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Olho Clínico

«Não prometa o que não pode cumprir.»

Por Sara Teotónio Dinis

Hoje é a noite da Passagem de Ano 2013/2014. Tratou-se de tudo para assegurar momentos de diversão agradáveis — reunimos o grupo, preparámos a indumentária, reservámos mesa, e diz que também vai haver umas quantas garrafas com o nosso nome. Esta noite vai chover e fazer vento, mas haja luz e música, que isso não interessa nada! Às doze badaladas lá estaremos juntos, a sorrir, com o copo ao alto!

Há uns dias fiz o exercício de rever o ano que está a terminar. Escrevia num papel o que me vinha rapidamente à cabeça quando pensava «2013» — de forma súbita e desordenada vieram à memória aqueles dois ou três momentos tristes, e eu escrevi-os com mágoa; só depois as coisas boas começaram a brotar da memória da alma e, ao escrevê-las, vi que rapidamente ofuscaram as más, de tantas que eram! No final do exercício, tinha alinhavado num papel todos os momentos que marcaram este ano, as doze músicas que mais ouvi e que também deram o ar de sua graça nas devidas alturas, e doze fotografias cheias de caras conhecidas. Eu olhava aquele painel e sorria feita parva — foi um ano com um balanço bastante positivo! Contudo, não cumpri com cerca de metade das resoluções de Ano Novo que tinha feito no início de 2013…

Todos os anos o cenário se repete — chega este dia e temos o vestido escolhido, os sapatos a luzir, marcamos cabeleireiro, fazemos as unhas, disfarçamos as rugas e as manchas com base, blush, sombras e batom. Pegamos nas chaves de casa, na carteira e na máquina fotográfica e olhamos-nos uma última vez ao espelho. Estamos giríssimas, como sempre. Vamos ter com os nossos amigos! Vamos comer, beber e dançar até querer, e vai ser espetacular! Viramos costas ao espelho e saímos porta fora.

A noite segue como previsto. O ambiente está extraordinário! E às 23h55 alguém dá o alarme:

— Já só faltam cinco minutos para a meia-noite!

Segue-se a preparação das sortes e superstições da viragem do ano — os pequenos gestos que nos vão dar mais saúde e mais amor, que nos vão dar a sorte necessária para ganhar o Euro-milhões e mudar o mundo, que nos vão fazer encontrar o príncipe encantado montado no seu nobre corcel — ou seja, comer doze passas, estar em cima duma cadeira, saltar ao pé coxinho, ter vestidas umas cuecas azuis novas, e acenar com dinheiro numa mão, enquanto se brinda com a outra; tudo ao mesmo tempo, quando soam as doze badaladas. Fácil e garantido!

Claro que toda a gente sabe que não são estas mezinhas infalíveis que nos safam na vida, mas toda a gente as faz — «pelo sim, pelo não, eu nem sou supersticiosa, mas não vá o diabo tecê-las!…» E porquê? Porque dão muito menos trabalho do que fazer o que efectivamente funciona e é capaz de alterar as nossas sortes — agir. E reagir.

Voltando àqueles segundos que passámos frente ao espelho antes de sair de casa… Estamos giras. Vamos espantar os nossos amigos com a produção desta noite! Metemos tudo na carteira, podemos fazer-nos ao caminho para não chegarmos tarde. Hoje é dia de festa. Mas o dia de amanhã nasce à mesma hora, e nem por isso o ar vai ter outro cheiro. No dia 2 de Janeiro, voltamos ao trabalho e os problemas por resolver vão continuar em cima da secretária. Vamos chegar a casa, descalçar os sapatos, tomar banho, jantar e verificar que estamos na mesma — cansados. Cansados do trabalho, cansados da rotina, cansados de fazer tanta coisa e ao mesmo tempo fazer nada. Os dias trazem sempre as mesmas surpresas. Nós só não estamos na mesma porque estamos mais velhos, ou a ficar mais gordos, ou a perder cabelo, ou a ganhar rugas — reparamos nestas pequenas alterações físicas quando nos vemos ao espelho da casa-de-banho todas as manhãs. E só continuamos a ver-nos porque ele não é capaz de nos mostrar outros reflexos — os reflexos das promessas e resoluções para o novo ano que fizemos mas ainda não cumprimos, os reflexos das dores de alma que continuamos a ter, o reflexo da nossa incapacidade de lidar com as desilusões e com os nossos fracassos.

As promessas são provavelmente as mesmas que fizemos no ano passado e noutros anos — fazer a inscrição no ginásio, e ir; comer menos porcarias; visitar os amigos mais vezes; poupar mais; exigir menos dos outros; ficar feliz com as coisas simples. Mas, todos os anos, damos por nós a falhar redondamente àquilo que dissemos ir fazer.

— Vai ser já em Janeiro.

Mas o mês vai passando e nós vamos adiando… ou porque já não há dinheiro na conta, ou porque surgiu aquele relatório para entregar na semana que vem, ou porque ficámos doentes, ou porque é Inverno e está um frio de rachar. Desculpas não faltam…

As dores de alma deviam ser motivo de árduo trabalho psíquico e sentimental, mas são mais fáceis de disfarçar com maquilhagem e saltos altos. Dar de caras com elas todos os dias ao deitar é que não! Isso de falar com a almofada e com os botões não resulta. Chorar borrata tudo e faz inchar os olhos! Esgravatar naqueles dias negros deita muito mau cheiro pela casa toda. Aceitar o passado é dar murros no próprio estômago e não apetece nada vomitar o jantar. Ter de lembrar aquilo tudo dói demasiado! Preferimos sempre virar costas àquela caixa de cartão que está no fundo do armário — lá dentro está o que ficou para nos lembrar que existiu, mas ainda há espaço para deixar os remorsos, as raivas e a culpa. Vamos fechar a caixa com agrafos e fita cola. Vamos deixá-la exactamente onde está. Fechamos o armário e fica sempre tudo bem melhor!

Só não se ilude quem não convive. Só não fracassa quem não tenta. Não seria preciso dizer mais nada, mas às vezes é preciso que nos digam isto muitas vezes, de várias formas, em várias alturas. O dia-a-dia vai-nos recordando essa verdade — as pessoas são egoístas —, por isso não nos devíamos espantar tanto quando nos falham. Mas espantamos… porque nunca esperamos que aquela pessoa faça assim. Aquele amigo… como?! Não é para entender, é o que é. Cada um anda na sua vida. Nós nem da nossa sabemos, quanto mais das dos outros? É o que é. Não vale a pena pensar muito no assunto nem despender muita energia a deprimir. Errámos? Vamos lá agora fugir de rabo entre as pernas! Quem é perfeito? Arriscámos e correu mal? Se não tivéssemos feito assim nunca iríamos saber o que iria acontecer. Queremos certezas na vida, ou queremos indecisões? Os «e se…» não premeiam ninguém.

Andamos sempre às voltas com as resoluções futuras, mas não conseguimos perdoar o passado, nem por vezes lidar com o presente. De que nos vale querer andar em frente se temos correntes nos tornozelos, a prender-nos a calhaus gigantescos? Nós temos a chave para libertar as correntes, mas ainda não a procurámos. E uma coisa é certa, mais ninguém consegue rebentar os calhaus!

Por isso eu pergunto. E se este ano não prometêssemos nada? E se este ano resolvêssemos antes limpar o armário e esborratar a maquilhagem?

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