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Noutras Ruas

Eu vi o futuro e sou contra

Por Don Norman (Core77, 14.II.2011) [a]


Temo pelo futuro das nossas tecnologias, mas não pelas razões habituais. Para mim, o futuro traria soluções para nossas necessidades e desejos, e um desenho que fornecesse valor de forma sustentável e responsável. Tecnologia que é relevante e apropriada. Mas o que eu vejo em desenvolvimento parece mais ser impulsionado pela ganância e pelo lucro, resultando em planos de negócio restritivos e tentativas de impor restrições de propriedade sobre a actividade dos utilizadores por parte impérios empresariais.

A capacidade do meu equipamento de computação e comunicação electrónica é mais ditada pelo meu fornecedor de serviço do que pela tecnologia propriamente dita. Imagine viajar no futuro e entrar num novo país:

– Por favor, prepare os seus documentos: passaporte, visto, formulário da alfândega, seguro de saúde, contrato de roaming do fornecedor de serviço.

Escrevi o primeiro rascunho desta coluna na Madeira, onde estava para participar numa conferência. Não consegui aceder à Internet, porque, ironia das ironias, se tratava duma conferência sobre tecnologia: os trezentos participantes sobrecarregaram de forma a magra ligação à Internet do hotel, que esta colapsou. Trezentos participantes provavelmente significaram quinhentos a oitocentos dispositivos ligados, entre computadores portáteis, telefones e todas as máquinas de demonstração, muitas vezes necessitando de múltiplos endereços IP.

Por que não usar os nossos smartphones? Ninguém se atreveu. As exorbitantes tarifas de roaming impostas pelos fornecedores de serviço inspirou medo nos corações (e nas contas bancárias) dos participantes estrangeiros. Sem acesso aos dados, o que poderia fazer o meu smartphone? Quase nada. O telefone esperto tornou-se um telefone estúpido. Sem uma ligação à rede, a tecnologia mais útil disponível no telefone era a iluminação do ecrã, o que significava que o meu smartphone se encontrava reduzido à condição de lanterna.

Eu já não consigo funcionar sozinho. Quando o meu smartphone se torna estúpido, eu também me torno estúpido. Da mesma forma que dependo da tecnologia e das capacidades alheias para me vestir, assegurar uma casa e alimentar-me, também dependo da tecnologia para ser inteligente. O meu telefone traduz-me línguas estrangeiras, dá-me mapas e direcções, recomenda restaurantes e dá-me as notícias do dia. Deixa-me comunicar com os amigos pelo mundo fora e permite-me funcionar, em geral. Todo o meu conhecimento depende do acesso aos serviços de comunicação: o meu correio electrónico, a minha agenda, os meus mapas e os meus guias. Mas tudo isso está à mercê do fornecedor de serviço.

Tarifas de roaming exorbitantes e falta de infraestrutura tecnológica adequada reduzem-me à idiotice. O meu smartphone não funciona quando eu mais preciso dele – quando estou num país estrangeiro. Porquê? Por causa das tarifas de roaming e da ganância do meu fornecedor de serviço e da dificuldade em comprar uma assinatura temporária para os serviços de dados quando no estrangeiro.

A minha inteligência está na «nuvem». A minha vida está na «nuvem». O meus amigos, as minhas fotos, as minhas ideias e o meu correio. A minha vida. A minha mente. Tirem-me a «nuvem» e eu fico sem sentidos.

Note-se que este meu isolamento é apenas em parte resultado de limitações tecnológicas. A falta de acesso à Internet no hotel poderia ser superada. Eles nunca tinham recebido uma conferência sobre tecnologia antes e, portanto, assumiram que apenas uma parte dos participantes se ligaria à Internet, e principalmente para aceder às caixas de correio electrónico. Em vez disso, eles provaram um cheirinho do mundo futuro, onde toda a gente tem vários dispositivos que necessitam de ligação à Internet, todos querendo uma experiência completa de som e imagem. Esse problema, no entanto, é facilmente resolvido.

