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Aquele olhar

Por Hugo Pinto de Abreu

Foi há um ano, foi há dois? À medida que passam, confundem-se. Foi num ano, há não muitos anos. Foi outro desses dias, um pouco como hoje, soalheiros, vivos, luminosos. Mas era já Primavera, e este imenso jardim floria verdejante.

Uma vez mais, dirigia-me a Fátima. Já não sei bem porquê, nem interessa. Eram quase dez horas, e aproximava-me, não do Santuário, mas de um hotel com uma abóbada peculiar e uma Cruz Bizantina [1] no topo.

Hotel, sim, mas com ambiente intimista. Nada a que estivesse ou esteja ainda habituado: amplas vidraças, mármores, escadarias apertadas. Muito branco, muita luz. Ex oriente lux.

Subi, sempre em sentido, entre os pesados retratos nas paredes e a minha pressa apressada. Como habitual, julgava-me atrasado, mas acabara de chegar com meia hora de avanço.

Outro piso impecável e cheio de luz, ademais com vista sobre os pisos inferiores. A meio, uma parede de madeira e vidro. A porta estava aberta, ouviam-se já algumas notas, mas estava ainda longe de começar.

Entrei. Que murro no estômago! Os ícones, as velas, a devoção… Por mais que estivesse conceptualmente preparado, não estava efectivamente à espera de uma experiência tão transcendente. Depois, vieram os cânticos, o incenso, um ritual forte, que nos deixa prostrados.

Mas, naquele dia, como hoje, atentava não apenas no Alto, mas também nas mulheres e homens (elas eram mais) que ali estavam. Senti admiração: tantos olhares e gestos que denunciam uma vida difícil. E, todavia… Pudesse eu ter metade daquele ânimo!

Aquele que outrora foi o dia de S. Valentim é agora o dia dos Santos Cirilo [2] e Metódio [3], figuras incontornáveis do Leste Europeu. Talvez as circunstâncias ajudem, mas este ano não quis saber de corações, de velas aromáticas, de canções pirosas. Para o ano tenho também que embargar as redes sociais, intoxicadas de declarações e reflexões incontornavelmente meladas e frequentemente de mau gosto.

Não, este ano lembrei-me de Cirilo, e lembrei-me daquele olhar, daqueles olhares. Fica a minha homenagem a essas vidas tão difíceis, e a resolução de me queixar menos e confiar mais.

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