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Docendo Discimus

Surpreendeste-me!

Por Hugo Pinto de Abreu

Pensava que te conhecia, mas pelos vistos enganei-me. Voltaste a surpreender-me, outra vez, e não estava a contar com esta. Pensava já ter esgotado esses altos e baixos, esses olhares. Como querias que estivesse preparado para essa luz, esse calor reconfortante e subtil por entre o frio de uma manhã de Janeiro?

Não vinhas nos meus mapas. Ou melhor, pensava já conhecer-te o suficiente [1] para dispensar o mapa, mas não previ isto. Quando menos o esperava, voltaste a surpreender-me, Portugal.

Não podia dizer que não conhecesse — e que não tivesse boas memórias — dessas terras encantadas, por sobre as quais a A17 (houvéramos de lhe dar um nome menos prosaico) passa, e passa sem passar, passa como se de um sonho se tratasse, passa como se não fosse real, passa como a nuvem que nos leva a conhecer essas terras de antiga fronteira e de presente esquecimento sem as macular. Ou, pelo menos, eu assim imagino.

Há algo de místico nesta terra, e eu que pensava ter esgotado a mística em Fátima, Leiria, Ourém, Tomar… Como podia eu prever que quando chegasse a essa tal vila de Ferreira do Zêzere [2] — quem daria alguma coisa por tal localidade, não a havendo conhecido? — iria reagir como se encontrasse na rua um morto ressuscitado.

— Tu por aqui?!

Sim, estavas ali, Portugal.

Tínhamos pouco tempo, foi tudo tão rápido! Fomos Dante e valeu-nos Virgílio, esse Virgílio português vindo de Roma, guiando-nos por entre os mil segredos que se pudessem revelar em duas horas. Mas nada me preparava para o que vinha a seguir.

Eu nunca tinha ouvido falar de ti, Dornes [3]! Todavia, estás ao centro — serás o coração? — deste nosso País. O nosso encontro deixou-me sem respiração e a fazer contas à vida a pensar em como poderei viver contigo. O verde-azul da água, o verde-verde das árvores, o branco-azul do céu, e tu, ali, qual Susana desnuda [4] — e deveras provocante — num banho eterno. Eterno? Sim, porque mesmo que os homens ou o tempo te destruam, quem te viu não pode esquecer.

Mas era forçoso partir, e não foi sem dor. Mas eu não podia simplesmente voltar, sem mais. Em Fátima recobrei o ânimo, nas margens do Mondego consegui tirar os olhos do chão e olhar o alto. Antes de adormecer, o coração exaltava e eu talvez tenha dito, serenamente embargado de alegria: Amo-te, Portugal!

Espero que estas linhas ajudem a persuadir cada um dos nossos leitores a partirem à descoberta dos milhares de sítios em Portugal que estão à espera de nos encantar.

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