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Palavras imaginadas

Por Gustavo Martins-Coelho

Disseste-me:

— Achas que isto é vida?

Apeteceu-me responder-te:

— Não sei, diz-me tu. Mas, se achas que não, o que fizeste hoje para melhorá-la?

Calei-me. A verdade é uma descoberta pessoal. Envelhecer não é o mesmo que definhar.

A vida funciona por marés. Ora se está em maré de sorte, ora começa tudo a correr mal ao mesmo tempo. Ou corre tudo sempre igual e nós é que andamos umas vezes optimistas e outras pessimistas. Talvez seja mais isso. Até porque, quando acontece uma coisa má, às vezes ela acaba por resultar em algo positivo. Lá diz o povo que há males que vêm por bem. Há um pouco de cor-de-rosa em cada dia da vida. Pequenas coisas que me fazem ganhar o dia. E, no fim, só as coisas boas terão valido a pena!

Mas tudo começa sempre por causa duma mulher. Perdeu-se totalmente o romantismo. Já ninguém acende uma vela ao jantar. O príncipe encantado é um produto obsoleto: o vinil do amor. Sou príncipe, mas não sou teu.

Na verdade, não passo duma coisinha miserável e insignificante. «Amigos, nenhum. Só uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em dia de chuva» — escreveu o Guedes. Eu corroboro. Faço tanta falta ao mundo, que, se eu morresse hoje, o mundo só ia dar conta quando o vizinho do lado começasse a achar o cheiro a cadáver insuportável.

O meu tipo de mulher é a que não me quer. Debaixo desta capa de pedra, há um coração de manteiga. Sai-me caro!

Como sou pobre, não tenho TVCabo. Até os agentes do Citibank, nos centros comerciais, evitam abordar-me. Vêem logo que sou pobre e não posso dar-me ao luxo de ter um cartão de crédito. Já experimentei fixar um com o olhar enquanto avançava para ele, só para ver o que acontecia. Nem assim!

Às vezes, penso em escrever qualquer coisa de jeito. A sério que pondero essa hipótese com alguma seriedade. Mas, depois, penso melhor e digo para mim mesmo

— Para quê matar-me?

Além do mais, quando se tenta produzir literatura um pouquinho mais elaborada, os leitores reclamam logo!

Escrever é a forma suprema de reciclagem. O lápis azul foi substituído pelo «politicamente correcto». É preciso ser-se terrível para se ser politicamente correcto. Esmagar pessoas ingénuas, de vez em quando.

Por que é que a vida dos outros é mais interessante do que a minha? Se, na blogosfera, todos falam, quem ouve? Há pessoas que até escrevem bem, mas se soubessem um pouco de gramática é que era! A pontuação é uma arte. Infelizmente, o ponto e vírgula tem-se perdido [1]

Não saber Português é uma forma de não saber Inglês. Um inglês, quando quer parecer erudito, latiniza o discurso. Um português angliciza-o. «RIP», para os Ingleses, quer dizer «requiescat in pace». Os Portugueses, que falam uma língua latina, acham que há-de ser «rest in peace»… Os meus colegas deixaram de ter prazos para entregar trabalhos. Passaram todos a ter deadlines.

O Filipe e a Filipa casaram-se e tiveram muitos Filipinos. Isto de casar só traz é complicações. O mais importante é serem do mesmo clube os dois. Poupa discussões. O melhor é fugir à padralhada. Está-se bem melhor sozinho. O Guedes também disse que «as mal-casadas são todas as mulheres casadas e algumas solteiras.» Mas o Livro é do Bernardo Soares. Até para se ser heterónimo é preciso ter sorte. Ser heterónimo?! Até para ser raptado é preciso ter sorte!!!

E se os Filipinos fossem meus? Pelo andar da carruagem, vou ser avô dos meus filhos.

O Malato disse uma vez na televisão:

— As grutas de Altamira são mais conhecidas do que a Marreca de Monsanto.

Quem é a Marreca de Monsanto?

Uma relação termina-se pessoalmente. Não por telefone, não por mensagem, muito menos pelo Facebook. Faz-te homem e diz o que tens a dizer na cara da pessoa que amas(te).

Também tenho direito à melancolia. Liberdade é poder optar e aceitar as consequências que advêm dessa opção. Às vezes, não me apetece ser livre.

Gostava de ser um tipo simpático. Daqueles cujos amigos dizem:

— Ei! Ora aí está um gajo porreiro.

Mas não sou, e uma pessoa tem de aprender a viver com as suas limitações. Não se pode agradar a Gregos e a Troianos. Somos todos uns mal-amados. Alguns são só cretinos.

Sou habitualmente parco em parabéns. Não entendo o sentido de parabentear uma pessoa no dia do seu aniversário. Afinal, tudo o que ele ou ela se limitou a fazer foi nascer, algo que mais sete mil milhões de pessoas também fizeram nos últimos cem anos, o que dá, mais ou menos, umas duas por segundo. Não parece um grande feito, quando posto nesta perspectiva de vulgaridade frequente; parabéns porquê, então? É certo que não é para todos: alguns morrem a tentar e certos só lá vão com cesariana. Mas, mesmo assim, tanto escarcéu para quê? Talvez deva parabentear apenas os que conseguiram sem ajuda.

Ao menos, dizem-me que sou boa pessoa (se calhar, só para me iludir). Não me tem adiantado de muito. Mais do que boa pessoa, sou provavelmente parvo. E óbvio. Talvez devesse experimentar um estilo mais mauzão, só para ver no que dá.

Também gostava de poder andar pela rua de cabeça levantada, mas tenho medo de pisar cocó de cão.

5 comentários a “Palavras imaginadas”

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