Categorias
O Muro das Lamentações

A falta de psicologia dos engenheiros

Por Gustavo Martins-Coelho

A passagem pedonal não deve ser colocada nas imediações da saída da rotunda, devendo antes […] localizar-se pelo menos a vinte metros da saída.

Reza assim (com mais detalhes, que suprimi, para retirar densidade ao texto, sem, no entanto, lhe alterar o sentido global) o artigo da revista «Super Interessante» [1] sobre um estudo da Universidade de Coimbra [2], segundo o qual (entre muitas outras indicações técnicas que o Inir adoptou [3]), como se pode ler, as passadeiras não podem ser colocadas junto à saída das rotundas para diminuir os acidentes automóveis.

Como dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, resolvi ilustrar o resultado prático desta indicação dos engenheiros da Universidade de Coimbra, recorrendo a imagens de satélite (cortesia dos Mapas do Google [4]) da rotunda mais conhecida da minha cidade (ao ponto de ser simplesmente tratada por «a Rotunda» pelos meus conterrâneos, sem que isso gere qualquer confusão quanto ao local a que se referem): a Praça Mouzinho de Albuquerque, no Porto.

Peço ao leitor que ignore as actuais passadeiras zebradas que se encontram pintadas no chão e são visíveis na imagem do satélite e se concentre nas finas riscas paralelas, brancas ou amarelas, que desenhei sobre a fotografia, nas ruas radiais à rotunda. As linhas brancas representam a localização onde deveriam ser colocadas as passadeiras nas saídas da rotunda, segundo o estudo da Universidade de Coimbra. As linhas a amarelo representam putativas localizações das passadeiras em ruas que actualmente são de sentido único de entrada na rotunda, se também se aplicar o mesmo princípio.

Uma vez compreendido onde seria suposto as passadeiras se encontrarem, peço então agora ao leitor que atente nas linhas verde e vermelha da imagem e responda, em consciência, à seguinte pergunta: se tivesse de contornar parte ou toda a rotunda a pé, qual dos percursos escolheria — o verde ou o vermelho?

Em termos práticos: para ir da Avenida da Boavista à Rua de Caldas Xavier, preferiria caminhar 160m (opção vermelha) ou 200m (opção verde)? E da mesma Avenida até à Rua de Júlio Dinis, optaria pelo percurso verde, fazendo 310m, ou atalharia pelo vermelho, caminhando 230m? Última pergunta: para ir da Rua de Nossa Senhora de Fátima à Rua da Meditação, caminharia 350m pela linha vermelha, ou preferiria fazer 470m pela linha verde? Permito-me aventar, sem grande medo de estar errado, que, nestes três exemplos, a maioria dos meus leitores optaria pela linha vermelha, por ser o caminho mais curto.

Eu sei que os engenheiros que elaboraram o estudo não são psicólogos e, por esse motivo, pouco percebem de pessoas e de comportamentos humanos, mas serão assim tão líricos ao ponto de acreditarem verdadeiramente que o peão comum vai mesmo caminhar mais quarenta metros de cada vez que quiser atravessar uma rua — vinte para ir à passadeira e outros vinte para voltar para a esquina, após ter realizado a travessia — em vez de arriscar e cortar a direito?

Note-se que a questão, aqui, não está em saber se o peão deve ou não atravessar a rua junto à esquina da rotunda ou a vinte metros de distância desta. Acredito que corresponda maior segurança à segunda opção, se os técnicos que estudam o assunto assim o dizem; logo, assim deveria ser. Porém, a questão está em saber se, num País que não prima pela educação nem pelo civismo na estrada, o resultado prático da colocação das passadeiras a vinte metros da saída de qualquer rotunda não será o peão ignorar a sua existência e cortar a direito pelo caminho mais curto. Dado que a correcção desta falta de civismo não se faz num ano, nem numa década, a solução, a curto prazo, deveria passar por responsabilizar o automobilista por ceder a passagem ao peão no local onde se prevê que ele vá efectivamente realizar a travessia da faixa de rodagem. Isto é, se já é penoso para o automobilista parar em seegurança à saída duma rotunda se encontrar um peão numa passadeira, mais improvável será conseguir evitar o atropelamento desse peão se a sua presença apenas for esperada vinte metros à frente.

Ora, tendo em conta o que acabo de dizer, o que esta disposição normativa (assim se chama o estudo) vai induzir (e não é preciso ser-se doutorado para perceber algo tão simples) é passadeiras decorativas que ninguém vai utilizar e atropelamentos à saída das rotundas. Mas, se, com esta disposição, houver menos colisões entre automóveis, isso é que é importante. Afinal, as estradas foram feitas para nelas rolarem pneus e não para serem pisadas por sapatos, não é? Então, qual é o mal de se aumentar o risco para os peões se com isso se conseguir poupar uns trocos de bate-chapa e tinta Robbialac?

6 comentários a “A falta de psicologia dos engenheiros”

Caros leitores, no que concerne à colocação das passadeiras junto às saí das das rotundas, concordo plenamente que é um erro e um aumento do risco de acidente tanto para os peões como para os automóveis que estão a sair da rotunda e tem que para, ainda dentro da rotunda, para deixar passar os peões. Os estudos feitos em consciência e com consciência, só visa a proteção de ambas as partes e por isso a lei deveria obrigar a colocar as passadeiras, de facto, a 20 metros da saída. Os peões, eu também sou, estão cada vez mais conscientes de que é preferível ir pelo que é seguro. Caso contrário estão a colocar a própria vida em risco assim como a dos condutores. Quantas mais pessoas precisam de morrer para que alterem o que está errado!!! Quanto à educação, a tolerância é a admissão do erro. Por isso não podemos tolerar…
O problema não é de falta de psicologia!!! Não interessa saber as opções de cada um, interessa prevenir e reduzir o risco em termos globais. O que se faz de bem e de mal acaba sempre, mais tarde ou mais cedo, por influenciar na vida de cada um de nós.
Parabéns aos Engenheiro da Universidade de Coimbra que fizeram o mencionado e belíssimo estudo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *