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Leituras de Verão

Por Hugo Pinto de Abreu

Verão: para muitos, incluindo eu próprio, é tempo de férias. E tanto precisamos de férias!

Mas não precisamos de férias apenas no sentido de nos afastarmos do trabalho que habitualmente fazemos, daquilo que nos ocupa. Se queremos deveras descansar e recuperar energia, é necessário que nos afastemos por algum tempo daquilo que mais nos preocupa.

Crise económica, crise política, mercados, «swaps», desemprego… Tudo isto nos preocupa, e, de certa forma, bem. Mas, para não corrermos o risco de ficar obcecados sobre assuntos que, aliás, nem sequer estão, em grande medida, sob o nosso controlo, é preciso que, pelo menos durante uns dias, desliguemos de tudo isso e levemos o espírito para outras paragens. É bom levar o corpo, mas fazer viajar o espírito é o fundamental.

Nesse sentido, venho fazer aos caríssimos leitores recomendações de dois tipos. A primeira é simples, e é como que um passo prévio para criar alguma paz interior, para arrancar o espírito das correntes que o aprisionam: desligar a televisão. Estou a assumir que o leitor é, ou vive com, aquele tipo de pessoa informada que tem permanentemente a televisão num canal de notícias 24 sobre 24 horas. Por amor de Deus, ou pelo menos por amor à sua saúde, desligue.

Num aparte muito pessoal, eu confesso estar enojado desse tipo de canal onde desfilam – e onde presidem — pseudo-sábios [1], que se conferem mutuamente (e a si mesmos) um ar de gravidade deveras interessante para quem, em boa parte dos casos, se dedica à mesma ciência dos cartomantes: a charlatanice da conjuntura sem fim e da futurologia desassombrada e, todavia, assombrosa. Mas deixemos o desabafo de lado, e fique a recomendação: se ainda tem amor à sua alma, desligue a televisão. Se não conseguir desligar, pelo menos não passe a vida a ver noticiários, sob a pena de as suas férias (e a sua vida) não terem qualquer notícia digna de registo. Veja antes o «Big Brother», pode ser que isso o motive a finalmente desligar o aparelho.

Desligado o trambolho (perdoe-me o leitor a irritação), dedique-se à leitura. Mas, com todo o respeito, não leia, por favor, os livros escritos pelos neo-cartomantes que povoam a televisão, sob pena de, uma vez mais, não conseguir levar o espírito de férias. Então, que ler? Venho aqui deixar três sugestões, do mesmo autor.

Só este ano «descobri» Júlio Dinis, e dizer que fiquei encantado é pouco. Fiquei absolutamente rendido à qualidade da sua escrita, à perícia com que descreve, mais do que ambientes físicos, ambientes sociais, psicológicos e até mesmo ideológicos. Júlio Dinis leva-nos ao Portugal de meados do século XIX, um Portugal desencontrado consigo próprio – como aliás o nosso Portugal neste início do século XXI — ainda no rescaldo da perda do Brasil, das Invasões Napoleónicas e, sobretudo, da Guerra Civil.

Nos seus romances, encontramos também, claro está, belíssimas histórias de amor, a que normalmente não são alheias as condicionantes sociais do seu contexto histórico. É difícil explicar o quanto estas histórias nos conseguem cativar, mas, de facto, cativam ao ponto de o autor nos deixar a torcer, literalmente, por um determinado desfecho, como se fosse a nossa própria felicidade que estivesse em jogo.

E, o que é importante para este tempo depressivo em que vivemos, são obras críticas, sim, mas não derrotistas, nunca derrotistas. Nele não se vislumbra nunca esse lamentável e provinciano desprezo por Portugal e pelos Portugueses que encontramos noutros autores. São, verdadeiramente, obras saudáveis.

É nesse sentido que convido o leitor a, neste Verão, dedicar-se à leitura de três livros de Júlio Dinis (ou pelo menos de algum deles): «Uma Família Inglesa», particularmente recomendada para os Portuenses (pois no Porto se desenrola); «A Morgadinha dos Canaviais», uma magnífica história sobre um Lisboeta — no fundo, um cidadão moderno, poderia ser eu, ou porventura o leitor — que descobre os encantos do Minho e da paz que o campo e o recato da vida familiar podem trazer; «Os Fidalgos da Casa Mourisca», uma verdadeira lição sobre o valor do trabalho e sobre a essência da verdadeira nobreza.

Quanto a mim, tenho uma resolução adicional: ir ao Cemitério de Agramonte, onde está sepultado Joaquim Guilherme Gomes Coelho e agradecer-lhe pelo que nos deixou Júlio Dinis, e, em particular, como diz e muito bem o seu artigo na Wikipédia [2], porque «viu sempre o mundo pelo prisma da fraternidade, do optimismo, dos sentimentos sadios do amor e da esperança».

Porventura o leitor se junte a mim, e lá nos encontremos.

4 comentários a “Leituras de Verão”

Olá, Hugo. Gostei muito deste teu texto. Li Júlio Dinis ainda adolescente e revejo-me na tua apreciação deste escritor. Lembro-me que, na altura, fiquei especialmente encantado com “Uma Família Inglesa”. Olha, deste-me vontade de voltar a este livro, após tantos anos de distância. Obrigado por isso. Abraço.

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