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A praxe académica e o paradigma de novo ensino superior

Por Hélder Oliveira Coelho

Há dias, na instituição de ensino superior onde trabalho, discutia-se em reunião que códigos de conduta deveriam passar a ser exigidos aos alunos, à semelhança do que já acontece nas mais prestigiadas instituições de ensino do mundo. A este respeito, já em Outubro de 2009 dirigi uma carta ao Director da Faculdade [1], que frequentei como aluno, fazendo um apelo a uma moderação das práticas académicas dentro (e se possível fora) da instituição, com o perigo de que a imagem da Faculdade se visse prejudicada ou ferida, face a alguns exageros cometidos por alguns senhores.

Sabe-se o quão importante é a imagem e reputação de uma instituição. Mais o é a ideologia por trás de qualquer acto!

Durante anos, assisti às praxes. Ano após ano, têm vindo a assumir cada vez mais um papel inquisitório, ao invés de pedagógico. Já algumas vezes me tenho preocupado com os efeitos negativos, para a imagem do ensino superior, que isso possa ter do ponto de vista social. Tenho inclusivamente feito a apologia da dinâmica de grupo que se cria em torno das mesmas, o que será sempre uma mais-valia para a agitação tão necessária a Portugal que, por vontade política ou falta dela, tem definhado de tédio ou agitada incúria a cada ano que passa e tem no ensino superior um elemento catalisador de vida, de futuro e de progresso.

Permitam-me, no entanto, a ousadia de prevenir que as praxes, tal qual se têm vindo a praticar, na minha modesta opinião, não trazem qualquer dinâmica de grupo, para além da que advém da humilhação e relação ténue de forças entre quem tem a ilusão que manda e quem pensa estar a ser comandado.

Não raras vezes, tive oportunidade de presenciar, debaixo de chuva e forte intempérie, um quadro rasante de algum militarismo ditatorial, em que uns tantos senhores trajados de negro impunham formatura a outros tantos de colete reflector. Das janelas de edifícios, assistiam meia dúzia de cavalheiros, no conforto salutar que o aquecimento caseiro proporciona, a este espectáculo de fraco gosto e nenhum valor pedagógico. É certo que o argumento ingénuo (ou talvez não) dos senhores de negro, «estão todos aqui de vontade própria», é tão ou mais falacioso quanto a vontade dos mesmos senhores de trabalhar nas mesmas condições! Estou certo de que, se lhes fosse pedido, certamente reclamariam o direito à greve por falta de condições de trabalho. Mas, para a mui amada praxe, todos de «livre pensamento» ali estavam.

Também há dias, recebi o relato das muitas loucuras nocturnas que envolvem o consumo voluntário de álcool. Sempre e como é evidente, sem imposição. É tão bem sabido o quanto tem de voluntário, o consumo excessivo de álcool, durante o período de praxes, bem como o que isso implica em insucesso dos alunos do primeiro ano, tanto em valor absoluto de transição, como em frequência e assiduidade dos respectivos cursos.

Não creio que por muito mais tempo a sociedade se mantenha impávida e serena face às práticas académicas. E não tardará, mais alguém se magoa a sério e toda uma instituição de ensino pagará a factura da incúria de alguns cavalheiros saloios, frustrados e cuja autoridade emana saberá Deus de onde.

Na actualidade, a Praxe, tal qual é praticada, satisfaz apenas os feitos e defeitos de egos fracos, intelectualmente corrompidos pela ligeireza com que tudo é encarado, incluindo o bom nome da instituição onde estudam. O problema cada vez mais se apresenta no plano ideológico.

A defesa da igualdade deve estar no plano das oportunidades [2] concedidas e não no processo envolvente. Ter cinquenta macacos a gritar não os faz mais iguais, apenas os faz mais macacos.

Uso parte do discurso de jubilação do Professor Doutor Jorge Horta, prezado, ilustre e brilhante médico, cientista, pedagogo, director do Instituto de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e professor catedrático da mesma cadeira:

A Universidade será sempre — mesmo em clima de vicissitudes — aquele baluarte de cultura, de verdade, de ideia superior, de finalidade sem paga, e portanto pura e límpida.

Exorto-vos a que a dignifiqueis, porque se o fizerdes, ganhastes a honra de entrar activamente no combate pela causa justa, pela instituição mais rica de valores humanos.

O ensino superior e a ciência como um todo, em Portugal, atravessam provavelmente uma das suas maiores crises desde que o Marquês de Pombal e Frei Manuel do Cenáculo levaram a cabo a verdadeira reforma educativa no nosso país. Posso afirmá-lo com relativa certeza, pois também eu faço parte deste sistema complexo. Todavia, para quem ocupa algum lugar de suma importância nas instituições de ensino, maior é a responsabilidade na forma como lida com as vicissitudes que os tempos actuais vieram acarretar. Os desafios são muitos. A quem comanda as instituições de ensino, não invejo a nobre cátedra, pois com ela carregam aos ombros a responsabilidade de um pequeno principado de que representam a alma. O rumo que o ensino superior público leva não agoura boas novas! No entanto, são poucos os alunos que reflectem a este respeito. Mas venham mais meia dúzia de festas de caloiros ou de latas, ou de terminus, ou seja do que for… O que o mundo quer é festa! O desemprego, depois, trará já dores de cabeça bastantes! Festeje-se irresponsavelmente tudo enquanto se estuda!

Urge tomar uma posição, concertada com todos os intervenientes, com vista a evitar que ocorram efeitos colaterais indesejáveis, por culpa de uma tradição académica desvirtuada pelo tempo, numa prática vexatória, degradante e indigna. Devemos sempre estar um passo adiante do erro, prevenindo que este aconteça.

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