, mantive a minha independência e isenção face às listas candidatas aos órgãos sociais da AEFMUP. Não só não integrava nenhuma das candidaturas, mas também não fora subscritor na proposição de nenhuma delas, pelo que me encontrava na simples condição de eleitor que aprecia a apresentação e o debate de projectos e ideias durante a campanha eleitoral, para poder decidir em consciência qual seria a melhor escolha para a liderança da AEFMUP, capaz de dar resposta aos desafios que se colocavam no momento e definir rumos de mudança para o futuro.

Essa campanha eleitoral tinha, para mim, um aspecto de interesse que nenhuma tivera até então: pela primeira vez, não estávamos perante a dinástica lista única do costume, muito por causa das referidas más relações entre os adversários. É certo que, tal como já expliquei antes [1], as duas listas resultaram da cisão dos órgãos sociais cessantes, por causa de más relações de convivência, o que não é, de todo, uma boa notícia, mas, ainda assim, pela primeira vez, os alunos tinham uma real opção entre duas visões do futuro da AEFMUP.

Infelizmente, do que me recordo, a campanha eleitoral foi tudo menos bonita de ser ver. No meu texto de então, optei por referir-me especificamente a um acto a que assisti no dia 9 de Dezembro de 2005 durante a sessão de Caçoada ao Caloiro, no Anfiteatro Norte da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto [4], entre as 13h00 e as 14h00.

Decorria a dita sessão com a normalidade e boa disposição características destas actividades, quando irrompeu em cena um veterano da casa que, depois de mandar os caloiros colocarem-se na sua «posição natural», ou seja, «de quatro», iniciou o seu discurso para lhes pedir desculpa pela forma como os tem praxado, admitindo que poderá ter cometido alguns excessos, mas referindo que, no fundo, até gosta deles, entre risos e sorrisos dos demais presentes. Por entre este discurso, claramente irónico, veio a lume a questão eleitoral (de referir que o veterano em questão integrava uma das listas que seriam sufragadas no acto eleitoral em curso), mudando o tom do discurso. Afinal, disse então o veterano, uma coisa não tem nada a ver com a outra: Praxe é Praxe e associativismo é associativismo, tendo-se afirmado certo de que os caloiros saberiam distinguir os diferentes contextos. Depois deste discurso, devido às obrigações académicas (tinha mesmo uma aula), abandonei o Anfiteatro, desconhecendo como evoluiu a situação para além deste ponto.

Independentemente do que se tenha passado depois do que acabo de relatar, considero que os factos descritos são já motivo de reflexão. Não vou colocar em causa a intenção irónica, mesmo jocosa, do veterano quando proferiu o seu discurso. Aliás, se outro fosse o objectivo, certamente que a audiência não estaria «de quatro». Contudo, quaisquer que fossem as intenções, o acto foi, em si e a meu ver, reprovável do ponto de vista democrático, pelos motivos que passo a expor.

Interpretando o discurso na sua forma literal, temos um veterano, cujo estilo praxista raia o fundamentalismo e a tirania, que de repente se vê perante a perspectiva de que os votos daqueles que maltrata gratuita e sistematicamente podem fazer a diferença na corrida eleitoral e vem assim tentar reabilitar a sua imagem perante esses mesmos eleitores.

Interpretando o discurso como uma ironia, podemos entender o significado oposto, isto é, não existe nenhum tipo de preocupação com as consequências dos actos praticados em praxe no sentido de voto dos caloiros, o que revela alguma falta de inteligência política, pois trata-se de desprezar cerca de 20% dos votos em disputa; não sei quem poderá dar-se a esse luxo. Alternativamente, pretender-se-á significar a separação das águas, isto é, transmite-se a ideia de que se espera que não sejam os caloiros a votar, mas sim os alunos do primeiro ano, isto é, que se saiba diferenciar entre vivências de Praxe e associativismo, votando no colega pelo seu valor como ex-dirigente associativo e pelas propostas que apresenta enquanto candidato, e não em função da opinião que possam ter de si como praxista.

Em qualquer dos casos, há uma contradição entre este discurso e a opinião veiculada em seguida de que a Praxe e as associações de estudantes são realidades distintas. Por um motivo muito simples: se a Praxe é independente da vida associativa e, por consequência, independente da campanha eleitoral em curso, a simples referência, ainda que velada, à mesma por um dos elementos duma das listas candidatas coloca automaticamente em causa essa separação. A mistura de ambas as realidades prestou um mau serviço à Praxe, ao associativismo e à própria democracia.

Foi um mau serviço prestado à Praxe porque a envolveu em questões que não lhe dizem respeito, servindo-se dela para outros interesses que escapam totalmente ao âmbito e ao espírito praxista. Não faz parte da tradição praxista imiscuir-se noutros assuntos que não os da sua esfera própria, nomeadamente em questões associativas, e assim deve continuar a ser.

Foi um mau serviço prestado ao associativismo, porque o introduziu na Praxe, ligando duas realidades que são (ou deveriam ser) tão imiscíveis como a água e o azeite, além de que revelou poucas preocupações do ponto de vista da ética eleitoral, colocando mesmo em causa a integridade de toda uma lista, por uma atitude irreflectida dum dos seus membros. Devo lembrar que a Associação de Estudantes é uma instituição que existe separadamente da Praxe e das suas estruturas de coordenação, que é suposto representar todos os alunos e se manter fora das actividades praxistas, pelo que qualquer tentativa de aproximar as duas realidades para além da mera coexistência pacífica e reconhecimento mútuo poderá levar a um caminho perigoso, que poderá, eventualmente, ser o início da exclusão dos alunos que não concordam ou não se inserem na praxe, e que têm o mesmo direito de se sentir representados na sua Associação de Estudantes.

Finalmente, foi um mau serviço prestado à democracia, pois, ao colocar em causa o associativismo, colocou também em causa o regime democrático, que preconiza e suporta esse associativismo como contraponto de equilíbrio entre os interesses e os direitos dos estudantes e os interesses e limitações do Estado (ou duma entidade privada, embora tal realidade não se aplique, felizmente, à Medicina) enquanto «fornecedor» do ensino, além de que se socorreu de subterfúgios que vão contra o espírito de transparência, honestidade e confronto de ideias frontal e democrático.

Na altura, não elaborei este texto com quaisquer outras intenções para além de manifestar a minha indignação enquanto eleitor perante uma campanha eleitoral que nem sempre correu da maneira mais correcta, de ambas as partes, e participar civicamente num processo que, esperava eu, iria conduzir a AEFMUP a um caminho menos tortuoso do que o que tinha seguido até então, o que considero meu direito e dever.

Apesar de ser bastante circunscrito no tempo e no espaço, este caso e o seu significado mais profundo a respeito da forma de encarar os papéis diversos de «candidato» e de «veterano» por parte do meu colega, têm, ainda assim, algum interesse em termos gerais, no tempo presente. Infelizmente, este tipo de promiscuidade é mais frequente do que o desejável na sociedade portuguesa. Já não estou aqui a falar, especificamente, de praxe e de associativismo estudantil, mas do que se vai observando, em geral, na nossa vida diária. Exemplos não faltam desta promiscuidade a que aludi e escuso-me a elencá-los aqui; desse emaranhado de conflitos de interesses de pessoas que são simultaneamente «candidatos» e «veteranos», a que se junta um povo com alguma dificuldade em «separar o trigo do joio», resultam muitos dos problemas económicos e sociais que o nosso País enfrenta hoje.

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