O problema muito mais central é causado pelos modelos de negócio dos fornecedores de serviço, sejam eles de rádio ou de televisão, por cabo ou por satélite, telefone ou telemóvel. Cada um desses fornecedores deseja maximizar o seu lucro, minimizando simultaneamente o da concorrência. Eles tentam, então, impor padrões próprios, fechando os utilizadores na sua própria marca: veja-se os sistemas de gestão de direitos digitais exclusivos para música, filmes e livros, veja-se telemóveis bloqueados, veja-se códigos de zona em filmes em DVD, veja-se os direitos de autor excessivamente restritivos em matéria de conteúdo e as patentes demasiado abrangentes sobre invenções e ideias. Cada sistema tem alguma base na lógica e de negócios; cada um tem uma razão legítima para a sua existência. Mas estes sistemas são implantados e executados de modos que restringem muito além do que é necessário – até mesmo ao ponto de reduzir a criatividade e prejudicar as pessoas.

Mais e mais das nossas redes universais abertas estão a ser bloqueadas, ficando disponíveis apenas a partir de dentro das paredes erguidas por interesses empresariais. Foi assim que começou uma série dos nossos serviços de comunicação iniciais: eram jardins murados, com todas as notícias, entretenimento e informação fechados lá dentro, acessíveis apenas aos membros. Este é o modelo seguido no mundo de hoje da televisão por cabo e por satélite – que corre o risco de se tornar o modelo de todos os fornecedores de serviço e de conteúdo.

Há alguns anos, quando eu trabalhava para a Apple, os executivos de topo duma série de empresas de informática reuniram-se para tentar chegar a acordo sobre alguns padrões abertos, para que os programas e sistemas de escrita para o sistema operativo funcionassem em todos os sistemas. O representante da Microsoft riu-se de nós.

– Já existe um padrão – disse ele aos restantes – e os nossos problemas seriam todos resolvidos se nós simplesmente seguíssemos o padrão.

– Que padrão?

Microsoft, é claro.

A sua visão foi imediatamente rejeitada pelos executivos da Sun Microsystems, da IBM e da Apple (eu), mas não demorou muito até que a visão da Microsoft passasse a dominar o negócio. A Sun já não existe, a IBM já não está no ramo dos computadores pessoais e qual é o programa mais popular para os computadores Apple? Microsoft Office, é claro. Estou a escrever esta coluna no Microsoft Word, ainda que ele esteja a correr num computador Apple. Esse é o objectivo de qualquer empresa tecnológica: o domínio tão completo do mercado que os seus sistemas sejam o padrão mundial.

A regra de negócio básica para qualquer nova tecnologia é que todos os seguidores querem padrões abertos, enquanto o líder não vê a necessidade deles. Sim, o Linux tenta galhardamente existir como sistema aberto para computadores pessoais e empresariais, disponível para todos, mas o mundo depende das ofertas dos poucos grandes, especialmente as aplicações fornecidas pelo Microsoft Office. O Linux não pode, pura e simplesmente, competir.

Mas então, e a Internet, um sistema aberto, com padrões abertos, em que qualquer navegador tem acesso imediato a todos os seus encantos? Não é esta a onda do futuro? Sim, mas este futuro está em perigo de se tornar um de jardins murados, onde diferentes serviços estão presos dentro dos limites das assinaturas. Quer um grupo de programas de televisão? Junte-se a este jardim. Quer outro? Junte-se ao outro jardim. Quer notícias? Há ainda um outro jardim. Quer comprar um livro ou revista para o seu leitor electrónico? Pode ter de combinar o item com o programa de leitura, o fornecedor de serviço e talvez até mesmo o dispositivo. Diferentes itens serão vendidos através de distribuidores diferentes e nem todos funcionarão na sua marca particular de leitor. Todos nós teremos de comprar várias marcas de leitores.

Os tabletes e os smartphones serão os meios de acesso à Internet do futuro? Talvez, mas cada fornecedor de sistemas operativos e cada fornecedor de serviço poderá impor as suas restrições sobre o que irá funcionar no seu tablete em particular. O poder dos tabletes e dos smartphones está nas aplicações que correm sobre eles, e estas são passíveis de ser bem controladas. Mesmo que não sejam controladas, os diferentes sistemas operativos e os padrões fechados para esses dispositivos significam que um editor de livros, jogos, ou aplicações terá de desenvolver múltiplas versões dum único produto, uma para cada plataforma, uma exigência que os pequenos produtores não serão capazes de satisfazer.

