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Morrer no caminho

Por Artur (O Coiso, 7.X.2006) [1]

Um grupo de trabalho, contratado pelo Ministério da Saúde, propõe o fecho de diversas urgências e a abertura de outras.

Reportagens da RTP, de norte a sul do País, mostraram testemunhos de velhotes, dizendo, a propósito do fecho do SAP lá da terra:

— Vamos morrer no caminho.

Os portugueses são mestres na criação de frases deste tipo.

Em «http://bompovo.spreadshirt.net», encontramos t-shirts com algumas dessas frases. Mas faltam lá muitas.

São frases que mostram a pequenez do povinho.

Trabalhando na Saúde há trinta anos, já ouvi muitas frases destas.

Uma das que mais me irrita é:

— Bem se pode morrer — proferida por uma utente do SNS, com dores nas costas, que está à espera da sua consulta há quase uma hora.

Ainda na semana passada, no serviço de Atendimento Complementar, passavam uns minutos das nove horas, a TV transmitia o jogo do Sporting e, como é habitual quando há jogos na televisão, não havia doentes. Uma utente inscreveu-se e, logo a seguir, interpelou a administrativa:

— Então, não há médicos?

Foi atendida quatro minutos depois de se ter inscrito!

Quatro minutos — e, mesmo assim, protestou!

Só lhe faltou dizer:

— Bem se pode morrer.

Algo de parecido se passa com esta história das urgências.

Claro que não confio muito nos tecnocratas da saúde.

É evidente que o que o ministro quer é poupar dinheiro, fechando serviços.

Mas também é verdade que os SAP que foram abrindo por esse País fora dão às pessoas uma falsa sensação de segurança, já que não estão equipados para salvar a vida de ninguém.

Se um velhote tiver um AVC a meio da noite, o melhor é ir directamente para o hospital mais próximo, mesmo que fique a uma hora de caminho. Se, antes disso, passar pelo SAP lá da terra, só vai atrasar o início do tratamento, porque o máximo que o médico de serviço lhe vai fazer é escrever uma carta e enviá-lo para o hospital. Entretanto, já passou mais meia hora. E talvez, desse modo, acabe por morrer no caminho.

Também já trabalhei num SAP que estava aberto vinte e quatro horas.

Durante a noite, os únicos doentes que me apareciam eram, quase sempre, os doentes com dores de dentes ou com dores de ouvidos. São dores tramadas. Um tipo toma uma Aspirina ou um dois Ben-u-rons, a dor não passa, mas vai-se aguardando… Pode ser que passe com uma noite bem dormida. Só que ninguém consegue dormir com uma dor de dentes e, aí por volta das cinco da manhã, um tipo já não aguenta mais e vai ao SAP, na esperança de que o médico lhe tire a dor.

Convenhamos que ter SAP abertos toda a noite, para resolver odontalgias e otalgias, é capaz de ser desperdício.

O problema é que, no meio desta polémica, ninguém fala claro.

O ministro devia dizer, claramente:

— Tenho de cortar nas despesas; os SAP que estão abertos durante a noite são falsos serviços de urgência; não estão equipados para resolver problemas verdadeiramente urgentes; sucessivos governos andaram a enganar a malta; ir a um SAP com uma dor no peito, podendo ser um enfarte, é puro desperdício; o médico que lá está de serviço não vai fazer nada; mais vale ir directamente para o hospital de referência; portanto, vamos fechar alguns SAP: poupamos dinheiro e, assim como assim, os casos verdadeiramente urgentes serão tratados onde devem ser: nos hospitais.

A oposição devia dizer:

— O que o ministro quer é poupar dinheiro; ao fechar os SAP, está a tirar aos cidadãos os serviços de proximidade que foram sendo criados ao longo dos últimos anos; nós, se estivéssemos no governo e tivéssemos coragem, faríamos o mesmo.

De qualquer modo, o povinho continuará a dizer:

— Bem se pode morrer!…

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