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Olho Clínico

Nasce de novo o Natal

Por Sara Teotónio Dinis

Hoje podia falar-vos de muita coisa — do meu sentimento pós escolha da especialidade; da carta que escrevi à ACSS a protestar contra o recorde de barbaridades que eles conseguiram bater durante o concurso; da adesão fraquíssima dos meus colegas à assinatura digital da mesma; da viagem que fiz este fim-de-semana… Mas, apesar de ter muitas hipóteses de o fazer, eu não vou fugir ao (tema do) Natal.

Quando era pequena, acreditava num mensageiro invisível que chegava de mansinho na noite de 24 para 25 de Dezembro e me deixava prendinhas porque me tinha portado bem. Antes de completar uma década, descobri que aquilo do mensageiro era treta e que as prendas que eu queria eram compradas pelos meus pais, afinal, e com algum esforço, o que arrasou a magia da espera na noite de consoada. Durante a adolescência, descobri que o menino que nascia todos os anos estava a levar mais do que deixava. Levava aos poucos a minha família — a minha adorada tia Lita, o meu avô Rogério, a minha avó Maria do Céu… Se já não havia magia, começou também a falhar a alegria… E comecei a sentir uma saudade dolorosa…

Esta dor é exacerbada quando dou por mim sentada a uma mesa com mais de trinta pessoas — entre os meus pais, os tios e os primos. Dispensava a presença de pelo menos uns dez. Queria antes de volta aqueles cinco que já partiram! Apesar de tudo, dei por mim há uns dias entusiasmada com a proximidade da data e percebi por que ainda assim gosto tanto desta altura do ano — porque os meus primos malucos vêm, estamos juntos dois dias e divertimos-nos imenso!

Acho que todos nós temos hipótese de escolher — ou aceitamos o significado do Natal, deixando-o acontecer em nós, ou não. Ou tentamos deixar por momentos de lado a logística da quadra, ignorando compras e preparativos para a ceia, e pensar na razão de ser deste dia, ou nos concentramos apenas nisso, embrenhados no stresse e na etiqueta do momento, e não sentimos o acontecimento por indisponibilidade da mente e da alma.

Penso que será natural que os cristãos, praticantes ou não, fiquem desencantados com esta altura do ano — o Natal é a oportunidade de negócio da época, a troca de presentes tornou-se obrigatória, e nem por isso se faz como deveria ser — com tanta impaciência, já ninguém espera pelo dia de Reis e na maioria das vezes ignora-se a meia-noite da consoada! O Natal transformou-se num pretexto para satisfazer caprichos — não é isto, é aquilo; aqui e agora; porque eu quero! Eu sou uma cristã desencantada — não só por causa do consumismo da época, por muitos outros motivos também — mas quero hoje relembrar o momento.

A história fala-nos de uma moça que engravidou a pedido dum anjo, e de um moço que era o namorado dela da altura. Tiveram de fugir à ira dum homem que queria matar todos os meninos recém-nascidos; assim, o moço meteu-a em cima dum burro e levou-a para o país vizinho e menos radical. Quando lá chegaram, já não havia quartos para pernoitar, e tiveram ainda mais sorte porque a moça entrou em trabalho de parto! Só o estábulo estava disponível, e a moça tinha que parir, por isso foi ali mesmo no meio da palha, com o aquecimento central da altura — o bafo duma vaca e do dito burro da viagem. Como ainda não havia Twitter, a malta foi sabendo do acontecimento através duma estrela cadente e, nos dias seguintes, os pais e a criança foram visitados por pastores e três reis que andavam a viajar de camelo. O menino cresceu e ensinou umas coisas acertadas — já naquela altura andava a tentar acordar o povo adormecido pela ganância e pelo egoísmo. Foi por isso que se tornou importante na nossa História — tão importante a ponto de marcar a própria contagem do tempo.

A mensagem foi ficando distorcida ao longo dos séculos, mas todos sabemos a matriz original da sua história, e todos interpretamos nela um significado especial consoante as nossas vivências. Por isso, podemos decidir o significado a dar ao nosso Natal. Ou, então, podemos optar pelo mais fácil — ultrapassar o «frete» do jantar e do almoço, receber as prendas com um sorriso amarelo, fazer a conversa de salão com a família ausente a maior parte do ano e decidir não pensar sobre o simbolismo do assunto. Mas quereremos nós o maior banquete, a árvore mais cintilante, os presentes mais caros, para nos sentirmos poderosos e importantes? Quereremos sentar-nos à mesa com o tio que sempre espezinhou a família, ou com o primo cujo nome nem sequer recordamos? Quereremos sentir todos os anos a inevitabilidade social de «ter de comprar prenda à G. porque ela me ofereceu uma no ano passado»? Eu não quero…

Este Natal pode não ter magia. Pode não ter prendas. Mas não posso de maneira nenhuma não rever os meus primos, não fazer as maluqueiras habituais durante o jantar e o almoço, não observar com algum prazer as discussões ideológicas e cómicas entre os meus pais e os meus tios depois de beberem um copito.

E para mim o Natal é isto… Uma prenda que não se compra, mas que se pode oferecer; que dá o maior trabalho de sempre mas também o maior prazer, e é o verdadeiro desafio — estarmos juntos… e sermos felizes juntos.

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