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Um início, um meio, um fim… e um mas…

Por Hélder Oliveira Coelho

Nos dias que correm, é difícil encontrar quem comece uma frase sem um «mas».

Tenho por norma dizer:

— Comece pelo início.

Temos alguns problemas em começar tudo pelo início. É possível que nos pareça mais fácil começar pelo meio, quiçá pelo fim… mas por que não hão-de começar as frases pelo início? Calculo tratar-se de um problema estrutural.

Atente-se nas obras públicas. Primeiro, adjudicam-se, fazem-se; depois, quando chega o dia da inauguração, indagamo-nos se terão sido planeadas convenientemente.

É possível que tudo não passe de um problema estrutural. O nosso cérebro funciona por mimetismo, adaptando antigas experiências às novas realidades. Um pensamento desorganizado pode condicionar uma acção desorganizada.

Dizia a minha avó que eu inventaria desculpas até para a morte. Imaginava eu a tísica figura vestida de negro, pronta para me levar, a ser empatada como qualquer cidadão numa repartição de finanças, com desculpas quase ininteligíveis para me deixar ficar no reino dos vivos.

Confesso tratar-se de uma visão quase poética. Se há um momento em que todos somos feitos da mesma massa, é na morte.

É certo que nesse instante não haverá um «mas». E então?! O que nos distingue nesse instante? A ausência de capacidade de ter uma resposta. O fim. A conceptualização de morte não existe. Pode até arranjar-se uma definição bonita, das que cabem nos livros, mas ninguém conceptualiza a sua não existência. Talvez haja essa necessidade intrínseca de ter um «mas». Talvez haja a necessidade de existir algo para lá do imediato. A política de incerteza é só válida nas obras públicas ou na física quântica. Nós desejamos a eternidade. Abominamos a ideia de fim.

Não haverá uma ligação pura entre a necessidade de justificar e o medo de estar errado? O medo de ser julgado? Com tudo o que isso acarreta. A recusa, a não-aceitação pelos outros, o fim de algo que nos mantém estáveis. É a não conceptualização da morte que nos mantém tão agarrados à vida.

Mas… e porque sempre há um mas… onde começa o nosso problema em não começar pelo início?! Ninguém tem memória de não existir. Só temos consciência de nós enquanto ser. Não há registo do nosso início. As primeiras memórias surgem já no meio. Nos primeiros passos, nos primeiros momentos de alegria, nos cheiros, nos sabores. Não há registo do início.

Provavelmente, essa razão obriga a que o início nos seja ensinado. A tendência é pegar no problema pelo meio. Pegar nas questões pelo seu lado mais prático. A construção com início, meio e final é-nos ensinada. É inata na forma, mas não o é no conceito.

Em suma, deparamo-nos com a realidade no imediato, mas somos ensinados a pensá-la e a agir sobre ela de forma estruturada, com um princípio, um meio e um fim. O antes, o agora e o depois. Como a vida.

O nosso verdadeiro problema está no facto de nem todos conseguirem atingir este patamar. Perceber que a realidade está para lá do que se vê no imediato. O verdadeiro «mas» está no facto de existir um antes e um depois. Não obstante, tudo se vive no «agora».

A dura realidade está em perceber que, para lá do plano, da concretização do mesmo, haverá sempre o «mas».

A vantagem está na habilidade de balancear tudo isto. Indiscutivelmente, tudo tem um início, um meio, um fim… e um mas…

2 comentários a “Um início, um meio, um fim… e um mas…”

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