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Por que falham os especialistas?

Por Hugo Pinto de Abreu

Esta pergunta — tão simples e tão complexa — tem-me atormentado nos últimos dias, e só me resolvi resolutamente a tratar este espinhoso assunto após, com muita surpresa, ver a temática subjacente à última publicação [1] do Gustavo [2], que toca precisamente nesta questão. Começo pois por convidar todos os leitores que não tenham tido a oportunidade de ler a referida publicação a que o façam, porquanto, além do interesse que intrinsecamente reveste, é uma magnífica introdução para a difícil problemática.

Naturalmente, a primeira resposta é que errar faz parte da condição humana. Contudo, a questão que nos preocupa não se prende tanto com os erros em geral, mas sim com os erros de pessoas que são especializadas numa determinada matéria, mas que pese embora o serem, cometem erros graves não-deliberados no que respeita à própria ciência de que são mestres.

Apresentam-se-me dois caminhos a explorar para tentar entender este fenómeno:

  • A génese dos erros pode estar em elementos de outros campos do saber que afectam o campo do especialista;
  • A génese dos erros encontrar-se em deficiências ou equívocos correntes no próprio campo do saber.

Exploremos pois, o primeiro caminho. O nosso tempo neste mundo é limitado — muito limitado — e os fenómenos, isto é, os objectos de estudo, são potencialmente ilimitados. Temos, portanto, uma grande série de sujeitos que, cada um com um tempo muito limitado, através dos séculos vão estudando objectos e transmitindo o conhecimento adquirido às gerações subsequentes (em parte, dado que algum conhecimento não é transmitido).

Este abismo entre o infinito potencial de objectos de estudo e a finitude do sujeito que se propõe (ou a quem se lhe impõe) adquirir conhecimento obriga a uma escolha: o sujeito tem, necessariamente, que focar-se num determinado conjunto de fenómenos ou tipo de fenómenos, ou seja, obriga a que haja uma especialização de algum tipo. Há uma antiga e irresolúvel controvérsia sobre o quão especializado deve ser o conhecimento do sujeito, ou, para ser mais preciso, o quão especializada deve ser a orientação dos estudos das pessoas em geral, e dos indivíduos que pretendem uma formação de nível mais elevado em particular.

Existe um trade-off evidente: por um lado, como dizem os anglófonos, Jack of all trades, master of none. Para dominar certa área do conhecimento é necessário um grande investimento de tempo. Lynda Gratton [3] refere que são necessárias cerca de dez mil horas de dedicação para se tornar um profissional especializado numa determinada área. Expressando este número de outra forma, um indivíduo dedique oito horas por dia a especializar-se, demora mais de nove anos a fazê-lo.

Doutra face, e tal como intuímos, uma excessiva especialização pode fazer com que o sujeito se equivoque por não compreender outros fenómenos nos quais não se especializou, e que podem influir na sua actividade e na área da sua especialização.

Os sistemas educativos tentam, naturalmente, atingir um equilíbrio entre conhecimento geral e especializado, sendo que, no caso português, durante os primeiros nove anos de escolaridade, regra geral, não se efectuam escolhas no sentido da especialização em determinada área, sendo que a primeira destas escolhas acontece no ensino secundário, e, mais tarde, com a escolha do curso para licenciatura, mestrado e doutoramento. E, mesmo quando já se entrou numa via de especialização, estudam-se habitualmente disciplinas de outros campos do saber que influem naquela área do conhecimento, por via a, precisamente, prevenir que o desconhecimento de fenómenos de outros campos do saber leve a erros na sua actividade. Contudo, este perigo não pode ser totalmente conjurado, e é, efectivamente, uma das razões pelas quais os especialistas podem falhar.

O segundo caminho, o de a génese dos erros estar no estado corrente da ciência da própria área de especialização, tem necessariamente de começar por considerações análogas ao primeiro. Cada sujeito carece de um processo de aprendizagem, no qual outros sujeitos lhe transmitem conhecimentos e experiência, pois o sujeito, como vimos, não tem tempo sequer para estudar todos os pressupostos da sua ciência. Estando estes conhecimentos enfermos de algum erro, tal pode ser razão explicativa para que o sujeito cometa erros, o que muito provavelmente acontecerá.

Penso que estas considerações carecem de uma aplicação prática, que farei oportunamente numa publicação que resume a pergunta para a qual, realmente, todos procuram respostas: «por que se enganam os economistas?».

Todavia, realizada esta aproximação teórica, quase filosófica, a este tema, podemos retirar desde já importantes conclusões: dada a finitude do ser humano e a infinidade dos fenómenos que potencialmente se propõe estudar, necessariamente a aquisição do conhecimento se faz por via da selecção e da tradição (i.e. transmissão), processos que podem fazer com que o mais bem-intencionado dos especialistas, ainda que tenha dedicado mais de dez mil horas à sua área do saber, se possa equivocar gravemente.

5 comentários a “Por que falham os especialistas?”

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