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Não tem de ser isto

Por Hugo Pinto de Abreu

Creio que as intervenções de José Pacheco Pereira [1] a propósito da situação política portuguesa (e europeia) têm sido não apenas geralmente acertadas e oportunas, mas também um verdadeiro bote salva-vidas da «não-esquerda» portuguesa, que terá necessariamente de ser usado quando a coligação PSD-CDS sair do poder.

Talvez pior do que as políticas que têm sido implementadas, são as justificações de tipo moralista e pseudo-pós-ideológico que as procuram sustentar. É um pensamento cheio de ódio por Portugal, ou pelo menos pelo Portugal que existe. Na realidade, parece-me que é um pensamento altamente utópico e até revolucionário, se fosse genuíno.

Os nossos «liberais de direita» não se conformam com a improdutividade, a preguiça, a dependência do Estado, o «viver acima das possibilidades», e mesmo a falta de polidez, de cultura e de sentido cívico que atribuem aos Portugueses.

Não digo que não haja alguma verdade nessa cartilha, até porque a mentira tem sempre uma (grande) parte de verdade, senão não seria credível. Mas insisto: isto pode ser genuíno? Claro que não. Só acredito na sinceridade deste discurso quando é proferido por quem nunca teve qualquer contacto real com o Centro e Norte da Europa, que, na sua mente, é um paraíso na Terra, mais ou menos ao nível da antiga URSS para os milhões de comunistas ocidentais que só a conheciam de longe.

As declarações totalmente insólitas de um ex-consultor de comunicação de Passos Coelho [2] são a vindicação de quem nunca acreditou na autenticidade deste tipo de discurso. Desconfiávamos fortemente ser uma «moral» meramente de circunstância, encomendada, feita à medida dos interesses do momento. Agora, tivemos a certeza absoluta que assim é.

Só a necessidade de sobrevivência e promoção pessoais do momento explicam o plácido processo de auto-destruição da «direita» portuguesa a que temos assistido. Quase todos os dias, os senhores líderes parlamentares da maioria relembram, de forma mais ou menos arrogante, a sua «legitimidade democrática».

Mas, quando os Portugueses voltarem às urnas, como será? Estes senhores, que nos fazem quase achar que o Engenheiro Sócrates não era assim tão mau, têm noção de que, efectivamente, com o seu discurso de raiva para com o Portugal-que-existe (em favor do Portugal-que-quereriam), estão a criar todas as condições para serem banidos para «nunca mais» da cena política?

É certo que a memória política colectiva tende a ser curta, mas não vejo grande futuro para Nunos Magalhães e Luíses Montenegros. A alternativa ao socialismo não é isto, a alternativa ao socialismo não tem de ser isto.

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