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O Muro das Lamentações

Preocupações

Por Gustavo Martins-Coelho

Este artigo é de 2008. Reedito-o porque a promiscuidade entre interesses económicos, particularmente ligados a determinados sectores, dos quais o imobiliário e a construção civil é apenas um exemplo, e poder político continua a ser um problema que persiste em não se resolver.

Passou mais ou menos despercebida em 2008, quase com estatuto de fait-divers, a notícia de que a Somague foi condenada ao pagamento duma coima relativamente avultada devido a financiamentos ilícitos ao Partido Social Democrata [1]. Eu apanhei a notícia quase por acaso e fiquei preocupado.

Antes que os mais optimistas digam que tais preocupações não têm fundamento, eu explico. O PSD é um dos maiores partidos políticos portugueses, ocupando uma fatia substancial dos lugares da Assembleia da República legislatura após legislatura e formando periodicamente Governo nesse saudável regime de alternância democrática bipartidária. A Somague, por sua vez, é uma grande empresa de construção civil portuguesa.

Sem querer levantar suspeitas quanto às boas intenções de ambas as partes — quem deu e quem recebeu o dinheiro —, é difícil deixar de somar dois e dois: dum lado, temos um partido que necessariamente adjudica obras públicas quando forma Governo e que administra presentemente várias autarquias pelo País fora; do outro, uma empresa que quer ganhar concursos internacionais de obras públicas e licenciar (ou, pelo menos, agilizar o processo) projectos de construção civil.

Com estes dados na mão, acho que todos, enquanto cidadãos dum País que se diz um Estado de Direito, temos motivos para estar preocupados quando a Somague financia ilegalmente o PSD, porque isso permite todo o tipo de questões relativamente à idoneidade das decisões tomadas, alegadamente, no nosso melhor interesse.

3 comentários a “Preocupações”

Seria interessante, se fosse possível, inserir a notícia publicada na imprensa (jornais, revistas ou outra) sobre o comportamento da Somague e também do PSD.

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