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Pode Portugal ser levado a sério?!

Por Hélder Oliveira Coelho

Tenho dito com frequência que há quem se leve muito a sério… Talvez demasiado a sério.

Estava sentado, a olhar para o telejornal, e leio, em nota de rodapé, que a ministra da Justiça anuncia «a reforma profunda do processo civil».

Estaria feliz e tentado a acreditar, se não tivesse ouvido da boca da dita senhora tratar-se «da reforma». Como se um novo paradigma de justiça se tivesse anunciado. O Santo Graal das becas.

Não fora tratar-se da 43.ª reforma e eu até me sentiria bem. Mas, à 43.ª vez, é difícil de acreditar que alguém nos possa trazer «a reforma de facto». Ou então a senhora Ministra leva-se demasiado a sério.

Por outro lado, indago-me como será possível haver alguma eficácia na Justiça de um País que altera, ano sim, ano sim, as regras do jogo. Nesta senda de encontrar algum sentido para o que se faz na política nacional, ainda acabo saneado!

Falando agora do que verdadeiramente importa, não entendo como puderam os Portugueses expulsar o Wilson da «Casa dos Segredos»… Não, que erro meu, o Wilson foi expulso pela Voz. Graças a Deus, há quem me esclareça estes grandes distúrbios do quotidiano social!

A minha profissão tem dessas pequenas maravilhas, o contacto com gente de várias idades, com quem sempre se aprende. De outra forma, eu nunca saberia quem era o Wilson da «Casa dos Segredos». Na realidade, continuo a não saber. Mas sei que existe. Como dizia o outro, penso, logo êxito, ou seria penso, logo higiénico… Dúvidas que terei sempre dificuldade em esclarecer. Assim encontrasse um professor do primeiro ciclo que não me escrevesse relatórios com vírgulas entre o sujeito e o predicado de uma mesma oração. E falando em oração, louvemos o nascimento de Jesus! Dizia-me há dias uma jovem adolescente, nascida no 1.º de Dezembro, que desconhecia a razão do feriado desse dia. Quando pressionada com o número 1640, na tentativa de facilitação da memória, responde, com alguma parcimónia:

— Ah… é o nascimento de Jesus.

Lá dizia o Professor Hermano Saraiva que, sempre que nasce um menino, nasce em casa um menino Jesus. Aquela pequena adolescente leva demasiado a sério esse dito… ao ponto de crer que também ela foi merecedora de um feriado.

Perguntei se nunca teve curiosidade em saber a razão do feriado. A resposta foi óbvia: um redondo e sorridente:

— Não!

É impossível não me transportar para aquela idade. Morava na Rua Mouzinho de Albuquerque. Num período em que ainda não havia Google, nem Wikipédia. Não descansei até encontrar um livro onde constasse o nome: «Mouzinho de Albuquerque». Não aguentava a curiosidade de saber de quem se tratava e por que razão tinha direito de honras toponímicas.

Em quase desespero, pergunto:

— Como se chama a tua rua?

— Paulo VI — foi a resposta.

— E quem foi?

— Não sei. Se é VI, só pode ser rei, não é verdade?!

De certa forma, é verdade… afinal um Papa tem honras de chefe de Estado… talvez Rei seja uma figura de estilo. E por figura de estilo não se entenda Cristiano Ronaldo ou Luciana Abreu.

Mas nem tudo é tão sui generis. A jovem afinal até sabia coisas… Estou grato por me ter ensinado quem era o Wilson…

Que importância pode ter o nascimento de Jesus Cristo, quando comparado a Wilson! Que relevância se pode dar ao 1.º de Dezembro, quando confrontado com a expulsão de Wilson!

Se não fosse tão triste, seria anedótico.

E nunca esta jovem reprovou! É num ensino como este que se gastam milhões.

Não posso levar nada muito a sério… A menos que ela queira cair no fosso do programa do Malato.

Convenço-me de que vivo numa anedota.

Pode Portugal ser levado a sério?!

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