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Não

Por Gustavo Martins-Coelho

A vida já é tão complicada, por que insistir em ver problemas onde eles não existem? Esta gente é pródiga em dizer que está tudo mal, mas, na hora de encontrar soluções, não se mexe. O problema é que toda a gente tem opinião avalizada sobre tudo, mesmo que não perceba nada do assunto. Se cada um se limitasse a emitir opinião nos assuntos sobre os quais está bem informado, diziam-se bastantes menos asneiras.

Gosto de rectas, não de curvas; por isso prefiro os factos: as opiniões são demasiado sinuosas. O primeiro objectivo é caberem todas no mesmo sítio. Só queria ser tão popular como as pessoas acham que sou.

Um dia, vemos o técnico a fazer a manutenção da máquina do café lá do escritório, descobrimos que a água com que se faz o café vem do lavatório do quarto-de-banho e ficamos um tudo-nada desapontados.

Perguntam-me por que é que o computador não funciona. Eu respondo que não sei. O inquiridor conclui que eu sei mas não quero responder.

Não me apetece arrumar o quarto. Mas, sobretudo, não me apetece que me arrumem o quarto. Há alguma parte menos clara no meu raciocínio?

Ofereço-me para ajudar e tudo o que recebo é ingratidão. O anormal sou eu. Contra certos argumentos, não há factos. É preciso aprender a ouvir a palavra «não» e a aceitar isso como um facto.

Depois, disseram-me assim:

— Tu és igual a todos os outros. Só eu é que sou diferente!

Se tu não encaixas em nenhum estereótipo, obviamente que és anormal.

Aborrece-me a injustiça. Deve haver alguma coisa errada comigo.

Por que é que os homens não podem usar bolsas como as mulheres? É tão mais prático… Por que é que as pessoas chamam cenoura à cenoura, tomate ao tomate e salada à alface? Por que é que a Rapunzel não pode ser homem?

Não me incomoda que os maus sejam maus, até porque mesmo os bonzinhos têm momentos de pura maldade. Incomoda-me é que não sejam punidos. Isto o que é preciso é ter a sorte de não cair nas garras do mauzão.

Uma pessoa, cheia de boa fé, empresta as coisas e usam-nas para limpar o chão!

É impressionante como uma pessoa pode enganar-se a respeito doutra… Há gente azeda! Muito tias, muito finas, mas, quando estala o verniz, são umas verdadeiras peixeiras. E se fossem trabalhar, para variar?

Outra coisa que me irrita são as pessoas que combinam as coisas e depois desmarcam tudo à última hora só porque o Carmo e a Trindade não caíram. Muitos imprevistos esta gente tem… Só eu é que planeio a minha vida o suficiente para conseguir lidar com os imprevistos, sem que estes me façam desmarcar todos os compromissos do dia?

Há também aquelas que perguntam quem vai. Embora seja eu quem convida, a pessoa vai para estar com outras pessoas que não eu e quer saber se vai estar alguém de quem goste (está visto à partida que eu não faço parte da lista dos favoritos). Se a minha companhia não chega, então também não preciso da sua para nada.

— Depois digo-te se posso ou não.

O mesmo é dizer que o meu convite é tão excitante que, só se não tiver mesmo mais nada para fazer, é que vai aceitá-lo. Dar banho ao cão conta, para este efeito, como tarefa inadiável e que pode inviabilizar a aceitação do convite. Ou então, vai para casa pensar numa boa desculpa para se escapar.

Há os que não respondem. «Não posso», «o programa não me agrada», «já tenho coisas para fazer» ou «não te gramo e não quero estar contigo» são respostas válidas. Agora, desprezo é que não!

Pergunto-me por que é que continuo a convidar certas pessoas. A resposta verdadeira é que não sei. Sou um vidrinho de cheiro e amuo com facilidade. Há a minha vida e há as coisas para além dela.

Noto uma certa dificuldade das pessoas em dizer «não» directamente, como se essa fosse uma palavra proscrita. O verdadeiro português a falar é o mestre dos rodeios. Para evitar o «não», vai dizendo que sim, mas talvez, e vai deixando sempre a porta entreaberta, mesmo sabendo que a última fechadura estará sempre trancada. Para mim, isto é uma desilusão maior e causadora de maior sofrimento do que ouvir um «não».

Eu digo que não frequentemente. Isso não quer dizer que esteja zangado ou tenha deixado de gostar da pessoa; significa apenas que não pode ser. Gostava de ouvir mais vezes «não» e menos vezes o dúbio «sim» de quem já sabe que é «não» mas não tem coragem de dizer.

Também há quem diga que é muito meu amigo, mas evita falar comigo porque isso é prejudicial para a sua reputação.

Só me saem doidos e eu que os ature. Ai, se me apanho fora daqui!

2 comentários a “Não”

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