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A ausência

Por Hélder Oliveira Coelho

Há dias, lembrei-me de uma anedota, dessas de salão, que se contam aos velhos e às crianças. A professora manda o Joãozinho escrever uma redacção subordinada ao tema: «mãe há só uma!» O petiz escreveu que a mãe lhe pedira que fosse buscar duas cervejas ao frigorífico. Ao chegar junto deste e verificando que apenas existia uma, respondeu:

— Mãe, há só uma!

Façamos, então, a nossa análise a esta pequena chalaça. Para começar, nos dias que correm, a professora não mandaria coisa nenhuma. Isto de dar ordens a criancinhas é um crime. Viriam logo os pais fazer uma queixa ao ministério. A professora seria suspensa, isto, claro, se o Joãozinho não fosse de etnia cigana. Aí, a mãe, as irmãs e as tias reunir-se-iam à porta da escola, dariam um belo ensaio de porrada na professora e acabava a história. Portanto, a piada, hoje, começaria por: a professora pergunta delicadamente ao João se lhe apraz escrever alguma coisa. Dito isto, segue um relatório do psicólogo do João a dizer que não pode fazer trabalhos de casa e que, sendo ele proveniente de uma família monoparental, com pais divorciados, por azar dos Távora estava na semana de guarda partilhada pelo pai. O pai, obviamente, processa a professora por esta insinuação rude de que a mãe tem um papel mais proeminente do que o pai na educação da criança. Seguir-se-ia nova queixa para o ministério e suspensão da professora. Por outro lado, a redacção é uma coisa antiga, que não apela à verdadeira essência da criança e a prende aos grilhões dos velhos métodos de aprendizagem, algo absolutamente condenável. Mas a coisa piora. Dirigir-se a criança ao frigorífico, nunca para pegar em bebidas alcoólicas. A acontecer, sempre vinho! Que, como todos sabemos, não tem mal algum beber vinho, um produto português, natural e que dá saúde. Cerveja é que não! Portanto, a criança que fosse buscar antes duas garrafinhas de leite, desnatado e enriquecido com cálcio e energia, porque, se a criança beber leite vulgar de Lineu, não cresce, fica atrasadinha!

Com tudo isto, a criança já está na adolescência, longe de ter qualquer noção da realidade, avessa a cumprir ordens e gorda como um texugo, porque ninguém se preocupou com a carga de açúcares que o leite especial de crescimento tinha. A criança, apesar de tudo, sabe assinar o nome e até sabe praguejar em mais de três línguas diferentes. Um evidente sobredotado. Há-de entrar para a faculdade com média de dez valores e chegar a ministro de qualquer coisa, se optar pelo caminho da juventude partidária. Se preferir ser um cidadão comum, ou termina os dias desempregado, à espera de que a sociedade se prepare para ele, ou opta por concorrer à «Casa dos Segredos». Atente-se que, se fosse o menino de etnia cigana, invariavelmente estaria na venda, ou a viver de subsídios. Porque, como todos sabem, somos nós obrigados a manter todo o respeito pelas diferenças culturais e étnicas; caso não o façamos, somos porcos racistas (como eu, agora, que ouso escrever sobre uma etnia especificamente, portanto arriscando a minha vida amanhã). Todas as minorias podem dizer o que pensam e não pensam a respeito de toda a gente, mas eu, beneficiado do sistema, que nasci caucasiano e pago impostos, tenho de ficar caladinho, ou sou racista!

Voltando ao João, o que ele tem é falta de alguma coisa… Falta de um modelo a seguir.

Agora, tem o Cristiano Ronaldo. Óbvio! Porque ter como modelo um Damásio ou um Lobo Antunes é coisa para betos nojentos. Ter como herói um médico, um polícia, um professor, um juiz, um carpinteiro, um electricista — isso nunca! Esses tipos que vivem para ganhar dinheiro à custa do povo! Seja como funcionários públicos, seja como profissionais liberais a fugir aos impostos! Honestos é que eles não são!

Mas ainda há heróis?! Havia a D.ª Amália e o Eusébio. Herói de um tempo em que convinha ter o povo mal instruído e quietinho! Depois deles, não mais voltaram a existir heróis! Espera, existe o Cristiano Ronaldo, claro! Eu queria comover-me com o povo nas ruas a clamar que Sophia estivesse no Panteão! Mas não hei-de viver anos que cheguem para isso!

Eu admiro muito o Eusébio. Era um homem talentoso e humilde. Amo imenso a D.ª Amália. Era uma pérola de talento. Mas não consigo aceitar que os anseios desta sociedade, quarenta anos depois do 25 de Abril, sejam tão triviais como os que o dr. Salazar tinha para nós!

Vivemos a pior fase de ausência de espírito crítico. A completa subversão dos valores. Não importa quem cumpre, quem se esforça. Procura-se o condão mágico de que alguém nasça com o talento de enriquecer e pronto. Ninguém fala jamais do número de horas que o Cristiano Ronaldo treina por dia. Ninguém comenta o número de dias que ele não esteve na escola! É um rapaz esforçado. Pois é, sim senhor. E os meus professores? Desses que são tratados como criminosos abjectos?! Não trabalharam? Não se esforçaram? E os polícias que pagam as próprias fardas e são presos se magoarem um ladrão quando de um assalto? E os médicos? Esses sacanas que só pensam em dinheiro e pouco se importam com a saúde dos seus doentes! (Informo os leitores mais frágeis que estas últimas orações foram escritas com grande ironia, porque, como democrata que fui, aceito que haja no mundo quem não tenha nascido com a capacidade para entender ironia. Temos a obrigação moral de lha explicar.) É que os prémios de produtividade das administrações hospitalares não entram jamais em contas bancárias de médicos ou enfermeiros. Nem as horas que passam sem dormir na cabeceira de um doente são alguma vez lembradas.

De facto, nem na máxima: «mãe há só uma» nós temos uma verdade absoluta, atendendo ao número de divórcios e de crianças que não nascem neste País.

Vivemos um período de terrível ausência. Ausência de alma.

Felizmente para mim, ainda posso dizer: «mãe há só uma»! Graças a Deus, o colo dela não me falta por entre tanta ausência de espírito à minha volta.

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