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Memórias de uma defunta

Por Hélder Oliveira Coelho

Foi uma mulher sensual, atraente, indiscreta. Jeito rebelde. Firme na convicção e no peito desnudo. Tesa, dura, implacável. Um pouco campónia e pouco hábil. De boa-fé, mas má para a Fé. De gosto duvidoso e de intenções ainda mais questionáveis. Violenta, sangrenta, preconceituosa. Impotente por tão amadora ser. Vestia-se de verde, apertava-se de laços rubros. Partidarizava-se como quem se prostitui. Abre-se a um monólogo de interesses, travestido de pluralidade. Como aquela meretriz que se ofende quando não a consideram mulher séria! Pois há lá maior seriedade do que abrir as pernas aos interesses alheios? Abrir-se em arco à bandeira do povo, mas para senhores de bem. Porque, já se sabe, ao povo não se abre as pernas, mas hasteia-se a bandeira.

Há muito que defendo que a nossa bandeira é uma aberração heráldica [1], bem como um crime de traição à pátria cometido pelos Republicanos e que nunca foi corrigido, por cobardia política e completa ausência de sentido de Estado! Todavia, e apesar de ter também na minha posse a legítima Bandeira de Portugal, não poderia deixar de guardar, com muito carinho e respeito, a Bandeira que é oficialmente usada para representar o meu País [2]. Acho aberrante que, em cerimónias de estado, possam existir falhas gritantes com um dos símbolos nacionais [3]. Não admira que sejamos olhados como um país do terceiro mundo. Quem não se respeita, não pode almejar ser respeitado. Longe vai o tempo em que pisar a sombra da Bandeira Nacional era tido como uma ofensa! Que vergonha e desprezo profundo nutro pela República e as suas miseráveis instituições! Digo-o com o mais sentido pesar e dolorosa tristeza!

No que se foi decompondo o cadáver da República, contribui muito o carácter de quem a tem liderado e as responsabilidades de todos os que a têm deixado ao abandono moral. Um povo que não participa, que não se empenha, pede para que alguém se apodere dos seus direitos e foi isso que fizeram os espertos [4]. Lá diz a sabedoria popular que «o mundo é para os espertos». Mas desta «esperteza saloia», que nos traz ao martírio e à decadência das instituições e da cultura e da idiossincrasia de um Povo, estamos todos cansados de padecer.

E aos que têm como dever alertar o Povo que está a ser enganado, eu recordo a minha querida Professora de Inglês, formada em Filologia Germânica, incapaz de pronunciar qualquer impropério, que, a propósito dos versos que adiante seguem, disse o seguinte:

— O Português vernáculo foi criado para ser usado nas devidas circunstâncias. Esta é uma delas!

Dito isto, seguem os referidos versos, dignos de uma Maria qualquer… ou de um qualquer Pessoa!

«Ora porra!
Então a imprensa portuguesa
é que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.»

Álvaro de Campos

E da imprensa portuguesa, nada mais me apraz dizer.

Concluo, não com um Requiem, como pedem as memórias de uma defunta, mas com as palavras do Barão Menuhin [5]. Disse o Maestro que era impossível escutar a Nona Sinfonia de Beethoven [6] completa e não ser melhor pessoa nos cinco minutos seguintes! Eu confesso que a uso como obra catártica dos meus piores momentos. O final da Sinfonia é desconcertante. Conhecido por todos, o Hino à Alegria [7] é uma obra magistral da música Romântica, que incita a uma jornada de esperança e confiança no futuro de todos. Uma mistura mística de sensações (de igual par na obra de Beethoven na Sonata Op. 111 [8]) que, num clímax de júbilo, tornam quase improvável, a quem a ouça, não se emocionar!

Gostava de acreditar que há esperança!

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