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Transporte Humano

Ficar a caminho

Por Jarrett Walker [a]

Caminho 1Um dos problemas no debate do urbanismo orientado para o transporte colectivo (conhecido, entre os anglo-saxónicos, por Transit-Oriented Development [2] — TOD) é que o termo soa demasiado especializado. A imagem do TOD que é transmitida é de que se trata dum tipo especial de urbanismo, com necessidades e possibilidades especiais, e que talvez requeira um tipo especial de conhecimentos. Muitas vezes, ouve-se classificar um certo aglomerado urbano como sendo ou não um TOD, como se a orientação para o transporte colectivo não fosse — como obviamente é — um contínuo.

Além disso, a maior parte das decisões relacionadas com a urbanização e o urbanismo que irão determinar a viabilidade futura do transporte colectivo não são decisões sobre TOD. A maior parte destas decisões nem sequer são decisões conscientemente tomadas a propósito do transporte colectivo. Toda a literatura sobre «como construir TOD» é inútil nestas situações. Do que as pessoas precisam é de conhecer princípios simples sobre o transporte colectivo, que possam guardar no fundo das suas memórias e nas suas listas de tarefas, para utilizar no planeamento de todos os tipos de urbanismo. O mesmo tipo de princípios poderia auxiliar os indivíduos e as instituições na escolha da sua morada ou localização.

Como consultor na área do transporte colectivo, deparo-me constantemente com situações em que existe uma construção que impede totalmente a existência de transporte colectivo de qualidade, construção essa que, se tivesse sido feita de modo ligeiramente diferente, teria possibilitado o transporte colectivo sem comprometer nenhum dos seus outros objectivos. Também já me confrontei com situações em que instituições dependentes de transportes colectivos — tais como um serviço de apoio social a pessoas desfavorecidas ou um centro de dia para idosos — decidem estabelecer-se em locais onde o terreno é barato porque as acessibilidades são terríveis e mais tarde culpam o operador de transporte colectivo por não servir de autocarro a sua sede inacessível. Todos estes exemplos resultam de pouco respeito e compreensão do transporte colectivo como uma consideração transversal a todos os tipos de desenvolvimento urbano. Em última instância, estes exemplos são tão importantes como os TOD na definição do potencial do transporte colectivo nas cidades de amanhã.

Se eu pudesse inserir uma frase sobre o transporte colectivo na cabeça de cada promotor imobiliário, de cada urbanista, enfim, de cada pessoa que tem uma palavra a dizer na escolha da localização seja do que for, a frase seria esta: ficar a caminho! A melhor forma de assegurar um bom serviço de transporte colectivo é localizar-se a caminho entre dois destinos unidos por transporte colectivo.

Caminho 2Uma linha de transporte colectivo eficiente — e portanto uma que prestará um bom serviço — liga múltiplos pontos ao longo dum percurso relativamente rectilíneo, de modo que é percebida como uma rota directa entre quaisquer dois pontos dessa linha. Por este motivo, uma boa geografia do transporte colectivo é uma geografia em que os destinos relevantes se encontram organizados numa linha directa entre outros destinos relevantes [b].

Uma má geografia é aquela que permite a existência de becos sem saída de qualquer dimensão: os destinos situam-se ligeiramente afastados da linha, obrigando o transporte colectivo a ignorá-los ou a fazer um desvio para servi-los, sendo que tal desvio significa atrasar todos os restantes passageiros que pretendem prosseguir viagem para além desses pontos.

Este mesmo problema surge a escalas diferentes:

  • Uma pessoa que vive na extremidade dum longo beco sem saída queixa-se de não ter serviço de transporte colectivo acessível.
  • Um pequeno centro comercial ou mini-mercado é construído afastado da rua (para dar lugar ao parque de estacionamento) por onde passa o transporte colectivo.
  • Uma universidade, um hospital, um centro empresarial ou outro equipamento do mesmo tipo localizam-se no topo duma colina, frequentemente no final da única estrada que lhe dá acesso, ou numa estrada no limite da cidade, não havendo mais nada para além desse ponto. Embora esta localização possa fazer a instituição parecer e sentir-se importante, limita as possibilidades do transporte colectivo, pois apenas pode ser servida por linhas que terminem aí.
  • Um subúrbio inteiro, possivelmente um denominado TOD, tem uma localização tal que nenhuma linha de transporte colectivo que faça sentido no contexto regional poderá servir o seu centro, à excepção de linhas que o servem exclusivamente. Uma das maiores falhas do projecto de Peter Calthorpe no início dos anos 1990, denominado Laguna West [3], em Sacramento (Califórnia, EUA), é a sua localização num ponto que não é passível de serviço por nenhuma linha lógica de transporte colectivo regional. A região de Laguna West ainda hoje usufrui dum serfiço de transporte colectivo medíocre porque é impossível combinar o ser mercado com outros mercados, o que é fundamental para a existência duma linha de transporte colectivo eficiente.

Os urbanistas necessitam urgentemente de ferramentas simples para abordar estes problemas. Até estas ferramentas serem desenvolvidas e inseridas na sua formação, o melhor que têm a fazer é lembrar uma frase: ficar a caminho!

Para aprofundar o tema, convido o leitor a ler um artigo relativamente populista [4] que escrevi para uma oficina de sustentabilidade na capital australiana, Camberra [c]. Se o artigo for demasiado extenso, o leitor tem também à sua disposição uma apresentação em Powerpoint [6]. Os comentários sobre este trabalho são particularmente bem-vindos, na medida em que ele se ganho muita relevância para mim. Se o leitor conhecer bons trabalhos sobre o tema, agradeço que mos indique.


Notas:

a: Este artigo foi adaptado do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Obviamente, esta linha directa não é necessariamente uma linha recta; pode ser um percurso definido pelas ruas ou ferrovias existentes que os passageiros entendam como relativamente directo, tendo em conta as características do terreno.

c: O artigo também cobre o assunto do transbordo, mas o leitor pode saltar essa parte, visto que já leu sobre o assunto nesta coluna [5].

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