A suposta liberdade da Internet só funciona se a pessoa tiver acesso. Os navegadores prometem o acesso ao mundo dos sítios na Internet, mas só se o navegador funcionar no dispositivo, e só se o dispositivo permitir as ferramentas que operam os dados de texto e de imagem e os formatos fotográficos, musicais e de vídeo. Os fornecedores de serviço irão impor os seus próprios preços e restrições. As aplicações de comunicação funcionarão correctamente, ou será que também elas serão limitadas pelas forças combinadas dos fabricantes de dispositivos e os fornecedores de serviço? A tendência actual não é tranquilizadora.

O livro de Tim Wu, «The master switch: the rise and fall of information empires» [2], demonstra como este processo funciona. O tema principal de Wu é a inevitabilidade dos controlos de propriedade à medida que as grandes empresas vão descobrindo o valor de mercado da exclusividade. Todas as nossas modernas indústrias de comunicação e de transporte começaram de forma semelhante – seja telefónica ou de cinema, rádio ou televisão, de vídeo ou de sítios na Internet, de conferência ou blogues. No início, as tecnologias são disponibilizadas a qualquer um que possa ser tanto prestador como destinatário das capacidades do meio. Por exemplo, os primeiros fonógrafos podiam gravar e reproduzir. Os sistemas telefónicos proliferaram, operados por serviços públicos ou pequenas empresas. Os radio-amadores e grupos universitários desenvolveram livremente estações de rádio. No Youtube, as pessoas tanto podem produzir como ver vídeos. Os amadores e os inventores inovadores expandiram os horizontes. Então, quando o potencial de negócio se tornou óbvio para os senhores da guerra empresarial, eles atacaram, comprando as pequenas empresas e conseguindo que os governos aprovassem normas, regulamentos e leis para proteger os interesses das grandes empresas e para transformar as publicações experimentais de dois sentidos em transmissões de sentido único dentro das paredes fechadas. As histórias são muito semelhantes quando se fala sobre o fonógrafo e sobre os filmes, o telefone ou a rádio, a televisão ou os jornais, de música ou de publicação de livros [b].

Por que é que todos nós humildemente aceitamos que a velocidade de acesso à Internet seja muito mais baixa quando enviamos do que quando recebemos? Os fornecedores de serviço alegam que é porque, em média, as pessoas recebem mais do que enviam. E daí? Em que medida fornecer igual acesso prejudicaria as empresas? Ou, talvez, será porque eles querem que sejamos consumidores, consumindo o material que nos é enviado, em vez de produtores, criando nosso próprio conteúdo – seja texto, voz ou visual? Esta assimetria reforça a visão dos fornecedores de serviço e de conteúdo, de que nós consumimos tudo o que eles produzirem. Tudo isso em face de grande criatividade de músicos, fotógrafos e realizadores amadores: onde estaria o Youtube sem o realizador comum? Ai! Essa é capaz de ser uma boa pergunta, mas talvez já seja tarde demais. Onde estará o Youtube no futuro, quando as empresas decidirem dominá-lo?

Temo que a Internet esteja condenada ao fracasso, a ser substituída por jardins de exclusividade firmemente controlados. A Internet estendeu-se muito além das capacidades das suas origens: as interacções abertas e de confiança entre algumas universidades. Hoje em dia, é muito fácil a entidades desconhecidas penetrar em casas particulares e empresas, usurpando identidades e segredos industriais. O medo de programas prejudiciais e a quantidade cada vez maior de spam (alguns apenas incomodativo, mas muito cada vez mais mortal e malicioso), ameaça a infraestrutura. E assim, tal como os anteriores senhores da guerra empresariais usaram a existência de ineficiências reais e deficiências noutros meios para assumir o controlo, as grandes empresas fornecedoras de equipamentos, de serviço e de conteúdo vão tentar usar as deficiências da Internet para assumir o controlo e obrigar à exclusividade. É pelo melhor, eles dirão, para proporcionar um funcionamento seguro e harmonioso, enquanto ao mesmo tempo reforçam lucros e reduzem a concorrência. Argumentos semelhantes serão usados pelos governos, invocando os perigos da Internet actual, a fim de controlá-la para benefício dos partidos do poder.

Eu vi o futuro e, se ele continuar pelo caminho que está a seguir, sou contra. Receio que o nosso acesso gratuito e contínuo à informação e aos serviços está condenado a ser substituído por jardins de exclusividade firmemente controlados. É hora de repensar o presente, pois ele determina o futuro.


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Para saber mais, consulte a entrevista de Wu ao New York Times [3] (n. do A.).

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