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Olho Clínico

A importância de um corredor

Por Sara Teotónio Dinis

Passamos nele como quem percorre uma rua. Queremos ir de A a B e lá vamos nós. É só entrar no trajecto e seguir, sem sair dele ou trocando para outro que o intersecta, e puf! chegámos ao destino.

Mas, para além de ser um local de passagem, ele desempenha muitos outros papéis.

No corredor da minha USF, passam médicos, doentes, enfermeiros, e auxiliares de acção médica. Há um corredor apenas. Num dos lados, está o gabinete da minha orientadora e, numa porta quase em frente, está a sala de espera, com a porta sempre aberta.

Antes que o leitor pense que eu já pirei e ainda só passaram duas semanas de internato [1], pois que estou para aqui há já três parágrafos a falar de um corredor, eu pergunto: qual é o problema de a porta da sala de espera estar imediatamente em frente à do gabinete da minha orientadora? E qual é o problema de toda aquela gente usar o mesmo corredor?

Não demorarei mais a chegar ao propósito que é o título deste «Olho Clínico» [2]. Sim, eu quero mesmo falar do corredor. Não, eu não estou a ficar mentalmente desequilibrada.

À USF vêm maioritariamente pessoas doentes. As pessoas doentes querem ver rapidamente o seu problema resolvido. Então, quando vêem a médica entrar ou sair do consultório, levantam-se imediatamente da cadeira da sala de espera e vão ao seu encontro, para tentar passar à frente dos outros que ainda estão à espera da sua vez para a consulta e assim tentar que ela lhes dê a palavrinha abençoada que os vai salvar, ali, no meio do corredor. É como assistir a um jogo de futebol americano — ela entra no corredor e os doentes vão contra ela, placando-a no seu trajecto, encarando-a de frente:

— Senhora doutora, estou-me a sentir tão mal… Não me pode ver já?

— Senhora doutora, estou tão doente, preciso de baixa, mas aqui não posso estar, tenho lá fora o marido à espera no carro, não me pode ver agora?

Com as portas frente a frente, estão sempre alerta a ver se apanham o peixe cá fora. E, muitas das vezes, apesar da visibilidade privilegiada, nem esperam sentados — saem da sala de espera e ficam de plantão no corredor, num raio de um metro do gabinete. Estas tentativas de comunicação prévia à consulta que já têm assegurada atrasam as consultas e aumentam os tempos de espera dos utentes. Por isso é que os doentes só devem entrar no corredor dos gabinetes quando são chamados através do altifalante da sala de espera.

Para além desta tentativa de chico-espertismo, os doentes têm outro aspecto interessante — contaminam o local. Assim se percebe, então, o problema de todos frequentarem o mesmo corredor. Os doentes nunca deveriam permanecer nele, pois nele também passam pessoas saudáveis, que assim podem ser contagiadas. As auxiliares de acção médica dão andamento aos lixos, fazendo-os percorrer o mesmo corredor onde toda a gente passa, até aos contentores apropriados — o circuito dos sujos (nome por que este trajecto é mais conhecido) nunca deve ser o mesmo do circuito dos doentes e pessoas saudáveis, pois as pessoas doentes podem ganhar outras doenças através destes desperdícios turistas, e as pessoas saudáveis podem também assim ser contagiadas.

Assim se verifica a importância de um corredor — numa unidade de saúde desenhada de raiz, os corredores são aspectos fundamentais e altamente decisores da conformação do espaço, da localização dos despejos, e da distribuição, quer dos gabinetes médicos, quer das salas de tratamentos de enfermagem. Pela simples razão de que os doentes devem circular o mínimo possível até onde precisam ser consultados, e porque os sujos nunca devem cruzar-se com eles.

0 comentários a “A importância de um corredor”

Cara Sra.ª Jovem Doutora: parece-me de mau tom classificar de “chico-espertismo” os apelos dos seus doentes, por mais inconvenientes e despropositados que possam parecer. Na realidade de um centro de saúde do interior, onde provavelmente a oferta de serviços será inferior à necessária para garantir cuidados de (suficiente) excelência para a comunidade local, parece-me que essa sua atitude roça a altivez e a indelicadeza. Características que tenho observado em bastantes jovens médicos da sua faixa etária, que se prenderão certamente com a sua parca experiência no que diz respeito à ligação médico-doente. Desde já lhe digo que não me preocupo particularmente com esse seu esboço de prepotência, pois o tempo e os dissabores da sua atitude encarregar-se-ão de a fazer moderar-se no futuro. Para isso ajudará o facto de facilmente os seus doentes a conseguirem identificar, tendo em conta as tão detalhadas descrições (próprias e alheias!) que faz nos seus textos. A seu tempo verá com outros olhos as pessoas que dependem de si, isto (claro está) se nenhum doente contaminar o seu longo percurso. Votos de sucesso, de um colega mais velho.

