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Da praxe

Por Ana Raimundo Santos

A praxe [1] está na moda, mas mais na moda ainda está criticar ou ser contra a praxe. Com o carnaval que se montou em torno do assunto, afigura-se-me importante partilhar algumas ideias, próprias e muito pessoais, esclareça-se de imediato.

Deixo, desde já, assente que não me pronunciarei acerca dos tristes incidentes que trouxeram à discussão pública o tema, tão pouco colocarei aqui qualquer espécie de ligação para qualquer notícia, blogue, vídeo, etc., que remetam para o mesmo. Mais do que respeitar as famílias, parece-me começar a ser tempo de deixar, de uma vez por todas, as suas almas descansarem em paz.

Mas, quanto à praxe, julgo ser importante tecer algumas considerações, deixando no ar algum material para refletirem, nem que seja de vós para vós, sem partilharem com mais ninguém o que leram ou pensaram.

Começo pelo início e pela afirmação que tanto serve para começar a esgrimir argumentos contra ou a favor: sim, eu fui praxada! E sabem que mais? Gostei!

Na Faculdade de Direito de Lisboa, mais antiga instituição da Academia de Lisboa a cumprir a praxe com respeito pela mesma e pela tradição que a enforma, que me acolheu durante cinco anos, ensinou os princípios do Direito e a pensar as leis, que me ajudou a crescer como ser humano e a preparar-me para a vida, a praxe é um verdadeiro ritual de integração dos caloiros: entre si e com os alunos mais velhos. Nenhum caloiro é praxado contra a sua vontade, e até as coisas menos simpáticas, como o gole da mistela estranha cujos ingredientes até hoje prefiro não imaginar, que se bebe no final do corredor dos veteranos, onde passei, respondi a perguntas, fui salpicada com farinha e açúcar, conseguem ter o seu quê de piada e ser, mais tarde, recordadas com algum saudosismo.

No dia 15 de Outubro de 2001, dei início ao meu percurso académico na faculdade onde sempre tinha sonhado estudar. No entanto, para cumprir o sonho, fui obrigada a mudar de vida, deixar no Porto os amigos de sempre e entrar num lugar onde não conhecia rigorosamente ninguém. E posso dizer-vos que, se não tivesse sido a praxe, que tanta gente hoje teima em endemoniar, talvez tivesse continuado sem conhecer durante um bom tempo. Aos dezoito anos, era uma menina tímida e muito envergonhada, que caiu de paraquedas num lugar onde toda a gente conhecia alguém. Toda a gente, menos eu. No dia seguinte à praxe, o cenário já era outro. E por isso, aos veteranos que me praxaram, e que me deram o exemplo que dois anos mais tarde segui com orgulho, só posso dizer: muito obrigada por me terem ajudado a quebrar o gelo e a sair do casulo onde me encontrava.

Claro que a praxe não são só rosas, mas não podemos esquecer-nos de que estamos a falar de algo com tradição, cujo testemunho e exemplo vão sendo transmitidos ao longo dos anos pelos mais velhos aos mais novos. E, às vezes, é nessa transmissão que reside o verdadeiro problema.

Recordo-me de sempre ter ouvido falar de praxes abusivas onde os caloiros eram humilhados e magoados, às vezes de forma grave. Confesso que nunca compreendi ou aceitei este conceito de «praxe», porque a praxe não é isto. A praxe é receção e a integração dos caloiros na vida académica, e a integração não se faz através da força ou da humilhação, tão pouco um caloiro se integra colocando-se a si próprio em situações de risco. Ao contrário do que em algumas faculdades se quer fazer passar, cometer atos que possam colocar em risco a própria integridade física não é sinónimo de ser merecedor de respeito, é apenas sinónimo de falta de neurónios!

Por isso, meus caros, não creio que seja justo enxovalhar a praxe em si mesma considerada. O que me parece ser necessário é olhar para as ditas «praxes», que não são mais do que meros atos de imposição da força e demonstração de poder sobre os desgraçados dos caloiros, e perceber que estão desprovidas respeito pela tradição do nome que usam de forma abusiva e imprópria.

A praxe, na sua génese, não é má. O que é má é a interpretação que algumas mentes menos sérias e/ou normais fazem dela.

Para rematar, repito: eu fui praxada e gostei!; deixando-vos uma interrogação: e vocês?

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