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O meu empreendimento — o prelúdio dos cavalos

Por Hugo Pinto de Abreu

Recentemente, empreendi uma vez mais o caminho pela EN1/IC2 [1] de Vila Nova de Gaia até Fátima e, desta vez, empreendi-o sozinho, o que convida ainda mais à meditação. Cada uma à sua maneira, essa EN1/IC2 cheia de automóveis e a A1, meu caminho de regresso, mais ou menos deserta, insistiam para que me entregasse total e desmesuradamente aos pensamentos mais abstractos.

Sou um tipo estranho de empreendedor. Desde logo, prefiro as páginas de Pedro Homem de Mello às de Jack Welch. Que desperdício! Se o que interessa é «vencer», ganhar dinheiro. «Ele está muito bem, está no Banco. Juntou-se, e fez ele muito bem! Hoje em dia é mesmo assim, se tivesse a idade deles, faria o mesmo!» Só empreendo coisas estranhas. Guitarras? Para que queres tu o trinar? E o tilintar? Parece que nunca empreendo nada em benefício próprio, tão perdido, quiçá, nesses conceitos vetustos do Deus, Pátria, Família.

Para quê? Família? Só se for para mostrar um brasão, que está assim, «vá», ao nível de um carro desportivo, ou mesmo de um tuning. Depende dos gostos. «Cesse tudo o que da musa antiga canta»? Oh, esses selvagens de Quinhentos de quem herdei as armas! O que está a dar é ser banqueiro de Génova ou da Toscânia. Deus, Pátria, Dinheiro.

Pátria? Ah, sim, somos muito patriotas, até vamos ao 1.º de Dezembro com a bandeira azul e branca. Mas somos frescos e viajados, e os fundos comunitários foram excelentes para a quinta. «Ele está muito bem, saiu do Banco e agora dedica-se à quinta!». Precisamos de eurobonds, de um BCE mais interventivo, o euro nasceu sem uma estrutura institucional que acompanhasse a união monetária. Mas às vezes também defendo a saída do euro e a criação de uma moeda da CPLP [2]. O contexto é tudo. «Viva a Maria da Fonte, com as pistolas na mão!» Deus, Dinheiro, Dinheiro.

Sou muito católico. Na realidade, não interessa se é muito católico, o importante é conhecer bem a família. Somos todos iguais perante Deus, logo se vê: o cerimonial, o aprumo, as eminências embatinadas são as mesmas, tratando-se de um Cavaleiro da Ordem de São Não-sei-Quantos ou da filha de uma peixeira. Que horror, mas como poderia ser de outra forma? Cada um ao seu nível. «Na casa de Meu Pai há muitas moradas». Evidentemente, há solares, há umas moradias para esses novos-ricos detestáveis com quem vou casar os meus filhos, e há os bairros sociais para essa gente muito santa, de quem eu quero muita distância. Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro.

Está feita a actualização do meu sistema.

Perdido nestes delírios, empreendi.

Uma das hipóteses macroeconómicas que tem, embora implicitamente, tido mais impacto na nossa vida corrente é a … Oh, o texto já vai tão longo. O que interessa é que empreendi, sou um empreendedor. Se falasse agora do que empreendi, alguém leria? Alguém tem tempo para ler? Isto não é um Relatório e Contas, e mesmo que fosse, sabe Deus – perdão, Dinheiro – quantos o leriam.

Hugo, fizeste bem. Neste texto, perdeste-te. Já não há volta a dar. É um texto para esquecer. Para a semana falaremos então do que interessa: Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro.

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