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Crónicas Altitude

De mestres e de mérito

Por Hélder Oliveira Coelho

Houve tempos em que se chamava Mestre ao que muito sabia, aquele cuja experiência ou trabalho havia conduzido a um estado de grande conhecimento numa determinada área. Depois, passou a ser mais um degrau na escalada da ascensão social académica. Temas tão gloriosos como sejam a sulfatação de vinhas ou a prevalência de dor lombar em doentes internados passaram a coabitar com o título de mestre. Note-se que a importância prática dos temas nada tem a ver com o valor acrescido que trazem. Agora, nessa senda ruinosa em que transformaram o Processo de Bolonha, qualquer miúdo mal formado é mestre em alguma coisa. Por mais incrível e inútil que seja!

Há dias, perguntava um professor universitário a um grupo de futuros médicos por um ou dois exemplos de uma ópera, um romance, um compositor com alguma relação com a tuberculose. Espantosamente, ninguém respondeu. É cruel pensar que a ópera, que foi durante tanto tempo de gosto tão popular, tenha sido votada ao ostracismo cinzento de alguns intelectuais. É triste constatar que já não se lêem os clássicos da literatura. É quase criminoso fazê-lo… antes gastar tempo com livros de auto-ajuda. Mais triste, é perceber que homens ilustres não se conseguiram libertar das amarras da morte e deles nada se sabe.

O exemplo que citei não é representativo da população em geral, isto porque se trata de um nicho populacional muito específico. Alunos universitários, mais concretamente futuros médicos. Recordo a nota alta com que obrigatoriamente chegaram à faculdade. Agora, aqueles meninos chegarão a mestres em seis anos. Outras áreas há em que chegam em menos tempo.

Trabalha-se em função do número, do objectivo imediato, não do amor pelo saber. O grau deixou de ser um marco para o conhecimento, antes a porta para uma longa vida de inexperiência. Pergunto-me se premiar o mérito quer dizer dar louvor à média de vinte valores… Se for apenas isso… premiar o peso de um número… Pois que morra o mérito!

2 comentários a “De mestres e de mérito”

[…] 1 Para que não me acusem de elitismo, quero esclarecer que uso aqui o adjectivo exclusivo para significar que as faculdades de Medicina aceitam os alunos com as médias de acesso mais altas e têm um dos mais altos rácios de candidatos por vaga disponibilizada no primeiro ano dos seus cursos. É um conceito estatístico apenas e não tem nada a ver com os estudantes de Medicina serem melhores ou piores, mais ou menos importantes do que os restantes. 2 A propósito de mestres à bolonhesa, escreveu o Hélder uma crónica cuja leitura recomendo vivamente. […]

[…] Neste último ano, a crónica do Hélder que mais interesse suscitou nos leitores foi a respeito do conteúdo duma certa carta que ele, em tempos escrevera ao director da sua faculdade [5]. Dentre as mais lidas, destacam-se ainda a sua imitação do Cláudio Ramos [6] e a sua dissertação sobre o ensino à bolonhesa [7]. […]

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