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O Muro das Lamentações

Estou a ser escutado?

Por Gustavo Martins-Coelho

Entre as várias características que tornam Portugal um país único [1], uma delas é a sua capacidade para criar episódios rocambolescos, tais como dar a escolher a duquesas entre sair pela porta ou pela janela [2], ou aquela famosa portaria de 1953 [3], em que se punia quem pusesse a língua naquilo com 150$00 de multa, prisão e fotografia do prevaricador (sem especificar a pose). Uma dessas histórias rocambolescas passou-se em 2009 e, se a relembro aqui, é porque, na altura, escrevi a seu propósito, mais para conseguir perceber algum sentido na história do que para outra coisa.

Desde o seu início que o assunto das putativas escutas instaladas a mando do Governo no Palácio de Belém para espiar a vida de Cavaco Silva não me mereceu mais do que um ou dois minutos de atenção (sobretudo por ter cada vez menos fé naquilo que é diariamente publicado na imprensa e que resulta mais da necessidade de vender sangue do que na verificação isenta dos factos), pelo que apenas sei muito por alto o que andou a ser badalado na comunicação social.

No entanto, o último texto de Fernando Lima no Expresso acaba por ser a cereja em cima do bolo de toda uma situação no mínimo burlesca e que, contas feitas, acaba por só retirar dignidade àquele que é considerado o quarto órgão de poder e que devia ter um comportamento mais consentâneo com a relevância social que assume.

Mas comecemos pelo início!

Tudo começou quando o Semanário publicou uma notícia dando como certa a colaboração de assessores do Presidente da República na elaboração do programa eleitoral do PSD, a qual foi reproduzida na página de campanha do PSD («www.politicadeverdade.com»; agora inactiva) sem se fazer acompanhar de qualquer desmentido oficial (até procurei pela palavra-chave «desmente/ido», não fosse o desmentido estar descasado da notícia numa outra secção do sítio, mas obtive apenas um resultado e tinha a ver com a TVI — contas doutro longo rosário, portanto). Como, desde pequenino, eu sempre ouvi dizer que quem cala consente, devo depreender que, quando a própria página de campanha do PSD divulga uma notícia que refere o envolvimento de assessores do Presidente da República na escrita do seu programa, tal deve ser verdade.

O mesmo raciocínio deverão ter feito os responsáveis do PS, que criticaram tal atitude, dada a suposta imparcialidade que o Presidente da República deve manter em questões partidárias. Porém, em vez de refutar esta crítica, tentando justificar a sua opção na hora de pedir pareceres acerca do seu programa eleitoral, veio o PSD, na voz de Aguiar Branco, dar o dito por não dito [4] e negar o que a página de campanha do PSD afirma para quem lá quiser ir confirmar.

Ora, foi aqui que o caldo, que já andava a ferver mais do que devia [5], foi pelo lume e entornou. Que Cavaco Silva só dedica uma mão cheia de minutos do seu tempo diário à leitura de jornais já é sabido há muito tempo. Mas para isso é que existem assessores (e não só para ditar as notícias que querem que sejam publicadas no dia seguinte). Se os assessores do Presidente dedicassem duas mãos cheias do seu tempo a ler jornais, provavelmente teriam dado com a notícia do Semanário a tempo de evitar males maiores. Mas não! O que veio a acontecer foi que, num desabafo aos jornalistas (o último lugar no mundo onde se devem fazer desabafos, está visto), Fernando Lima, assessor do Presidente da República (portanto, um dos que andariam a ajudar o PSD nos trabalhos de casa), questionou-se:

— Como é que os dirigentes do PS sabem o que fazem ou não fazem os assessores do Presidente? Será que estão a ser observados, vigiados? Estamos sob escuta ou há alguém na Presidência a passar informações? Será que Belém está sob vigilância?

Foi o suficiente para o Público publicar a sua manchete sobre alegadas escutas em Belém [6] (note-se que a possibilidade de existência de bufos em Belém não foi tão divulgada).

Já o Diário de Notícias disse que não, que Fernando Lima não estava nada a desabafar, porque gostava era de notícias por medida [7], assim ao género do que os alfaiates de outrora faziam com a roupa, mas agora por escrito.

Seguiram-se silêncios institucionais e acusações informais. Entretanto, para calar o povo, Cavaco decidiu demitir Fernando Lima [8], mas, sabe-se lá por que misteriosos desígnios (talvez para evitar que ele continuasse a tocar trombone a solo), readmitiu-o [9] posteriormente. O momento alto seguinte do folhetim foi protagonizado novamente pelo Presidente da República numa declaração ao País [10], depois das eleições [11], não fossem as peripécias desestabilizar a campanha eleitoral, que teve tanto de esclarecedor como de surreal.

Sete meses volvidos, parece que ainda não está o assunto sanado, pois Fernando Lima foi escrever no Expresso [12] que todo o caso «não passou duma teia bem urdida pelo fértil imaginário dos criadores de “factos políticos”» e o PS já reagiu [13], tendo ficado muito indignado, ao que parece.

Mas está tudo louco!?

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