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Erro de perspectiva

Por Hugo Pinto de Abreu

Vivemos numa época histórica marcada pelo pessimismo, particularmente em Portugal e na Europa, um pessimismo que é anterior à presente crise económica, e que esta só vem agravar. As razões serão certamente profundas, todavia, não é estranho que tão grande pessimismo se inculque no período — os últimos 25 a 50 anos — em que a generalidade da população tem as melhores condições de vida que alguma vez se tenham generalizado?

Penso que boa parte desse pessimismo assenta numa falta de visão e de projecto colectivos, que por sua vez pode assentar num monumental erro de perspectiva: a ideia de que não temos futuro – por exemplo, enquanto País — isto é, a ideia de que Portugal (bem como outras Nações) não tem futuro, não pode ter futuro. E por que achamos que Portugal não pode ter futuro?

Para responder a essa pergunta, tive de sondar os abismos do meu próprio pessimismo, e a resposta que encontrei — cuja universalidade não posso garantir, mas admita-se tal possibilidade — é, em traços gerais, esta: estamos no século XXI, a Reconquista já acabou há séculos, os Descobrimentos agora fazem-se no Espaço, porque cá em baixo está tudo descoberto, e, como Portugal não tem meios para explorar o Espaço por si mesmo, então Portugal já não tem razão de ser, já não está cá a fazer nada, nem serve para colonizar novos mundos nem para fazer o que quer que seja, até porque é um país tão pequeno!

Por vezes os erros crassos que grassam no nosso subconsciente só podem ser desmascarados quando colocados à luz e ao exame do consciente. Procedamos a esse exame.

Já não há mais terras distantes por descobrir, e as que há estão demasiado distantes, aparentemente fora do nosso alcance. De acordo. Mas, serão os Descobrimentos e a manutenção de um Império o alfa e o ómega de Portugal? É certo que tais eventos marcaram sobremaneira a História e a «alma» de Portugal, mas reduzir Portugal a isso é um erro. Portugal existia, e, malgrado ser quase arriscado afirmar que existe, apenas quarenta anos depois do fim do Império e quanto tantos anunciam o seu perecimento, existe ainda, e provavelmente continuará a existir.

Se, do século XV a meados do século XX, a descoberta e/ou conquista e a manutenção de Impérios coloniais foi a forma de vários países atingirem uma notável prosperidade, hoje haverá novas formas de criar maior prosperidade, porventura menos épicas, mas não menos valiosas.

A ideia de que o tamanho de um país e da sua população sejam determinantes parece também não resistir a um teste de realidade. Coloquemo-nos no século XIV, em Portugal. Se conversássemos com os nossos compatriotas de então, acreditariam eles se lhes disséssemos que o nome de Portugal ia ser conhecido sobretudo pelos Descobrimentos, colonização e povoamento de vastíssimos territórios — isto para além do Cristiano Ronaldo e do José Mourinho, evidentemente — tudo isto realizado por um país que, no início do século XV, tinha pouco mais de um milhão de habitantes [1]?

Como foi tal possível? Talvez os nossos compatriotas considerassem mais provável que Portugal conquistasse Granada, ou talvez que o domínio Português se estendesse até ao Deserto do Saara, ou até que Portugal contribuísse para a (re)conquista de Jerusalém.

Tal como hoje, não há razão para Portugal não ter um futuro, não há razão para Portugal não ter uma missão para a qual mobilize os seus melhores esforços, mas, provavelmente, não será um caminho óbvio, tal como dificilmente o rumo dos acontecimentos subsequentes era óbvio ou até mesmo adivinhável para a maior parte dos Portugueses dos primeiros dois séculos de nacionalidade.

Mas as Nações não são eternas, erguem-se e dissolvem-se. Terá chegado a hora de Portugal? Estaremos numa longa agonia que conduz à morte? Creio que não. Voltaremos a esse tema em breve. Uma coisa é certa: este mundo não deixou de ter desafios — e desafios grandes! — só por já não haver territórios a descobrir. Aliás, se a América não existisse e se a passagem Africana se tivesse revelado impossível, certamente os heróis de Quinhentos teriam encontrado outra empresa colectiva digna do seu brilhantismo. «Portugal não pereceu!».

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