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As cuecas da democracia

Por Hélder Oliveira Coelho

A crónica de hoje é também um compêndio de três capítulos. Capítulo primeiro, consumo de substâncias pelos jovens e adolescentes. Porque é Verão [a] e o convite do calor e da noite é para abusar, falarei especialmente do álcool e de marijuana. Sobre esta, faz-se passar a ideia de que não consumir é uma caretice, uma postura retrógrada. Não faz mal nenhum, é quase tão saudável como comer salada de alface. Assim querem que a miudagem pense. Meus senhores, está profundamente errado! Não existem drogas leves. Consultem a definição da Organização Mundial de Saúde! Nenhum compêndio aceita a definição de «droga leve», quando muito o consumo social é aceite ou não! Mas droga é droga! Sempre! Pode ser usada com fins terapêuticos, ou em lazer, mas é sempre uma substância nefasta em algum sentido!

Passando ao álcool, tema que já abordei, relembro que os consumos agudos em elevada quantidade têm um efeito tóxico para o fígado tão ou mais prejudicial do que o consumo crónico, que associamos aos doentes em fase de doença hepática terminal. O comum bêbedo lá da rua! As hepatites alcoólicas agudas, tão frequentes em época de «queimas» ou de festivais de Verão, são um primeiro passo para a cirrose e para o cancro do fígado, carcinoma hepatocelular! Relembro ainda os efeitos terríveis no cérebro dos miúdos com menos de vinte e um anos! Paizinhos, quando os adolescentes que têm por casa argumentarem que também o vizinho sai ao Sábado à noite até tarde, lembrem-se de confirmar que o trauma de não sair é menos lesivo do que um cancro ou uma hepatite, mais tarde! Já agora, o lugar de um miúdo com treze ou catorze anos é seguramente em casa a ler um bom livro de aventuras antes de dormir e não no jardim da cidade até à meia-noite a aprender como se quebram regras! E a ideia peregrina de que os nossos são diferentes e não vão consumir, ou de que, como é ilegal, os comerciantes não vão vender, é isso mesmo, uma ideia peregrina e profundamente errada! Este capítulo não está encerrado, é um convite a um maior cuidado!

O segundo capítulo que hoje abro é a moda! A liberdade estética foi um conceito inventado para desculpar as almas, cujo mau gosto é tal, que precisam de aceitação social através de um pseudo- arrojo, escondendo a verdadeira essência de si por trás da capa da moda! O mau gosto não é um defeito, é uma característica a ser contrariada! Passo a exemplificar como isto está verdadeiramente enraizado, mas, pior, está a mudar por completo toda a imagética comportamental das nossas juventudes. Lembro-me com saudade da excitação que era o momento em que o vento ou uma mão marota deixava ver as cuecas de uma rapariga! Ou o sorriso de escárnio e excitação que uma queda de calções na aula de Educação Física provocava nas miúdas por verem os bóxeres ao rapaz! Pois bem… hoje quase podemos escolher os nossos amigos pelo critério cueca! Gosto deste que tem bonecos, gosto daquela que usa fio dental, não gosto do outro que é um porcalhão — ou são sempre iguais, ou são sempre as mesmas! Não as camisas, mas as cuecas! O conceito «roupa interior» diz alguma coisa a alguém?! Aliás, o conceito de «íntimo» ainda diz algo a alguém?! É que, se é interior, evidente me parece que ande por dentro das saias ou das calças! Digo eu, que sou um jovem velho do Restelo com duas décadas de vida! Pior do que um miúdo com este comportamento, que só demonstra a falta de cuidado dos pais, é ver jovens adultos com a mesma atitude! Quanto mais não seja, em nome do imaginário erótico de cada um, guardem lá a roupa interior para dentro, passe a redundância!

Último capítulo, o sol! Portugal é o país do sol, cada vez menos dúvidas tenho! O nosso Verão permite que desfrutemos do sol da melhor forma! Faço, portanto, dois grandes avisos: o primeiro, protejam-se; o segundo, mantenham-se atentos à actividade política, usem óculos de sol, se for caso disso, mas não se deixem ofuscar. Há muito para fazer e é também uma responsabilidade de quem elege lutar para que os eleitos façam alguma coisa deste mar de sol! E o sol deste Portugal viu pela primeira vez uma mulher a presidir à casa da democracia! Não é apenas uma questão de género, é também um gesto de grande maturidade democrática!

Óptimas férias para todos e, já agora, festejem bem o São João!


Nota:

a: Esta crónica foi originalmente difundida na Rádio Altitude [1] em 24 de Junho de 2011 (N. do E.).

Um comentário a “As cuecas da democracia”

[…] Neste primeiro ano, 4.545 pessoas passaram pela Rua da Constituição, 38 das quais de metro. A leitura mais popular no Muro das Lamentações foi sobre os medicamentos genéricos. Do Hugo, os leitores preferiram a sua descrição das dificuldades de implantar uma moeda comum. Já o título mais lido da Ana foi sobre o panem et circenses e o alheamento da realidade. Finalmente, do Hélder, o leitores preferiram a sua crónica da democracia em cuecas. […]

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