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Crónicas Altitude

A propósito da demissão do dr. Américo Rodrigues

Por Hélder Oliveira Coelho

Ora, eu, que, desde muito catraio, fui acusado de ser dono de uma memória elefantina, começo por recordar coisas que disse:

Em Abril de 2010:

Quero, pois, felicitá-lo [Américo Rodrigues] pelo trabalho que tem levado a cabo no TMG [1]. Para quem tem memória curta e faz mote de vida a crítica avulsa, faço sempre questão de lembrar que, até há muito pouco tempo, as ofertas culturais na nossa cidade eram bastante limitadas. Eu entrei, pela primeira vez, num teatro a sério, já com dezoito anos, quando vim estudar para Lisboa, já que na Guarda não existia uma verdadeira sala de espectáculos. Senti na pele a falta de oferta cultural. Hoje, para mim, é impensável viver sem TMG. Apesar de passar muito pouco tempo na Guarda, sempre que posso estou presente no teatro, e mantenho-me a par da programação. Constato que está ao melhor nível do que se faz no País e na Europa.

Em Novembro de 2011:

Deixo, portanto, notas positivas: (…) A programação do TMG, que tem trazido [à Guarda] o que há de melhor (…).

Em Fevereiro de 2013:

Não fosse pelo TMG e, quando venho [à Guarda], pensaria que a cidade tinha sido fechada e nem se deu conta disso [2].

No que diz respeito ao actual Presidente da Autarquia, recuso-me a transcrever tudo o que a minha alma pensa a seu respeito. Creio que o meu silêncio é bem mais informativo.

Feitas as notas, e acompanhado pela paz de espírito e pelo distanciamento que os quilómetros me permitem ter, não posso deixar de me perturbar com toda a fotonovela que envolve a demissão do dr. Américo Rodrigues.

Antes de mais, os colaboradores e/ou funcionários de qualquer instituição, quando cumprem com o seu propósito lealmente, goste-se ou não deles, ou do que fazem (porque o gosto é subjectivo, mas o profissionalismo é mensurável), devem, pois, na minha opinião, ser tratados com a maior dignidade. A mesma com que até os miseráveis devem ser tratados. Não faço grandes diferenças entre a dignidade no trato de uns e de outros.

Mas aquela sensação de que há insubstituíveis, de que há aqueles baluartes inquestionáveis deste ou daquele lugar, não engulo. No dia em que o Partido Comunista tomou para si a posse ideológica completa do que foi o 25 de Abril, matou paulatinamente o que este tinha de universal, legando para segundo plano a grandeza do ideal!

Não creio que nem a cultura da cidade da Guarda morra sem o dr. Américo, nem que ao dr. Américo lhe faltarão ferramentas para continuar a fazer o que sempre gostou.

Se tal acontecesse, estavam claros os sinais de que a demissão do Director do Teatro era a justa eliminação de quem centrou em torno de si tudo o que se fazia no plano cultural. Não acredito nisso. O TMG é mais do que a obra de um só homem. Estou certo que esse é o mais profundo desejo do dr. Américo. Que a cultura e a cidade respirem para lá da sua obra, e não o que restaria da reminiscência do seu ego.

Não nego que lhe estou grato pelo trabalho que fez, mas também manifesto o meu agrado pelo facto de que haja renovação nas instituições. Afinal de contas, todos sabemos que o Partido Socialista tinha os seus delfins, não me consta que existisse grande espaço para outros. Resta saber se por pura incompetência dos ditos outros, ou por excesso de proteccionismo aos delfins do regime. Agora, os outros que provem o que têm para dar. Os antigos delfins do regime terão certamente muito com que se ocupar também.

De tudo isto, indigna-me apenas o jogo processual, que ao que consta não terá sido de grande lealdade. Felicidades ao dr. Américo e ao próximo director do Teatro, seja lá ele quem for.

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