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Olho Clínico

Facilidades

Por Sara Teotónio Dinis

Antigamente, as pessoas morriam porque eram vítimas de «um mal ruim», de «coisas do coração», de «ataques» fulminantes… Eram encontradas mortas e ninguém se indagava muito. Começavam a emagrecer e iam definhando lentamente, ficando amarelas… Sofriam as dores sem se queixar muito, até irem finalmente embora, após longa agonia. Fora situações pontuais, era isto que acontecia, e as pessoas aceitavam «os desígnios do Senhor». As reacções eram pacíficas e ouvia-se dizer:

— Chegou a sua hora…

— Deus o tenha em descanso.

— Para onde foi, está melhor que nós.

Hoje, felizmente, as pessoas sabem «a quantas andam». A larga maioria da população sabe dizer que doenças tem, a medicação que faz, os antecedentes patológicos e cirúrgicos, as suas alergias, o seu tipo de sangue. Quando alguém morre, as pessoas sabem porquê — doença terminal, enfarte, AVC… (Entenda-se que não falamos aqui de morte por acidente/homicídio/suicídio.)

A maioria das pessoas tem agora entranhada em si a ideia da necessidade de, com alguma periodicidade, fazer um exame médico geral. Avalia-se a biometria, a tensão arterial, faz-se a observação geral, o exame torácico com auscultação cardíaca e pulmonar, o exame abdominal com palpação, percussão e auscultação, avalia-se o aspecto dos membros inferiores. Complementa-se esta consulta com uma avaliação analítica, que cedo pode despistar vários sinais, sinais esses que nos podem indicar a presença incipiente de patologias que podem desencadear eventos ameaçadores da vida. Estas pessoas sabem hoje que a presença ou ausência destes sinais nas suas análises não é o fim do mundo, porque agora «há comprimidos para tudo» — para o colesterol alto, as estatinas; para o açúcar elevado, as biguanidas… Sabem também que ter a tensão alta é bastante comum, e que até há várias classes de drogas para a fazer baixar.

As pessoas também sabem que os hábitos alimentares pouco saudáveis e o seu sedentarismo são responsáveis pelos problemas referidos. De consulta para consulta, os médicos relembram a necessidade de fazer a caminhada diária de trinta minutos e de cortar o consumo de gorduras, privilegiar a ingestão de cozidos e grelhados, respeitar as proporções dos vários grupos alimentares, e trocar os snacks salgados e doces por fruta.

Mais informadas que nunca e a viver numa era de investigação e desenvolvimento sem igual, que, aliada ao sistema social vigente, permite o acesso a estes cuidados de saúde e a estes tratamentos farmacológicos a (virtualmente) todos os cidadãos de Portugal, as pessoas deixaram para trás o degrau da ignorância. Contudo, como em tudo na vida, as coisas boas trazem consigo as suas desvantagens… E estas facilidades de acesso trouxeram consigo a capacidade de tornar as pessoas comodistas.

Ora, dado que fazer a caminhada diária e cozinhar saudável dá mais trabalho, deixemos cá andar a hipercolesterolemia, a hipertensão e a diabetes, e vamos lá ao médico renovar a medicação, que já estamos a dever caixas e caixinhas à farmácia mais próxima.

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