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O Muro das Lamentações

Orgulho e preconceito

Por Gustavo Martins-Coelho

Tudo começou com uma frase do Mário Cesariny, sobre as manifestações do orgulho gay:

Acho feio, porque, em vez de aparecerem como pessoas normais, põem umas mamas, pintam-se, ficam uns verdadeiros abortos. Eu, que sou homossexual, se encontrasse aquilo na rua, passava para o outro passeio, porque, em vez de angariarem simpatia, ofendem.

O Tiago discordou e publicou a sua opinião discordante no seu «Caminho estreito» [1], com direito a fotografias e tudo, depois de participar numa das tais marchas criticadas pelo Cesariny — a «Pride in London parade» [2]. Quando li esse seu texto, senti que fazia sentido comentá-lo aqui, na «Rua da Constituição», mas o tempo foi passando, outros tópicos de reflexão se foram intrometendo, e só hoje me abalancei a tratar o assunto com a atenção devida e o carinho que me merece um grande amigo.

Numa coisa, o Tiago e eu estamos de acordo: dizer «LGBT» é uma forma de enfiar pessoas diferentes, com vivências, crenças, valores e opiniões diferentes, no mesmo saco. Ao fim e ao cabo, o que diz a orientação sexual duma pessoa acerca da sua personalidade? Acredito que nada — no máximo e porque gosto de padrões, concedo que diga muito pouco. Mas mesmo esse muito pouco será, provavelmente, mais o resultado da construção social em torno do tema do que algo inato.

Num contexto semelhante, li uma vez, não sei onde, que se espera que um preto aja como um preto [3]. Ou seja, a cor da pele define uma cultura, que é inculcada nos sujeitos com essa característica física desde tenra idade e lhes cerceia o tipo de comportamentos e atitudes que deles são esperados. Daqui resulta um círculo vicioso, em que o indivíduo, para ser aceite na comunidade minoritária, tem de adoptar uma postura que o afasta da comunidade maioritária; se optar por agir de forma diferente, arrisca-se a ser rejeitado por uma comunidade por causa do comportamento e pela outra por causa da cor da pele.

Transpondo o mesmo princípio para a comunidade LGBT, fará sentido o termo «comunidade», ou será a existência de tal comunidade antes o resultado duma espécie de guetização promovida pela atitude da maioria, heterossexual, contra a minoria, e da adopção de costumes resultantes do convívio mais próximo entre pessoas que partilham algo que é distintivo, não o devendo ser?

Procurava no meu léxico um adjectivo que abarcasse integralmente a minoria LGBT, mas a questão é precisamente essa: não existe. Logo para começar, porque orientação sexual não é o mesmo que identidade de género, pelo que LGB se separa de T. Depois, porque, se os homens são de Marte e as mulheres de Vénus, então L e G serão necessariamente diferentes. E porque B tanto podem ser homens e mulheres, dividimo-los em dois subgrupos: Bm e Bh. Feita esta distinção, podemos entrar em linha de conta com as diferenças geracionais e o estatuto sócio-económico, que são determinantes universais de valores e atitudes. Só com estes grandes chavões, está já largamente desfeita a «homogeneidade» da «comunidade», sem sequer entrar pela discussão da individualidade intrínseca de cada ser humano — porque isso seria demasiado prolixo para o ponto que se pretende demonstrar.

O Tiago prossegue o seu artigo [1] com um resumo curtíssimo do início das marchas do orgulho gay. Eu vou estender-me um pouco mais, porque considero importante o conhecimento da História: não só contextualiza e explica muita da realidade presente, como ajuda a prever o futuro e a evitar a repetição de erros passados. Não é por acaso que se diz que a História tende a repetir-se [4]. Portanto, segue-se um pouco de História das marchas do orgulho gay, que, esperemos, ajude a compreender por que é que tais marchas, na sua forma actual, não fazem sentido.

O Tiago diz que «nunca [viveu] nenhuma perseguição ou [foi] dire[c]tamente alvo de ataques por ser gay, mas muitos houve que não tiveram essa sorte» [1], e é verdade. É preciso não esquecer que, até 1973, a homossexualidade foi considerada uma doença mental e que, nos anos que se seguiram à II Guerra Mundial, os homossexuais foram, literalmente, perseguidos, sobretudo nos EUA, duma forma não muito diferente da que os Nazis haviam feito, poucos anos antes, na Alemanha. Em resposta a isto, foram surgindo associações e movimentos, durante os anos cinquenta e sessenta do século XX, com o objectivo fundamental de demonstrar que a orientação sexual não condicionava nenhuma diferença, ou seja, que os homossexuais eram em tudo o resto iguais aos heterossexuais.

