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Transporte Humano

Manifesto

Por Jarrett Walker [a]

Bem-vindo. Falemos de transporte colectivo.

O meu nome é Jarrett Walker [1] e esta é a minha coluna [2]. Sou consultor de planeamento de transporte colectivo desde 1991, ajudando a desenhar redes e políticas de transporte colectivo para um grande número de localidades. O meu objectivo aqui é estimular diálogos sobre como o transporte colectivo funciona e como podemos usá-lo para criar cidades e vilas melhores.

Um pouco sobre mim

Estou neste ramo porque, quando era adolescente, nos anos 1970, vivi uma revolução numa terra chamada Portland, no estado de Oregon (EUA). Em 1972, o Oregon aprovou as suas famosas leis de ordenamento do território, com o objectivo de proteger as terras agrícolas da expansão urbana relacionada com o tráfego automóvel e, nos anos que se seguiram, Portland introduziu uma série de medidas para mudar de rumo.

A cidade demoliu uma auto-estrada litoral e substituiu-a por um parque. Restringiu o acesso a duas ruas que atravessavam o centro aos veículos afectos ao transporte público, de forma a impedir que o trânsito dificultasse a sua passagem. Cancelou um projecto de auto-estrada existente, que teria destruído alguns bairros antigos se tivesse avançado. Começou a planear o sistema de metro ligeiro que hoje é conhecido como MAX. E introduziu uma séria de pequenas alterações, quarteirão a quarteirão, caso a caso, que definiram um novo rumo para a cidade. É difícil encontrar outra cidade que tenha mudado o seu caminho tão depressa ou de modo tão radical. Experimentar esta transformação enquanto adoelscente — nas minhas deslocações pendulares de autocarro através duma «baixa» que se tornava mais vibrante a cada dia – ensinou-me a acreditar que é possível mudar rapidamente os fundamentos de como uma cidade se imagina e se constrói.

De certa forma, a minha carreira no planeamento de transporte colectivo tem consistido em criar e gerir este tipo de mudança. Eu liderei a reformulação de muitas redes de autocarros, desenvolvi planos estratégicos para o transporte colectivo, e escrevi guiões que definem a política de transporte colectivo e qual o seu papel numa cidade. Durante a minha permanência em Vancouver, tive o privilégio de trabalhar com arquitectos e urbanistas talentosos em projectos de novos centros urbanos. Durante vários anos, trabalhei com o Departamento de Transportes da Cidade de Seattle em vários grandes projectos, incluindo um plano de transporte colectivo para o centro, uma rede geral de transporte colectivo a longo prazo para toda a cidade, e planos de optimização das ruas para a circulação de veículos de transporte colectivo.

Eu vivi durante longos períodos, geralmente sem carro, em São Francisco, Vancouver, Portland, Sydney, Paris, Oxford e num subúrbio arborizado chamado Claremont, a leste de Los Angeles. Iniciei o meu blogue [3] enquanto vivia em Sydney, mas mudei-me para Vancouver em Abril de 2011 e regressei a Portland em Dezembro desse ano. Actualmente, tenho a minha própria empresa, a Jarrett Walker + Associates [1], mas o meu trabalho na Austrália e na Nova Zelândia faz-se através da McCormick Rankin Cagney [4] (MRC), uma grande empresa dedicada ao planeamento e gestão do transporte colectivo nessa região.

Sobre a coluna

Nesta coluna, comentarei a evolução do transporte colectivo no mundo desenvolvido, em particular a América do Norte.

O meu objectivo não é fazer o leitor partilhar dos meus valores, mas antes apresentar perspectivas que o ajudem a clarificar os seus. Muito do meu trabalho tem consistido em analisar os problemas do transporte colectivo no sentido de separar a questão técnica da questão sobre os valores. Pegando num exemplo simples, a maioria das empresas de transporte colectivo afirma procurar maximizar a utilização, mas também operam linhas de baixa procura que têm outros objectivos, tais como fornecer mobilidade básica a pessoas dependentes do transporte colectivo que vivem em zonas de reduzida utilização. Cada entidade tem de decidir, explicitamente ou não, se irá investir em aumentar a clientela, ou em dar resposta às necessidades de serviço público. Colocada desta forma, esta é uma questão de valores. Não existe uma resposta técnica, pois trata-se duma questão sobre o que a sociedade considera ser mais importante. O meu papel é identificar a questão propriamente dita, mostrar como ela se insinua em debates que parecem ser sobre outro tópico qualquer, e auxiliar o leitor a formar uma opinião baseada nos seus próprios valores.

