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Tinta permanente

Por Hugo Pinto de Abreu

Antes de voltar a escrever sobre «Os anos da bazófia» [1] e aproveitando para relembrar essa publicação aos caros leitores, para que eventualmente contribuam com a sua visão, as musas levaram-me para outros caminhos.

Tive uma reunião esta passada semana, uma reunião importante, com pessoas importantes, a discutir temas importantes. Aprumei-me tanto quanto era necessário, preparei a informação — até mesmo alguns diapositivos —, levei um caderno de aspecto profissional, e, quando chegou a altura de escolher um utensílio de escrita, hesitei: esferográfica ou caneta de tinta permanente?

Tentei um meio termo: tenho uma ou outra caneta mais formal, que não é de tinta permanente, mas não as encontrei. Peguei então em duas canetas de tinta permanente, verifiquei que tinham tinta (uma havia sido reabastecida há bem pouco tempo), e tranquilamente me dirigi para a reunião.

Como o leitor já poderá adivinhar, em plena reunião, nem uma, nem outra caneta funcionaram. Risquei, puxei a tinta, coloquei as canetas na vertical, esperando a acção da gravidade. Nada feito: tive de pedir uma esferográfica emprestada!

É verdade, estava muito frio, e eu não sou a pessoa mais hábil com a tinta permanente. Ainda assim, fiz um esforço inglório, que me deixou a pensar, até porque não é a primeira vez que tal acontece.

Sem fazer uma apologia da esferográfica, há que reconhecer que as canetas de tinta permanente têm muito estilo, mas são igualmente muito falíveis. É evidente que, em teoria, nem tudo pode (deve) ser sacrificado à eficiência, mas o mundo hodierno exige, pelo menos no que respeita ao âmbito profissional, precisão e fiabilidade.

E, efectivamente, a esferográfica (e outros tipos de caneta), a humilde esferográfica acabou por dominar sem contestação nas escolas e nos postos de trabalho. Hoje, uma caneta de tinta permanente é usada quase só por saudosistas, velhos entusiastas (n.b.: não «entusiastas velhos») e em ocasiões solenes. E, mesmo assim, convém ter uma outra caneta à mão, não vá a tinta permanente fazer birra.

E nós, somos esferográficas ou tinta permanente? O que queremos ser? Na realidade, desprendidos dos constrangimentos materiais que obrigam uma caneta a ser como é, podemos e devemos ser ambas, na medida em que podemos retirar o melhor das qualidades dos dois tipos.

Não devemos ser vulgares, e um toque vintage até está na moda. Queremos que a nossa tinta marque, indelevelmente, se possível. Não nos podemos render a uma eficiência em tudo e a todo o custo. Temos que evitar tornar-nos em pessoas descartáveis, sem alma, que se compram e se vendem por «trinta cêntimos».

Todavia, urge que nos livremos desses caprichos sem sentido que atrapalham os outros e, se não for pedir muito, deixar amolecer um pouco o nosso coração de pedra que, só depois de muito comovido, é que começa a sentir. A nossa tinta houvera de sair mais ligeira, mais disponível, sem requerer mil formulários ou horas de desesperada insistência. Se não mudarmos isto, não nos podemos admirar de sermos trocados por reles esferográficas.

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