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Ser sonho vazio

Por Gustavo Martins-Coelho

Não quero dormir!

Se eu adormecer, quando acordar amanhã, o sonho que vivo hoje não existirá mais. Como se dormir representasse o fim dum ciclo, duma vida que não quero perder! Vou caminhando por entre flocos de neve.

Esta é a vida que quero para mim e sou feliz! Quero ficar eternamente acordado neste mundo de flores caídas, onde a espuma do mar se mistura com farrapos de algodão que enfeitam o céu. Deixem-me ficar acordado enquanto sorvo as últimas gotas deste orvalho refrescante que não poderei mais sentir! Deixem-me ficar acordado esta noite e todas as que virão!

Assim se encerra um ciclo na vida. Boa vida! Amanhã é outro dia e uma vida nova começa. Cada dia que passa, o sonho aproxima-se.

Isto de fazer planos tem muito que se lhe diga! Visto que nada sai como planeado, o melhor é não planear e aproveitar o momento. Qualquer resistência é inútil. Mas por que é que as coisas não podem correr como eu quero, pelo menos uma vez?

Tudo está interligado e nada sucede por acaso. É impossível prever total e exactamente as consequências dos nossos actos. Um pequeno erro pode ter consequências imprevisíveis e catastróficas. Um dia nem me lembro de que dia é e descubro, da forma mais dolorosa possível, que não sou alérgico ao veneno das abelhas. Duma maneira ou doutra, as coisas acontecem quando menos esperamos e, a maus momentos, sucedem-se inevitavelmente outros bons. A lição é aproveitar os bons momentos e não sentir demasiado os maus.

Nem sorte ao jogo, nem ao amor. A sorte somos nós que a construimos e a felicidade é um processo e não um fim. Sou um homem livre e quero aproveitar. Também eu julgava as rolas eternas… É nestas alturas que sinto a tua falta. Apesar de não te conhecer, gosto de ti.

Um dia, conheci outro Gustavo. Disse-me:

— O mundo dá muitas voltas.

Respondi-lhe:

— Pois dá. Mais precisamente, uma de vinte e quatro em vinte e quatro horas.

Tornei-me promíscuo. Não é preciso ser, basta parecer. A mesma peça pode parecer duas totalmente diferentes quando interpretada por músicos diferentes! A música de Natal é uma coisa extremamente chata! Vi o Pai Natal a assaltar uma casa.

É mais importante parecer do que ser, vestir do que pensar, meramente existir do que sonhar. Nem sequer é necessário ser excelente para singrar na vida; basta ser mais ou menos bom ou até razoável e ter sorte ou muita lábia. Se se tiver estas duas últimas coisas, nem é preciso ter nenhuma outra qualidade.

Agora compreendo essa tua necessidade de atenção permanente, de sair todos os dias, de jantar fora, de ir ao cinema, de tomar café, de aparecer em casa das pessoas sem avisar e arrastá-las para aqui e para ali. Agora compreendo essa tua fome de viver a correr, de fazer tudo muito depressa, como se o mundo fosse acabar amanhã. Agora compreendo tudo isso, porque agora sinto o mesmo e compreendo por que o sinto. Essa vontade de estar permanentemente ocupado, de fazer muita coisa, de conhecer todo o mundo e de sair com muita gente, de passar os dias fora de casa, vem da necessidade de preencher esse vazio que tens dentro de ti, assim como eu descobri agora esse enorme vazio que deixaste e que procuro preencher, embora nunca consiga, porque é um saco sem fundo, que nunca fica cheio, por mais que lá despeje coisas. Tu foste o mais perto do céu que eu alguma vez estive.

Assim vai andando a vida, às vezes vazia, às vezes cheia demais. E nós sempre queremos enchê-la quando está vazia e esvaziá-la quando está cheia, sem saber aproveitar o tempo livre quando está vazia nem querer dar o melhor de nós quando ela nos pede tudo.

Tinha um cesto de maçãs biológicas, pequenas, bichadas, mas doces e sumarentas e larguei-o para pegar nas maçãs grandes e vistosas que afinal eram só água e hormonas de crescimento. E agora as minhas maçãs estão espalhadas pelo chão.

Pensar na vida, nos erros que cometi, nas coisas boas que fiz e no equilíbrio entre ambas. Questionar se poderia ter seguido um caminho diferente, se hoje seria o que sou se, em vez de ter virado para um lado, tivesse virado para o outro.

Às vezes, arrependo-me dalgumas coisas, mas as alternativas também não me parecem viáveis, e isso desconsola-me. É como se, qualquer que fosse o caminho escolhido, inevitavelmente terminasse num campo triste e abandonado, sem árvores nem vegetação, sem flores nem borboletas, sem água nem nuvens, uma paisagem inóspita, cinzenta, que me rodeia para onde quer que me vire e que parece inelutável.

Talvez tenha mesmo de atravessar este deserto, para conseguir encontrar um oásis. Quero ir em frente, mas faltam-me as energias. Quero voltar para trás, mas a via é de sentido único. E estou assim, caminhando sem norte, sentindo que cada passo me leva as forças que me restam sem me fazer avançar para lado nenhum.

Hoje é o dia em que tudo pode acontecer… Não há forma de voltar ao passado. Há que seguir em frente, sem olhar demasiado para trás.

Tudo chega ao fim, um dia. A partir de amanhã, vou mudar de vida.

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