Os debates sobre o transporte público são muitas vezes uma mistura confusa de informação técnica e juízos de valor. Por vezes, os envolvidos no debate servem-se deste emaranhado para favorecer as suas próprias intenções. Quando alguém que fala sobre transporte colectivo atira para cima da mesa detalhes técnicos que o cidadão comum não tem formação especializada para compreender, ainda que possa estar a apresentar um ponto de vista válido, está porventura também a tentar excluir o seu interlocutor da discussão.

Na qualidade de perito em transporte público, alerto para o facto do esforço de desenvolver uma boa rede de transporte colectivo não dever nunca ser deixado inteiramente a cargo dos peritos. A sociedade decide e expressa os seus objectivos para o transporte colectivo e então os peritos desenham um sistema que vá ao encontro desses objectivos. Mas não devem ser os peritos a definir esses objectivos. Os cidadãos e os seus governantes eleitos têm o direito a uma explicação clara sobre quais as escolhas que enfrentam e a uma oportunidade de expor os seus pontos de vista sobre essas escolhas. Eu acredito que cada cidadão tem o direito a debater os seus serviços públicos em termos que lhe sejam familiares. Muito do meu trabalho tem consistido em criar esse debate, e eu vou tentar continuar esse processo aqui.

O outro problema dos especialistas em transportes colectivos é a sua diversidade. As agências responsáveis geralmente recrutam pessoal com uma grande variedade de experiência académica e profissional, desde antigos motoristas de autocarro até engenheiros, passando por profissionais formados em marketing ou gestão. Não existe, na realidade, nenhuma habilitação académica específica partilhada por todos os que trabalham na área, como acontece em ramos como a engenharia e a arquitectura.

Esta permeabilidade do ramo do transporte colectivo e a facilidade com que pode ser acedido por profissionais provenientes doutras disciplinas é, em si, positiva. A última coisa de que necessitamos é outro clero uniforme e reverenciado a trabalhar com base num único livro sagrado, como foi o caso da cultura das auto-estradas na era das Interestaduais [5] nos Estados Unidos. Uma vez que muitas especialidades diferentes se cruzam neste ramo, é importante não tratar os peritos como a autoridade máxima, e isso inclui-me a mim. Eu irei, inevitavelmente, exprimir os meus próprios valores aqui e além, mas o meu objectivo principal é ajudar o leitor a exprimir os seus duma forma que possa ter algum impacto na comunidade em que está inserido.

Finalmente, devo confessar que passei a minha juventude em Stanford a doutorar-me na área da literatura. Esta aprendizagem é mais relevante do que possa parecer à primeira vista, porque a teoria literária tem a ver com o que vai no interior duma língua. A linguagem dos debates sobre transportes públicos é muitas vezes profundamente incoerente, pois a maioria das palavras-chave foi importada doutros ramos. Além disso, o transporte colectivo é um ponto de cruzamento de várias linguagens diferentes, mas sobrepostas. Os operadores de autocarros falam uma língua, as equipas de marketing falam outra, os arquitectos e os urbanistas outra ainda. Um debate sobre transporte colectivo requer um grande esforço de tradução para que todos os elementos envolvidos consigam compreender o que está a ser discutido; mas, o que é mais, os próprios emissores da linguagem devem procurar entender como se constroem as palavras que usam, e procurar perceber se transportam um lastro que não desejam.

Sobre os comentários

Os comentários construtivos dos leitores são absolutamente essenciais para esta coluna. O transporte colectivo é um grande campo onde mesmo o perito mais experiente ainda tem imenso que aprender. Dentro dos limites da educação e da coerência, espero deixar que o debate flua, e aprender tanto desta experiência como o leitor.


Nota:

a: Este artigo foi adaptado do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

3 comentários a “Manifesto”

Felicito o autor e o editor pelo tema escolhido. Aguardo novos desenvolvimentos sob várias perspectivas tendo subjacente o que o autor refere: “A sociedade decide e expressa os seus objectivos para o transporte colectivo e então os peritos desenham um sistema que vá ao encontro desses objectivos.” Este “ir ao encontro” deve ser observado em qualquer serviço (ou trabalho) público.

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