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Ilusión

Por Hugo Pinto de Abreu

A História — ou a forma como é transmitida — é por vezes injusta, ofuscando méritos aqui e exacerbando indevidamente outros quantos ali, fazendo com que nos chegue uma imagem distorcida de algumas realidades passadas.

Quando se fala de música revolucionária dita de direita, duas músicas foram particularmente alvo de estudo, análise e crítica: a italiana «Giovinezza» [1] associada ao movimento fascista, e a espanhola «Cara al Sol» [2], hino da Falange Espanhola [3], que se tornaria num ícone do regime Franquista até ao final [4].

Muitos ficarão, portanto, surpreendidos, com a revelação que o «Cara al Sol» não foi sempre a referência musical do Movimento Falangista Espanhol. De facto, de 1936 a 1939, isto é, durante a Guerra Civil Espanhola, uma outra música, que a História em parte esqueceu, detinha esse papel.

Falamos da «Canción del Falangista» [5], cuja letra e música são da autoria de Fernando Moraleda, que nos propomos analisar — não tanto no campo da ciência musical, que não dominamos — numa vertente histórica que nos permita entender melhor alguns fenómenos do Falangismo e também da música revolucionária em geral.

Passemos à análise, estrofe por estrofe:

Falangista soy,
falangista hasta morir o vencer,
y por eso estoy
al servicio de España con placer.

Esta primeira estrofe, que aliás serve de refrão, é extremamente suave. Destaca-se apenas o clássico conceito de «vitória ou morte», tão comum que não quebra a suavidade deste trecho.

Alistado voy en la juventud,
paladín de nuestra fe.
Mi camisa azul,
con el yugo y las flechas en haz,
garantía son
en la España inmortal que triunfará.

A associação à juventude é uma ideia cara aos movimentos revolucionários e contra-revolucionários, e aparece com naturalidade a abrir a canção. Não é despicienda a influência do fascismo italiano e da sua «Giovinezza». O Falangista vai, não sozinho, mas enquadrado, incorporado — alistado — numa juventude que comunga os seus valores, e vai como paladino de uma «fé» que não é sua, mas «nossa».

Convém notar que o Falangismo, até pela influência Maurrassiana [6], não era confessional, mas via na religião tradicional da maioria dos espanhóis — o catolicismo — um activo a valorizar e proteger, como parte da alma da Nação Espanhola. Para o Falangista, esta «fé» não deve ser entendida num sentido estritamente religioso, mas tem subjacente uma concepção mística e metafísica da Nação. Neste sentido, os Falangistas devem ser cuidadosamente distinguidos do movimento Carlista [7], cujo lema era «Diós, Pátria, Fueros, Rey» (note-se a ordem, a mesma não é despicienda), seus aliados de circunstância na Guerra Civil, mas com quem nutriam sérias divergências ideológicas.

Em seguida, as referências à camisa azul e ao arco com flechas, símbolos da Falange. A camisa azul foi adoptada por ser a indumentária dos trabalhadores, o arco e as flechas eram o símbolo de Isabel, a Católica, Rainha de Castela. Desta sinergia entre as forças vivas do momento — nomeadamente a força do trabalho e dos trabalhadores — e a memória presente do passado, e só daí, poderia surgir a garantia da Espanha imortal que — certamente — haveria de triunfar. O elemento de certeza, de determinismo histórico, aliás partilhado pelo Marxismo, é uma presença constante na música revolucionária. No «Cara al Sol», afirmava-se com igual misto de segurança no evento mas desconhecimento do momento exacto: «Voltarão bandeiras vitoriosas».

Cuando se enteró mi madre,
de que yo era de las J.O.N.S.
me dio un abrazo y me dijo:
“Hijo mío de mi alma
así te quería yo:

Na terceira estrofe, surge a referência à família, aos afectos, também típica. Numa canção bélica — este carácter será visível mais distintamente adiante — é natural a referência, como dissemos, aos afectos. A noção de que se combate, de alguma forma, pelas pessoas amadas e com a aprovação moral delas, e, de forma mais pragmática, com a esperança de as rever, é reconfortante e motivadora, ou, se preferirmos, traz consigo muita ilusión.

falangista valeroso,
y con ese patrimonio,
la Justicia, el Pan, la Patria
y la España Grande y Libre
que soñaba JOSÉ ANTONIO.

A Justiça, o Pão, a Pátria, eis o credo — o património ideológico — da Falange resumido numa curta frase. Aqui ressalta o carácter claramente revolucionário do movimento: embora visto com simpatia por muitos conservadores, a Falange via-se e agia como movimento revolucionário, insatisfeita com as profundas injustiças sociais que grassavam na Espanha dos anos 30, e advogando medidas como uma reforma agrária que conferisse a propriedade da terra a quem a trabalhava, bem como a nacionalização da banca.

E, finalmente, o clímax da canção, a referência ao mítico fundador da Falange de que já aqui falámos [8], José António Primo de Rivera. Ele aparece como o irmão mais velho, caído em combate por um nobre ideal, cujo «sonho» urge concretizar por ele.

Ahora estoy en las trincheras
dando la cara a la muerte,
si me muero, sólo siento,
madrecita de mi alma,
porque no volveré a verte.

As referências bélicas tornam-se mais claras, e aqui há uma clara ponte com o «Cara al Sol». Se nessa última música a referência emocional parece ser a namorada/noiva/esposa, aqui é, como já vimos, a mãe. Em ambas as músicas a única tristeza que pode subjazer à morte é o não voltar a ver o ser amado. Contudo…

Pero sé que si me matan,
en la tierra en que yo muera,
se alzará como una espiga,
roja y negra,
con la pólvora
y la sangre, mi bandera.

Esta é, a meu ver, a estrofe mais poética da música revolucionária. Se o Falangista morrer, levantar-se-á uma espiga. Subjacente está o conceito de martírio, emprestado do Cristianismo, um martírio que funciona como grão de trigo que é lançado à terra e produz fruto, neste caso, produz Pão, obviamente entendido num sentido metafórico (ver também a referência ao Pão na quarta estrofe).

Finalmente, novo clímax. Essa «espiga» será vermelha, pelo sangue, e negra, pela pólvora, formando assim a bandeira Falangista, vermelha e negra, à semelhança das bandeiras anarquistas. É de notar a identificação musical entre José António, o símbolo humano da Falange, com a bandeira vermelha e negra, o seu símbolo heráldico.

Quem compare esta «Canción del Falangista» com o «Cara al Sol», notará que existe uma profunda identidade de mensagem entre ambas. Porque terá o «Cara al Sol» assumido tanto protagonismo ao ponto de quase eclipsar a canção que analisámos? Não encontrei uma resposta, pelo que só posso tentar esboçar uma explicação: se nesta canção encontramos verdadeira poesia e momentos de grande arrebatamento, falta-lhe a energia constante, mesmo com uma letra pouco articulada e às vezes pouco conseguida, do «Cara al Sol», que desde a primeira nota é capaz de arrebatar, gravando «certezas» no íntimo de quem a ouve e sente: «Volverán banderas victoriosas al paso alegre de la paz.», «Volverá a reir la Primavera».

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