Caro Colega Mais Velho,
Agradeço sinceramente as suas observações pertinentes pois que relativas aos meus possíveis descuidos nas minhas “tão detalhadas descrições”.
Espero muito que a minha atitude não me traga “dissabores”, e espero não ter lido nas suas linhas a ironia e o desejo íntimo de que tal me aconteça. Seria um desejo feio para um colega mais velho ter.
Não considero que a minha escolha pelo termo “chico-espertismo” roce a “altivez e a indelicadeza”. Explico porquê. Estou a trabalhar num concelho em que toda a população tem médico de família atribuído, e onde os acessos são bons, apesar de estarmos já no interior do país. Quem não tem como se deslocar à USF tem associações que se disponibilizam a fazer o transporte gratuitamente. Portanto, dado que a acessibilidade aos cuidados de saúde está assegurada, acho que esta minha descrição não é de todo prepotente nem indelicada. Nunca nenhum médico naquela USF deixou doentes por ver, por ouvir, por atender. As situações agudas são rapidamente identificadas e não esperam no corredor. As consultas têm propósitos, há circuitos a respeitar, e todos têm direito aos cuidados de saúde, portanto penso que não será pedir muito que os doentes respeitem os outros doentes.
Poderá estar desencantado com muitos jovens médicos prepotentes e altivos, com parco conhecimento no que toda à relação médico-doente. Provavelmente não me conhece, senão não me teria colocado nesse saco infeliz.
Convido-o a não deixar de seguir as minhas publicações nesta coluna, todas as terças. Reacções são sempre bem vindas, e penso que, como Colega Mais Velho, me poderá ensinar muito neste percurso que agora inicio.
Cumprimentos,
Sara

Cara Jovem Senhora Doutora,
Se assim acontece no concelho onde trabalha, pode considerar-se uma priveligiada, pois a realidade nacional é outra. Não estou aqui para a ensinar, se chegou onde chegou foi porque teve capacidade para isso, e o tempo, a sua experiência e a sua dedicação serão quem irá determinar se o seu futuro vai ser risonho ou não. Longe de mim desejar-lhe mal, pois não a conheço. Se o propósito do seu texto foi valorizar a necessidade de impor regras e circuitos, que (concordo) serão necessários ao bom funcionamento de um serviço, estarei do seu lado, pois partilho a sua opinião. Apesar disso, continuo a discordar do termo “chico-espertismo”, e mais uma vez lhe digo que se quiser analisar as coisas a fundo, os doentes que poderá apelidar de “chico-espertos” serão uma percentagem residual dos que a abordam de forma despropositada. Solidão, isolamento, medo de morrer, insanidade, debilidade, desespero, incapacidade, imaturidade, para além da condição de doença – muitas vezes justificam um apelo tantas vezes incomodativo. Caber-lhe-á a si gerir isso da melhor forma que conseguir, e educar os seus doentes, sem necessidade de os classificar dessa forma. Concordará comigo que não lhe fica nada bem, como jovem médica em inicio de carreira. Assim como não lhe fica bem considerar os seus doentes como “contaminados”. O trajecto por onde eles passam é necessariamente o seu, já “contaminado” por natureza, ou não fosse o seu local de trabalho um Centro de Saúde. Parece-me que a sua preocupação é mais a sua contaminação, já que os doentes, confinados a uma sala de espera comum, também ela contaminada, contaminar-se-ão entre si irremediavelmente antes de chegar ao seu corredor não-contaminado. Ou então foi apenas um descuido inocente de linguagem, e assim espero.
A profissão médica é um turbilhão de sentimentos, contratempos, conquistas, revoltas, frustrações, cedências. E tudo isso tem de caber nos apertados 15 ou 20 minutos da sua consulta, e nas grelhas do seu horário. Mas é também o palco onde as relações inter-humanas se desenrolam no melhor e no pior da sua essência, num acto de partilha que define a relação médico-doente, que acima de tudo merece respeito. E é de respeito que falo neste pequeno reparo.
Com sinceros votos de sucesso, o colega mais velho

Foi sem dúvida o propósito do meu texto. E a minha preocupação não é a minha contaminação – se tivesse medo de me contaminar, nunca teria optado ser médica.
Não posso pedir desculpa por escrever o que sinto. Entendo que tenha interpretado assim os meus termos, mas não os uso no sentido pejorativo – repare que os doentes são a razão da existência da minha profissão, respeito-os e entendo as suas ânsias. Mas quando os educamos uma e outra vez e continuam a fazer o mesmo, torna-se difícil acreditar na sua pura inocência e angústia. Como médico mais velho sabe que aos doentes o que mais custa é esperar, e por estarem doentes estão naturalmente mais impacientes. Contudo, para que todos possam ser assistidos e bem assistidos, têm que tentar respeitar a sua vez e a dos outros. Se rompem o circuito repetidamente e não respeitam o nosso pedido de ordem, que conclusão tira o senhor?
Parece-me que, para si, os meus propósitos não foram claros. Parece-me que apesar de conseguir apontar o que eu quis dizer, se agarrou às críticas que me poderia dirigir, e assim o fez. E penso que depois desta resposta ainda irá encontrar no meu texto mais palavras erradamente escolhidas.
Respeito a sua opinião. Mas não acho que tenha sido assim tão incorrecta.
Cumprimentos.
Sara

A mim parece-me que a colega devia ter um pouco mais de paciência e esforço no que diz respeito à educação dos seus doentes – não está há pouco menos de um mês na sua nova actividade e local de trabalho? Parece-me que se cansou depressa! E também me parece que não está a interpretar bem os meus propósitos – fique tranquila que não quero encontrar palavras mal escolhidas nos seus textos, o seu léxico não é assim tão relevante para mim como o faz parecer. Mas, vocabulário à parte, dou-lhe os meus parabéns: a demagogia é uma arte que domina com virtuosismo.

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