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Agentes de mudança

Por Hugo Pinto de Abreu

Uma grande parte dos nossos problemas advém dos outros seres humanos e da nossa convivência com eles. Amor, dinheiro, poder, prestígio: todas estas áreas — áreas da nossa vida que só existem porque existe o outro — são precisamente aquelas que nos costumam causar mais inquietações. O grande ausente desta lista é, como poderão observar, a saúde, embora também esta por vezes dependa de forma clara dos outros.

Por vezes, esta constatação, que pode ter como móbil mil situações (e.g. disputas de poder e intrigas no trabalho, traições e desilusões amorosas, percepção de injustiças graves na distribuição do rendimento e da riqueza), pode fazer-nos desesperar da felicidade e mesmo do sentido da vida. Às vezes esta chega a parecer uma armadilha cruel na qual estamos sabe-se lá porquê.

Todavia, esse raciocínio fica-se pelo mais óbvio e esquece o essencial, que eu já aqui referi [1] a propósito do ambiente de depressão em que vivemos colectivamente:

Todavia, no íntimo, cada um de nós sabe que as derrotas que mais doem são as nossas, as que nós – e fundamentalmente nós, não os outros – causamos. O falhanço que mais nos custa é aquele em que mais livremente tomamos parte.

(…)

[a] vitória por que ansiamos é vencer-nos a nós mesmos — vincit qui se vincit.

Esta é, creio eu, a única forma de fazer desmoronar as paredes do beco sem saída em que nos enclausuramos quando cremos que a culpa é, genericamente, «dos outros».

Mas, então, os outros não têm culpas? Sim, evidentemente. Há uma distinção importante a fazer: por um lado, há sistemas que verdadeiramente devem ser postos em causa dado que, pela sua dinâmica, pela forma que imprimem às relações sociais, são verdadeiros agentes corruptores, e, como bem notou Tomás de Aquino [2], «em tudo o que não depende do acaso, a forma é necessariamente o fim da acção», pelo que um sistema cuja forma seja nefasta, só por acaso não redundará em consequências nefastas em cada uma das pessoas que afecte; por outro lado, «os outros» certamente erram enquanto indivíduos.

Parece-me que esta é uma distinção importante, porque as duas realidades implicam, a meu ver, duas abordagens radicalmente diferentes.

Os erros individuais «dos outros» não são mais do que as equivalências das batalhas que nós mesmos encontramos no nosso íntimo e no nosso comportamento. Um exame honesto permitirá perceber que esta categoria representa, porventura, 90% das nossas preocupações. Ainda há pessoas em quem se possa confiar? Vale a pena confiar o coração a alguém? Ainda há amigos de amizade forte como a morte? Há pessoas que não me mintam? Há pessoas que não conspirem contra nós?

Para esta categoria não penso haver outro caminho senão o de reconhecer que os erros «dos outros» costumam ser uma mera distracção para os nossos, e, não raras vezes, a violência com que fustigamos certos comportamentos tem origem no nosso próprio falhanço em lidar com eles. É em face disto, no que respeita a este tipo de questões, que G. K. Chesterton [3], convidado a redigir um texto sobre quais os grandes problemas do mundo, respondeu com uma palavra: «Eu».

Tal atitude não pode, contudo, ser aplicada à outra ordem de realidade que discutimos. Os males sociais, as estruturas que contaminam o tecido social devem ser tenazmente combatidos. Também neste campo, não pode haver soldado mais eficaz do que aquele que já começou a aprender a vencer-se a si mesmo.

De facto, nem sempre está nas nossas mãos mudar meta-estruturas. Mais: por vezes nem sequer está totalmente nas nossas mãos mudar-nos a nós próprios de imediato. Mas há sempre algo que podemos fazer por nós, e é nas coisas mais pequenas que é preciso começar. Se o fizermos, seremos verdadeiros e eficazes agentes de mudança.

2 comentários a “Agentes de mudança”

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