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Por que falham os economistas?

Por Hugo Pinto de Abreu

Depois de termos reflectido de forma mais generalista sobre por que falham os especialistas [1], de acordo com o mote que havíamos deixado e também a mote de uma leitora [2], que simpaticamente colocou a questão sobre a qual hoje nos debruçamos, permito-me fazer alguns comentários sobre por que falham os economistas [a], construindo sobre o que já foi dito no referido texto.

Em primeiro lugar, e isto não é exclusivo dos economistas — de forma alguma! —, é forçoso reconhecer que, geralmente, as pessoas são imaturas até cada vez mais tarde, o que faz com que, muitas vezes, não tenham o espírito que lhes permita aproveitar de forma abrangente o ensino genérico de base que lhes é oferecido até ao nono ano de escolaridade, e, em menor grau, até ao 12.º. Frequentemente, como em todas as outras áreas, há uma concentração nas provas específicas e o resto é relegado para segundo, terceiro ou mesmo plano nenhum.

A «democratização do ensino», aliás muito necessária, tem o efeito (positivo) de atrair à formação pessoas originárias de ambientes onde a formação académica e cultural é muito baixa, e não é de excluir que, muitas vezes, o motivo da formação (como aliás o é para camadas culturalmente mais educadas) se prenda quase exclusivamente com o acesso a uma profissão mais valorizada. Isto é, não é raro que não haja capacidade e/ou interesse para dar e obter uma formação mais ampla do que a exclusivamente técnica, o que é, obviamente, bastante empobrecedor, especialmente quando se trata de «peritos» numa ciência social, como é o caso da Economia.

Chegados à faculdade, a realidade depende dramaticamente de instituição para instituição, mas atrevo-me a fazer alguma generalização. Geralmente, não existe uma adequada introdução à ciência económica em si, e logo se começa a aprender modelos micro e macroeconómicos, cuja aderência à realidade pode e deve ser questionada. Todavia, muitas vezes apenas se apre(e)ndem ferramentas técnicas sem entender por que e para que surgem. Mas a universidade não pode servir apenas para transmitir ferramentas técnicas, e, quando se resume a isso, perde a sua razão de ser.

É incompreensível que haja faculdades, aliás de prestígio, que tenham licenciaturas em Economia sem uma disciplina de pensamento económico, ou sem seminários ou disciplinas que versem sobre a história da ciência estudada, bem como as principais discussões e polémicas contemporâneas. E, muitas vezes, quando as há, são ministradas apenas no final do curso.

Um dos aspectos onde há um claro deficit, especialmente no nosso tempo de fácil propagação de ideias via Internet, é a introdução e a análise, ainda que introdutória, às principais correntes e escolas económicas heterodoxas. É confrangedor ver estudantes ou licenciados em Economia ou Gestão totalmente sem argumentos quando confrontados, por exemplo, com defensores da Escola Austríaca, que muitas vezes não são economistas de formação, mas têm um pensamento formado, ou, não o tendo, têm uma cartilha muito bem assimilada.

Assim, uma primeira conclusão: talvez as faculdades não estejam a formar cientistas sociais, mas técnicos financeiros, ou, em casos mais raros, técnicos de previsões macroeconómicas. E, em tempos de tecnocracia, facilmente ascendem a cargos políticos, que naturalmente nunca deveriam ocupar na medida em que tenham uma formação e capacidade meramente técnica.

Acrescentaria que há um segundo grande foco de erro: a falta de independência. Já o livro de Isaías dizia, e recordo a versão latina que soa particularmente bem: loquimini nobis placencia. Dizei-nos o que queremos ouvir!

É difícil prever bolhas especulativas quando se trabalha na e para a indústria financeira, indústria que tende, directa ou indirectamente, a estar associada a bolhas especulativas pela natureza da sua actividade, e para a qual trabalham tantos economistas. É difícil afirmar que o Estado se encontra numa trajectória perigosa quando se trabalha para o Estado. É difícil não prever crises, fomes e guerras todos os meses quando se trabalha para uma empresa que vende abrigos nucleares.

Nunca devemos, portanto, esquecer o sentido crítico perante uma análise económica, dado que, ao contrário de outras ciências, se trata de uma ciência social, com um grau de subjectividade elevado, onde, por consequência, a (in)dependência pode ser absolutamente determinante para a opinião emitida


Nota:

a: Convém referir que eu próprio sou economista-estagiário.

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