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Contrastes

Por Ana Raimundo Santos

As tontices da «silly season»…

Os últimos dois meses constituem aquela altura do ano em que os políticos se mudam de armas e bagagens para o Algarve — a chamada silly season — e na qual se veem nos meios de comunicação social as imagens mais deprimentes que se pode imaginar.

Meus caros diretores de qualquer jornal em papel que circule em Portugal, ninguém quer ver políticos em calções de banho, tangas ou afins. Para desnudado já chega o País e o estado a que as finanças públicas chegaram. Deu para perceber ou precisam de mais alguma explicação? Ver políticos, seja de que forma for, já tem o seu quê de deprimente. Ver políticos sem roupa é quase um crime de ofensa à integridade visual (caso estivéssemos perante um crime tipificado na lei penal portuguesa), se bem que, se considerarmos a visão como parte da nossa integridade física, então a publicação de tais imagens é mesmo criminosa.

Outro pequeno aparte que urge salientar refere-se aos temas relacionados com as férias dos ditos políticos. O que é que interessa se o Primeiro-Ministro não é apupado, ou se há pessoas que, coitadinhas, já fustigadas pelo sol e pelo calor infernal que esteve aqui há dias, o cumprimentam de forma simpática? Qual é a relevância do Presidente da República levar diplomas para analisar e apreciar nas suas férias na Coelha? Por amor de Deus, tanta tontice junta é demasiado aviltante!

… num País em chamas

Infelizmente, nem só de fotografias de políticos em trajes menores ou notícias perfeitamente ridículas se faz a silly season em Portugal. Se esta altura do ano fosse marcada apenas pelas tontices de um país que tem muito pouco mais a mostrar, estaria eu feliz e contente, sem muito que me moesse a cabeça até meados de setembro. Só que a realidade é outra, muito mais cruel e violenta. Verão e calor são tristes sinónimos de incêndios, destruição e morte.

Ainda na semana que passou morreu uma bombeira de apenas 23 anos, que deu a vida de forma corajosa para tentar apagar um fogo cujos contornos da ignição ainda se encontram por esclarecer [1]. Com a sua morte fica órfã uma criança de quatro anos, que irá crescer sem mãe, provavelmente porque algum lunático resolver provocar um incêndio, ou porque algum proprietário não teve os cuidados que deveria ter tido em limpar as suas matas, ou porque os interesses económicos de alguém se sobrepuseram à existência da floresta naquela zona específica. Uma criança cujo facto de saber que a mãe morreu como uma heroína não vai nunca compensar a sua ausência, o beijo de boa noite, o aconchegar dos lençóis, o primeiro dia de escola, o primeiro namorado, o dia do casamento, etc.

Nesta crónica, não poderia deixar de associar-me a todos aqueles que demonstraram o seu agradecimento à Ana [2] e a todos os bombeiros que de um modo corajoso e altruísta lutam contra os incêndios de Verão para que nós possamos, de uma forma ou de outra, continuar a viver as nossas vidas em paz e sossego e sem a preocupação de vermos, literalmente, arder todo o trabalho de uma vida.

Aos Bombeiros Voluntários de Portugal o meu muito sincero obrigada! por continuarem a lutar por nós.

2 comentários a “Contrastes”

Associo-me ao agradecimento da autora à luta árdua dos Bombeiros Voluntários de Portugal, para minimizarem os prejuízos ambientais e económicos e para protegerem as pessoas e os seus bens. Luta desigual que algumas vezes lhes custa a sua vida.

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