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Os pára-choques do ego

Por Hélder Oliveira Coelho

Dizia-me um amigo:

— Falamos como a geração de setenta.

Eu, por momentos, pensei que se referia aos Estrumpfes [1], atendendo a que continuo a tratá-los por essa designação, ou não fosse um original belga. Tal como a Molin, que, por muitos, foi pronunciada «Molan», que, sendo uma produção nacional, era enunciada como se um produto de importação se tratasse.

Afinal, o busílis não estava nos Estrumpfes, mas anda por perto. O ponto é o Principezinho. Livro infantil, muito bem escrito. Devo tê-lo lido com dez anos. Até aqui, tudo bem. Ora e onde Estrumpfes e o Principezinho se encontram? Na decadência. Separadamente, são obras que me agradam bastante. Todavia, representam obras do imaginário infantil. A grandeza de um povo está na capacidade de manter a elevação. Se o plano de discussão cursar na faixa infantil, citações do Principezinho ou momentos de moral afectivo-social entre Estrumpfes parece-me óptimo. Quando as citações sobem ao plano parlamentar… Aí aflijo-me, arrepio-me, perturbo-me. Porque nem Saint-Exupéry chega a ser citado. Ficam-se por um qualquer jargão humorístico, de um qualquer bobo da nova era. E se, da boca dos bobos, não raras vezes, surge a razão, custa-me que a casa da razão se resuma a bocas de bobos.

Do tempo em que, para redigir leis, se contava com a eloquência de Alexandre Herculano ou Garrett, chegou-se à época em que, para se ser deputado, basta saber assinar o nome sem erros ortográficos. Claro está que é chique e bem inglesar ou afrancesar o discurso. Acrescenta um jeito cosmopolita. Um pó de arroz de pluralismo à mais provinciana das criaturas. Surge o adjectivo «interessante». Quando nada com interesse surge para dizer, eis que surge a palavra interessante. Ou é de mim, ou aplica-se o termo como figura de estilo.

Mal vai um Estado em cuja máxima referência literária vive num conto infantil.

Na senda de entender em qual ponto da década de setenta se prendia o meu discurso, dou-me conta que o meu erro de compreensão estava no século. Não tenho um discurso próximo à década de setenta do século XX. Isso só por si já seria bastante mau. Significava que não tinha qualquer poder de elevação e fuga do que foi o caos político e social que deu origem ao meu mundo hoje. Não obstante a genialidade de quem viveu nesse período, o discurso estaria próximo à década de setenta do século XIX. Se ver-me comparado a Eça é um sacrilégio — quem dera que eu lhe soubesse um décimo! — não é menos desesperante perceber que, ou o mundo não evoluiu nestes 130 anos, ou eu sou uma cópia reles do que aquela gente foi.

Em suma, os amigos são os pára-choques do ego e é bom que assim seja.

2 comentários a “Os pára-choques do ego”

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