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Terceira

Por Gustavo Martins-Coelho

Não são três semanas seguidas a falar de quartos-de-banho. Os sensores de movimento [1] podem existir em quaisquer outros sítios. Por exemplo, nos corredores. Sair do elevador para um corredor às escuras no décimo-terceiro andar pode ter algo de hitchcockiano. Quando o sensor dá a luz, espero sempre ver um morto-vivo envolto em faixas com uma catana na mão direita (por algum motivo, um morto-vivo que se preze tem de ser destro) a correr em câmara lenta (um morto-vivo que se preze também corre sempre em câmara lenta) para mim. Fico sempre aliviado quando isso não acontece.

As coisas que se passam nos quartos-de-banho do Vasco da Gama [2] também podem passar-se fora deles. Todas. É badalhoco [3]? É. Mas a verdade é, amiúde, badalhoca.

E a insensibilidade [4] dos homens também se vê nos quartos-de-banho. Uma menina disse-me, uma vez:

— É fácil distinguir o quarto-de-banho dos homens do das mulheres: o dos homens é o que está cheio de chichi no chão — não tenho a certeza de que ela tenha usado a palavra «chichi», mas, como era uma menina educada, tenho boas razões para supor que sim.

É possível que seja a consequência da estratégia para lidar com os sensores de movimento, ou seja só na tentativa de apagar as chamas do Inferno [2].

Seja como for, os construtores de quartos-de-banho também são insensíveis — ou não fossem homens. A quantidade de vezes que a tampa da sanita não se segura de pé é excessivamente alta e o motivo é a insensibilidade de quem colocou a sanita demasiado perto do autoclismo. Se ficasse mais para a frente, já se aguentava no sítio.

A mesma insensibilidade se vê nas tampas do esgoto. Uma pessoa vai na rua e tem de lidar com tampas de esgoto colocadas ao avesso. Será que os trolhas que as levantam para aceder ao buraco não se apercebem, ao recolocá-las, que estão a desalinhá-las em relação às marcações de passadeiras, setas e traços pintados no chão, ou em relação às linhas decorativas dos passeios? Ou será que se apercebem, mas são demasiado preguiçosos para se darem ao trabalho de alinhá-las convenientemente? Ou será que fazem de propósito, para perturbar uns quantos obsessivo-compulsivos?

As tampas do esgoto desalinhadas são coisas graves. É quase como obrigar uma criança a pisar as linhas pretas nas calçadas portuguesas.

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