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Dias Passados

Naufrágio

Por Gustavo Martins-Coelho

A despedida definitiva. Custa, mas tem de ser… Largar definitivamente o passado, aproveitar o presente e sonhar o futuro. A verdade é que nunca te entendi.

Parece que foi há tanto tempo e afinal foi ainda ontem. Por que tem de ser tão triste? Não deveria ser assim. O amor nunca deveria acabar. E, mesmo que acabasse, não deveria custar tanto.

Demora algum tempo a encontrar o lugar certo depois duma relação amorosa, mas consegue-se. Sem ressentimentos. Adorado pela ex-sogra. O tempo apaga quase tudo. E, o que não apaga, descontextualiza.

Uma boa regra é: quando o telemóvel fica sem bateria, o melhor é não falar. O meu telemóvel é muito temperamental. Se eu não o usar, a bateria não se gasta. Todos os dias são bons para não usar o telemóvel. Um dia, pego nele e vejo-me naquele filme com o Richard Gere e a Julia Roberts. Como dizia o Guus Meeuwis:

Het is een nacht
die je normaal alleen in films ziet
het is een nacht
die wordt bezongen in het mooiste lied
het is een nacht
waarvan ik dacht dat ik ‘m nooit beleven zou
maar vannacht beleef ik ‘m
met jou, oh.

No Messenger e sucedânios, irrita-me quando as pessoas se desligam sem se despedirem convenientemente. Uns há que dizem: «vou embora» e, quando uma pessoa vai a responder uma linha em jeito de despedida, já eles estão desligados. Como se alguma vez tivessem estado ligados…

Se, ao menos, eu soubesse o que te fiz, poderia pedir desculpa e mudar. Assim, é complicado… Mas eu não venho em fascículos. Ou queres o produto inteiro, ou não queres, mas não dá para comprar às peças.

Não sei se gostas de mim ou não, por isso é-me extremamente difícil lidar contigo. A displicência com que dizes as tuas alarvidades deixa-me boquiaberto!

Um título para o consultório sentimental da revista Maria: «bati pela primeira vez com um amigo meu; poderei estar grávido?» Ela é bonita, mas tão burrinha, coitadinha…

E se parasses de tratar todos os outros como atrasados mentais? Se fizeres perguntas úteis, eu dou-te respostas úteis. Se fizeres perguntas inúteis, eu digo que sim só para te calar. A opção é tua.

Não fomos feitos para estar sozinhos, mas para partilharmos a vida com alguém que goste de nós e de quem também gostemos. Quem me dera estar enganado! Estas mulheres só complicam a vida dum homem!

Não gosto de estar sozinho, pois nessas alturas o meu pensamento voa para fora do meu controlo, para lugares nem sempre agradáveis, onde moram os meus fantasmas e a vida parece desprovida de sentido.

Hoje tive um sonho lindo em que tu aparecias. Não quero o teu amor para nada. Não te odeio. Ou talvez te odeie. Não a ti, mas às tuas atitudes! Não consegues perceber que, por mais que faças, serás sempre «a namorada dele»? Se tu estivesses quietinha, eu era muito mais feliz. Tu és minha, só que ainda não sabes. E é nessas pequenas coisas que se vê a minha marca em ti. Escusas de lutar ou de negar, pois ela está lá e sempre estará.

Será assim tão difícil cumprir ordens simples? Toda a gente faz asneira de vez em quando, mas nem toda a gente sabe reconhecê-lo. Ao pedires desculpa, estás já um passo à frente. As desculpas mais esfarrapadas são por vezes as mais verdadeiras. Não abras demasiado a mão, senão o pássaro voa.

Eu também gostava de desejar-te o melhor, mas não consigo. Quero mais é que um raio te caia em cima e te rache ao meio! A decisão foi tua.

Ando a viver uma vida calma e pacata e estou a gostar. Espero conseguir continuar com este estilo de vida, que é bom e me agrada… Por que temos de andar sempre a correr daqui para ali, nervosos, preocupados com isto e com aquilo, como se o mundo acabasse amanhã? Não podemos, simplesmente, viver com calma, saboreando um dia de cada vez? O meu problema é não saber o que quero da vida…

Ao ouvir o gemido do restolho, lembrei-me de tudo o que vivemos juntos, de ter-te e de perder-te, das dúvidas e das certezas, dos desejos e dos devaneios, e da forma como olhavas para mim quando eu ia embora; e, agora que cá estou, és tu quem não está, nem nunca mais estará. E este sentimento faz-me muito mal, mas faz-me pior ainda deixar de sentir, e não sei se fuja ou se fique.

E, entretanto, dizes-me que tens saudades minhas, será mesmo de mim que sentes a falta? Não te percebo, foste tu quem foi embora. Um dia bateste com a porta e nunca mais voltaste, e agora dizes que não querias ter partido?

De ti não posso dizer nada; foste um erro, uma nódoa que não posso apagar, mas que não quero lembrar. Custa-me ver-te descer a vereda. Afasta-te de mim. Tu não és a pessoa certa para mim, mas eu gosto de ti na mesma, e isso é o pior.

Desculpa-me por ter brincado contigo, ainda hoje não sei se és a pessoa certa para mim, o coração não sabe e a razão diz que não; à falta de votos a favor fico-me pelo único contra, mas mesmo esse contra não é absoluto, porque mesmo a razão tem dúvidas que ela mesma desconhece, e o coração não ajuda. Se tu me quisesses, não sei se voltaria.

E agora surges diante mim, e eu quero muito gostar de ti, tens tudo para seres amada, e, no entanto, outras sombras te escurecem, e tu foges de mim e eu quero correr atrás de ti, enquanto tropeço nas dúvidas do coração.

Tudo o que eu queria era parar um pouco, brincar como uma criança e poder depois voltar à minha vidinha pacata, mas todas as decisões têm consequências imprevisíveis, e nada correu como eu queria, e agora estou aqui sem saber o que fazer e sem que os outros saibam o que faço.

Perdoa-me por ter naufragado! Perdoa-me por não ter um rumo, uma rota definida! Perdoa-me por andar à deriva, ser um barco sem leme nem âncora, sem capitão nem tripulação, a cartografar costas perdidas nos confins dos mares, sem encontrar o caminho certo por onde seguir até esse lugar distante onde te escondes! Eu sou assim, não tenho nada para dar; gostava de que me aceitasses sem nada pedir, mas sei que não é possível, porque eu não não te pediria nada, e é preciso dar e receber e, quando todos querem receber, quando todos precisam de receber, tem de haver quem dê mais do que recebe. E eu nunca te dei nada, e pedi-te o que não podias dar-me, e assim naufragámos os dois.

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