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Dias Passados

Leve um erro, pague dois

Por Gustavo Martins-Coelho

Já o meu professor de Psicologia me dizia, no segundo ano da faculdade:

— Vocês desconfiem sempre das famílias felizes! É onde há mais infelicidade!

Ele não me dizia isto só a mim. Dizia a todos os alunos que assistiam à aula teórica. Daí a pessoa no plural. Mas cada um tem o direito a sentir-se no seu sexto andar e o professor falava só para mim.

Recordo-o sempre. Marcou-me, ao contrário doutros, pela positiva. Foi meu padrinho de curso. Deu-me algumas das melhores aulas que tive. Mas recordo-lhe particularmente esta frase, porque já convivi com muitas famílias felizes. Assustadoramente felizes!

Mas, mais do que as famílias felizes, aborrecem-me os casais felizes. São como as promoções do supermercado.

Uma vez, fomos ao Feira Nova e vimos um semi-frio de caramelo com a promoção do género: «leve dois, pague um». Fomos na cantiga e comprámo-lo. Grave erro, pois, como viemos a descobrir, apenas o semi-frio de cima (o que se via, portanto) estava em bom estado: o outro (oculto debaixo do primeiro até o termos comido) era um semi-frio de caramelo sem caramelo.

Com os casais, passa-se o mesmo: temos um amigo e, de repente, um passa a ser dois, assim do nada: o amigo começou a namorar, noivou, casou… Se o novo elemento da história é simpático, está quase tudo bem. Com sorte, até pode ser que alinhe nas nossas patuscadas. Ou, se não alinhar, pode ser que, pelo menos, autorize a cara-metade a não adoptar uma vida de eremita. Consegue-se viver assim.

O problema é quando o novo elemento da equação é intratável. Quando isso acontece, tal como no caso dos semi-frios, uma pessoa só descobre que o segundo está estragado depois de já ter pago, ido embora para casa e aberto o pacote; e não se pode estragar uma amizade por causa do lastro que lhe vem amarrado («bros before hoes»)! De modo que lá se tem de aturar a peça, com muita paciência e inventando todas as estratégias possíveis para reduzir o contacto ao mínimo. Em última instância, rezando secretamente para que o amigo se decida a dar-lhe com os pés duma vez por todas e o mais brevemente possível. E então, pode dizer-se em verdade:

— Ele (ou ela) não era a pessoa certa para ti.

Parco consolo. Mas dias melhores virão.

Cada um cava a sua própria sepultura. Põem-se a brincar com o que não devem, sem tomar as devidas precauções, e depois vêm «oh tio! oh tio!» que a coisa deu para o torto. Como é possível ser-se tão racional numas coisas e tão irracional noutras?

Nunca jures que não repetirás o mesmo erro. Apesar de haver muitos por onde escolher, vais cometer os mesmos que já cometeste mil vezes novamente de enfiada na primeira oportunidade. Na melhor das hipóteses, poderás deixar passar a primeira oportunidade para esperar por aquela em que o potencial de causares estragos e te sentires estúpido por estares a repetir, mais uma vez, os mesmos erros for maior. Mas isso já é a Lei de Murphy a funcionar.

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