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Crónicas Altitude

Festival Eurovisão da Canção 2012

Por Hélder Oliveira Coelho

Não há muitos dias [a], assisti ao Festival Eurovisão da Canção. Desconfio que terá sobre mim o mesmo efeito do cigarro. Sabemos que caminhamos para um cancro, mas não conseguimos largar. Os anos vão passando e o discurso repete-se… Nem sei por que gasto o meu tempo a ver aquilo. Todavia, assim que surge o anúncio, o coração palpita e a curiosidade frenética consome-me!

Quando as locuções de um festival começam por ser do Dr. Pedro Granger, em vez do clássico Eládio, algo de mal se passa. O fel começa logo a ser fermentado. Eis que surge Engelbert Humperdinck e, por momentos, senti-me numa máquina do tempo. Curtos momentos, porque rápido acordei com o grito da decadência e pensei:

— Macacos me mordam se a Dona Simone, bem recauchutada, com uma mini-saia e uma boa maquilhagem, não faz boa figura p’ró ano!

A saga continua e sou obrigado a retirar o som da TV quando uma histérica vinda da Albânia resolve, ao invés de cantar, exercer a sua última profissão: sirene dos bombeiros, certamente. As surpresas não acabariam por aqui: eis que entram um grupinho de avós, desafinadas nas horas e com tanto sentido rítmico como um elefante parkinsónico.

Neste momento, eu penso que temos a vida facilitada, não precisamos de recauchutar a Simone, mandamo-la mesmo assim, porque, se resultar com as velhas, mal seja que não ganhemos com ela!

Todo o concurso foi dançando entre o electrónico e o ridículo. Nem sei porque se chama festival da canção. Canções foi algo que pouco se viu.

Agora passemos aos apresentadores… Oh! virgem santa… Mandem vir o Sr. Júlio Isidro para ensinar àquela gente como se faz!

Das votações, nada de interessante esperava! A habitual troca de galhardetes e os azeiteiros de Leste a bajularem-se mutuamente.

O Festival da Canção acaba por ser o corolário do quotidiano podre e viciado em que se transformou a Velha Europa: travestido de brilho em lantejoulas e purpurinas de fraca qualidade, vendendo um semblante chique do que, afinal, não passa do mais reles conteúdo!

Há uma certa vergonha intrínseca de quem tem atrás de si a grandiosidade da História, do saber, mas gosta de se armar em pobrezinho de espírito, para dar aquele ar de quem é actual e acompanha a evolução dos tempos. A Europa é como aquelas artistas decadentes que, quando saem da ribalta, se cobrem de ouro, pérolas e rapazes de programa novos para sentirem que ainda são admiradas!

Dito isto… Concluo com dois pensamentos:

Não sei por que perco tempo com o Festival da Canção.

E estou ansioso por ver o Festival do próximo ano!!!


Nota:

a: Esta crónica foi originalmente difundida na Rádio Altitude [1] em 1 de Junho de 2012 (N. do E.).

2 comentários a “Festival Eurovisão da Canção 2012”

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