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Crónicas Altitude

Viver perigosamente

Por Hélder Oliveira Coelho

Há quem goste de viver perigosamente. O limiar entre o proibido, o ilícito e o risco de ser apanhado a transgredir oferece uma dose extra de adrenalina. Não tenho nada contra. Acho até uma certa graça. Ao preço a que estão as artes, os apetrechos de auto-satisfação nas sex shops, os ginásios, os cinemas, os teatros, enfim… os desportos radicais nem se fala, é coisa de endinheirado! Compreendo que haja necessidade de procurar outros meios de manter elevados os níveis de adrenalina.

A mim, que sou um tipo de gostos muito simples, basta-me a RTP Memória. Quando em momentos de grande loucura, se quero sentir a pulsação subir, arrisco tudo e sou pessoa para consumir cinco a dez minutos do programa do Malato!

Claro que há quem goste de coisas mais arrojadas. Não critico. Nada que não me tenha já passado pela ideia.

Comer estrume de cavalo, snifar herbicidas e pesticidas. Comer cogumelos venenosos, fazer bolinhos com derivados de marijuana, malabarismo com motosserras em funcionamento, ou com agulhas usadas por VIH positivos. Estabelecer o coito oral com canibais. Ou tentar cozinhar filetes de piranha com piranhas ainda vivas. Assaltar bancos, conduzir os carros do papá, com alta cilindrada, em contramão na auto-estrada, beber até cair de embriagado e matar um ou dois totós que estupidamente cumprem as regras de trânsito. Em suma, haverá um cento de coisas agradáveis que podemos fazer para subir os níveis de adrenalina e alhearmo-nos do mundo em geral.

Em regra, tudo é encarado com uma dose quase leviana de superficialidade. Ganha nova dimensão quando alguém morre, ou é hospitalizado. Há coisas nas quais somos excessivamente proteccionistas. Outras nas quais somos mais imprudentes no momento de lavar as mãos do que Pilatos.

Noticiou-se há pouco que um grupo de miúdos acabou no hospital depois de usar umas coisas estranhas que servem para adubar terras, matar insectos e obviamente apanhar grandes mocas! Nem pergunto onde e como o acesso a isso foi possível. Na prática, não pergunto porque todos sabemos. É mais difícil abrir uma tasquinha na esquina do que uma loja de drogas lícitas. Já dediquei algumas crónicas aos perigos quotidianos e aos consumos de álcool e drogas pelos jovens, mas não posso deixar de ficar perplexo face à leveza com que os temas são encarados. Enquanto as coisas acontecem no conforto pobrezinho dos nossos lares, sem que grande alarido se crie, então está tudo bem. Quando as vítimas do disparate acabam na cama de um hospital, aí o valor das vidas destes miúdos ganha o devido respeito.

Na realidade, a crise da troika é o menor dos nossos problemas.

No dia de hoje, não posso deixar de evocar a memória de um dos maiores vultos da nossa nação. Faz precisamente hoje 105 anos que o Rei D. Carlos fui brutalmente assassinado, bem como o Príncipe Luís Filipe.

O tempo permitiu constatar que, mais do que um rei, se perdeu um homem de grande saber. 105 anos depois, a situação política e económica do País não está muito diferente. Estou certo que D. Carlos morreu em vão; o nosso problema não é o regime.

Termino com um apelo e dois elogios.

A Avenida dos Bombeiros [1] foi remodelada recentemente, como se sabe. Pois bem, senhores autarcas, caminhem por ela à noite. Escolham uma noite sem lua ou com nevoeiro. Atente-se que eu disse «ou», porque nem sequer é necessário que ambas as condições se cumpram. Basta uma delas. Tentem caminhar pela Avenida e vejam o quão assustadora ela está! Assustadora e perigosa. Um escuro de breu. Tenebroso e arrepiante. Experimentem caminhar por aqueles passeios.

Não fosse pelo TMG [2] e, quando aqui venho, pensaria que a cidade tinha sido fechada e nem se deu conta disso. E, para quem pensa que só fora das montanhas da serra se trabalha com qualidade, deixo o meu abraço felicitador ao dr. Augusto Lourenço, que, ao que consta nos meandros da classe, faz história na cirurgia.

2 comentários a “Viver perigosamente”

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