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Entretenimento alheio ou realidade alheada?

Por Ana Raimundo Santos

A criancinha nasceu [1]. É o terceiro na linha de sucessão e chama-se George Alexander Louis [2]. O mundo regozija-se com o nascimento de um novo membro da realeza britânica e eu questiono-me: e então? Qual é a relevância disso na vida deste nosso país à beira-mar plantado? A meu ver, nenhuma.

Mas, para a nossa «classe» política, parece ter sido ouro sobre azul. Enquanto o povo português comenta o nascimento da criança, o nome e os seus porquês, o aspecto da mãe quando saiu do hospital, as já cansativas e, até, desagradáveis comparações à falecida Princesa Diana, esquece-se, ou faz por se esquecer, do que por cá vai acontecendo.

Esta semana foi empossado um novo Governo [3], cuja constituição me abstenho de comentar. Não vou entrar em polémicas sobre a nomeação de Rui Machete e as suas ligações ao BPN [4]. Em relação a este assunto, a única coisa que se me afigura aventar é que é mau demais para ser verdade. Pior do que este circo de horrores em que o circo governamental do nosso país se transformou, só mesmo a comunicação que o Presidente da República fez ao país no passado domingo [5]. No mínimo, vergonhoso… Foram treze minutos e trinta segundos de puro afago ao próprio ego, que não merece grande atenção e cuja conclusão foi só uma — a solução que o Presidente havia proposto era a melhor, mas os partidos fizeram birra e não se entenderam, por isso a única coisa a fazer foi baralhar e voltar a dar. Ah! e o Governo que estava a prazo por mais um ano, por ser instável e não garantir uma boa imagem junto dos agentes económicos e dos parceiros sociais, afinal já serve e fica até 2015. Ou seja, uma total e completa esquizofrenia política que deixou o País às portas do colapso total durante quase um mês.

E o povo português? Como reage? O que diz? O que sente? São questões que ficam por responder. Nasceu um príncipe que não é nosso, mas que entretém e distrai, e é esse o assunto que tem estado na ordem do dia dos Portugueses.

Falar de política? Para quê? Diz o povo que «eles são sempre os mesmos», que «se saírem de lá estes, vão para lá outros iguais», que «este País está perdido».

E o povo, no meio deste marasmo de inércia e de falta de consciência política e cívica, continua a viver alegremente, queixando-se de uma realidade que não faz nada para alterar. Em Setembro teremos eleições autárquicas. E o povo? O que fará? Se estiver calor, irá à praia, porque, afinal, parece que ir às urnas, expressar de forma inequívoca a sua vontade, e ter uma palavra a dizer nos destinos dos seus municípios afigura-se tão desnecessário como em qualquer sufrágio político.

4 comentários a “Entretenimento alheio ou realidade alheada?”

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