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O Muro das Lamentações

O erro de Henrique Raposo

Por Gustavo Martins-Coelho

Na sua sanha antissocrática, Henrique Raposo chegou a publicar, em 2010, no seu blogue no Expresso [1], um artigo em que defendia que a emigração contribuía para a manutenção do PS no poder [2]. Tal conclusão fora extraída a partir das observações dum blogue dum, na altura obscuro, professor da Universidade Simon Fraser, no Canadá, um tal Álvaro Santos Pereira [3], que viria a ser ministro. Eu achei por bem refutar essa argumentação e hoje deixo aqui a reedição, com pequenas alterações, do que escrevi na altura.

Poderia começar por referir que os dados do Álvaro (na altura, ainda julgava que ele preferiria ser conhecido por Santos Pereira, como a maioria dos investigadores científicos) que Raposo citava não coincidiam com os de entidades credíveis como são o INE [4], a Pordata [5], o Eurostat [6] ou a OCDE [7], além de não se encontrarem, pelo menos até ao momento em que este meu texto foi originalmente editado, publicados em nenhuma revista da especialidade. Admitamos, porém, que são verdadeiros.

Raposo começa por argumentar que a emigração em massa de setecentos mil Portugueses «é a grande herança de José Sócrates e da Era Socialista (1995-2010)». O primeiro erro consiste em escamotear a contribuição da herança barroso-santanista entre 2002 e 2005. Mas o segundo erro é ainda mais clamoroso: uma olhadela mais atenta aos dados do Álvaro [8] permite observar que a emigração decresceu entre 1974 e 1985, recomeçou a sua escalada entre 1985 e 1995 (os anos do cavaquismo [9]), decresceu novamente entre 1996 e 2001 (durante o guterrismo), para novamente crescer a partir de 2002 (quando Durão Barroso era Primeiro-Ministro). Não pretendo afirmar que os governos do PSD promovem a emigração, pois me parece tão descabido de sentido como assacar o mesmo tipo de culpa aos do PS; tão-só demonstrar como facilmente se pode virar a demagogia de Raposo contra si.

Onde Raposo é clamorosamente desonesto é na sua interpretação de que, se os tais setecentos mil Portugueses que emigraram tivessem ficado em Portugal, derrubariam eleitoralmente o PS. Mais uma vez, Raposo ignora convenientemente que esses setecentos mil têm o direito de eleger quatro deputados que os representam na Assembleia da República; mais do que, por exemplo, podem eleger os Portugueses que residem no distrito de Portalegre. Portanto, afirmar que os emigrantes não podem mais fazer a diferença em Portugal é, no mínimo, falacioso.

A isto acrescem alguns dados que Raposo também omite, por desmentirem cabalmente a sua tese. Em primeiro lugar, tanto em 2005 como em 2009, o PS obteve mais votos do que o PSD nos círculos da emigração, pelo que, se os emigrantes regressassem, é lícito assumir que aumentariam a margem do PS e não o contrário. Em segundo lugar, a abstenção entre os emigrantes foi mais do dobro daquela entre os residentes em Portugal, o que ajuíza do grau de interesse dos primeiros pelos assuntos políticos do seu País de origem. Mas Raposo, aparentemente, conta com estes abstencionistas para livrarem o País das garras do socialismo. Finalmente, Raposo esquece também que a diferença entre PS e PSD nas últimas eleições foi superior ao número de emigrantes recenseados, isto é, mesmo que todos os emigrantes tivessem votado no PSD, ainda assim o PS seria o partido mais votado em termos globais.

Para concluir, mesmo que todas as premissas de Raposo estivessem correctas (e já ficou demonstrado que não estão), não é possível extrapolar qual seria a opção eleitoral dos setecentos mil Portugueses que emigraram, se o não tivessem feito. Afirmar, hoje em dia, que os motivos que levaram alguém a decidir partir são predominantemente políticos é ofensivo para todos aqueles que tiveram de escapar a uma guerra colonial e a um regime político que cerceava a liberdade de escrever textos do teor do de Raposo.

Diz-se que o pior cego é aquele que não quer ver. Raposo demonstrou primorosamente como facilmente se pode distorcer os factos para os adaptar à conveniência dos argumentos.

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