Não se pode dizer que tais movimentos tenham sido muito bem sucedidos: nas décadas seguintes, as rusgas em bares frequentados por homossexuais e transexuais foram moeda corrente, até que, em 1969, uma dessas rusgas gerou um motim de seis dias [5]. Ora, foi neste primeiro evento que surgiu a clivagem que ainda hoje persiste, como se viu nas palavras do Cesariny e na reacção do Tiago: para alguns dos movimentos que vinham lutando pelo direito à igualdade da minoria LGBT desde há quase duas décadas, a última coisa que eles queriam era associar a imagem dessa minoria a um bando de desordeiros vestidos de mulher em confrontos com a polícia.

Mas o motim gerou um legado muito mais relevante para a nossa história, comparável à revolta de Haymarket [6], ou ao boicote aos autocarros de Montgomery [7]. No dia 28 de Junho do ano seguinte, teve lugar a primeira Marcha da Libertação Gay na cidade de Nova Iorque, que materializou uma nova forma de estar dos movimentos de luta pelos direitos LGBT e deu origem à marcha em que o Tiago participou antes de escrever o seu artigo e a todas as Marchas do Orgulho Gay [8] que, desde então, se têm realizado pelo mundo fora.

As marchas começaram por ser mais políticas — o principal objectivo era (e ainda é, nalguns países onde elas têm lugar) chamar a atenção para a questão da igualdade e dos direitos da comunidade LGBT. Porém, progressivamente, foram-se tornando mais ecléticas, transformando-se, nas palavras do Tiago, «numa celebração de liberdade, uma explosão de alegria» [1]. O que há de mal com isto? Nada. Ou talvez…

Qualquer evento deve ter um objectivo. Nem que esse objectivo seja o mais puro hedonismo, não deixa de ser um objectivo. Num mundo onde os homossexuais não são olhados como iguais [9] e onde os transexuais são considerados escumalha [10], talvez o objectivo original das marchas não devesse ser, ainda hoje, deixado para segundo plano. Olhando, assim, a marcha como uma manifestação e não como uma celebração, há que discutir como melhor atingir o objectivo reivindicado pelos manifestantes; e não me parece que o melhor método de pugnar pela igualdade de qualquer minoria seja chamar a atenção para o que distingue essa minoria, mas, pelo contrário, ilustrar todas as formas em que somos, de facto, iguais — daí resultando, necessariamente, igualdade de tratamento perante a lei e pela sociedade.

Assim sendo, tenho de concordar com o Mário Cesariny: se o objectivo é promover a igualdade de direitos (e de deveres, nunca esquecer os deveres), pôr umas mamas e pintar-se, em vez de aparecer como pessoas normais, em vez de angariar simpatia para a sua causa, ofende e alarga o fosso entre heterossexuais e homossexuais.

Se encararmos o evento como uma celebração da diversidade, na perspectiva do Tiago [1], então, de facto, não há nada de errado na excentricidade, desde que as pessoas envolvidas se sintam, de facto,  livres, em êxtase e aceites.

Mas, neste caso, há, então, uma outra questão que se levanta, a qual já aqui foquei, a propósito dum tópico diferente: as palavras e o uso que delas fazemos não são inocentes [11]. A marcha é do orgulho gay. Segundo o dicionário, o orgulho é a «manifestação do alto apreço ou conceito em que alguém se tem»; ou «soberba ridícula» [12]. Portanto, concluo que a marcha do orgulho gay é uma manifestação do alto apreço e conceito de si mesmos que os gays se têm? Eu conseguiria entender uma manifestação politizada que se assumisse orgulhosa, por contraponto ao esquecimento e à ocultação a que esta minoria esteve votada durante anos (e provavelmente tomaria parte nela, desde que nos moldes que referi acima). Mas tenho alguma dificuldade em compreender como é que uma marcha que pretende dar largas à liberdade de cada um ser como é proclame ter orgulho em ser de determinada forma. Não haverá aqui uma contradição? Por redução ao absurdo, o que diria o Tiago se eu participasse numa marcha intitulada «do orgulho hetero» e lhe dissesse que era uma manifestação da alegria de poder ser como sou e de ter a sensação de que sou normal?

Resumindo e concluindo: as coisas devem ser claras. Devemos chamar o nome correcto às coisas e estabelecer claramente do que estamos a falar. Uma marcha do orgulho gay politizada, em defesa de valores que ainda não são universais — nada a opor; uma marcha do orgulho gay celebrante da diversidade — chamem-lhe «marcha da celebração da diversidade», então. Mas, na minha opinião, apostem na primeira, porque faz mais falta.

Já sei que a primeira crítica que este artigo vai receber é que, apesar de começar por afirmar que não existe uma «comunidade LGBT», dada a individualidade intrínseca do ser humano, continua a utilizar o termo ao longo do texto. Touché! Posso dizer, em minha defesa, que, não obstante a suposição duma perspectiva interseccionalista, há um traço particular aqui em causa, que é agregador de pessoas em (quase) tudo o resto diferentes e que, por uma questão de simplicidade argumentativa, é nesse traço isolado que nos focamos durante todo o texto, fazendo assim sentido a referência a «comunidade LGBT».

Também já sei que, algures, algum leitor irá, certamente, indignar-se com o uso da palavra «preto». Já disse que não tenho preocupações em ser politicamente correcto [13]. Mais uma vez, o que importa assinalar, no contexto em que tal palavra foi usada, é que, apesar do interseccionalismo, o que releva para este efeito é um traço — a cor da pele — que não é aqui alvo de mais ou menos discriminação em função do termo — preto, negro, escuro, «de cor», «de origem africana» — empregue na sua definição.

Finalmente, sei que é também possível receber uma ou outra crítica de homofobia. Sei que estou à vontade nesse campo, pois nenhum dos vários amigos homossexuais que tenho alguma vez referiu qualquer tipo de atitude desse género vinda da minha parte — e sei que, se fosse caso disso, eles o fariam.

Porque o artigo já vai longo, deixo para a próxima semana, salvo motivo de força maior, a publicação dalgumas notas mais específicas sobre os direitos dos homossexuais, até porque terei de reescrever uma parte, em face dos recentes desenvolvimentos na política nacional [14].

0 comentários a “Orgulho e preconceito”

Meu querido amigo Gustavo!
Em poucas palavras te digo que gostei de ler o que escreveste. Reli agora o que escrevi naquele dia, coisa que já não fazia desde os dias seguintes a te-lo escrito, e confirmo o que senti aquando da sua redação.
O que escreves é correto. Está nos conformes das regras da argumentação e justificas racionalmente muito bem todos os pontinhos que eu deixei completamente soltos e meios falados. O que se passa com o meu discurso – se é que a palavra se estende ao uso que lhe dou! – é que este é puramente emocional. Não é desculpa, nem eu as estou a pedir, mas foi escrito no calor do momento, num dia muito importante para mim enquanto Pessoa. Ainda que não tenha sido “perseguido” como disse, o que é facto é que vivi uma mentira por muitos anos sendo que eu me persegui a mim mesmo de certa forma. Ou seja, quando saído desse tão afamado “Armário” – que foi o caso com a afirmação pública no meu artigo -, deu-se a explosão de emoções em todas as direções e, ao ver a frase que colocaste do Cesariny levei a coisa pelo lado puramente emocional.
Tendo o benefício de poder voltar a ler o que então escrevi com outros olhos, vejo muito do que ficou por dizer e do que eu ignorei e não quis ver naquele ato de “loucura” – ou coragem, depende da perspectiva, pois nunca imaginei ser capaz de o dizer como disse e tão publicamente como é o Facebook!
Há um ponto principal de que falas no artigo que eu quero comentar/desenvolver: o objetivo das ditas marchas. Talvez o facto de tomares a análise pelo ponto de vista racional e objetivo seja útil para discussão mas não pode a meu ver ser o único peso na balança. Sim, uma “marcha do orgulho gay politizada, em defesa de valores que ainda não são universais” seria muito bem-vinda mas, puxando a brasa á minha sardinha, não se pode riscar da cena a outra parte de celebração e tudo o mais que ela acarreta. Como disse, se para uns é celebração para outros é uma janela para dentro del@s própri@s e é algo importante para que esses sujeitos se sintam capazes de sair do armário. Que formato(s) a marcha poderá vir a tomar no futuro próximo só o tempo o dirá. Espero que um dia não sejam precisas!
Para terminar uma palavrinha só á comparação que fazes com o que seria ter uma marcha do orgulho hetero… Não tenho nada contra mas não me lembro de terem de lutar pelos direitos dos heterossexuais; bem, talvez os votos para as mulheres contem 😛 – que entretanto deixaram de se manifestar pelas ruas quando conseguiram levar o seu direito a bom porto…
Um grande abraço, Tiago

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