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Manifesto contra os hippies

Por Gustavo Martins-Coelho

Na verdade, não é necessariamente contra os hippies, especificamente, que escrevo este manifesto, até porque nunca conheci nenhum; acredito que, hoje em dia, pouco restará de hippie nas filosofias de vida alternativas, com que contactei.

A malta gosta de ser alternativa, no geral. Fica bem. A maioria dos góticos de quinze anos são-no pela estética visual do preto combinado com roxo. Nem é pela estética em si, mas mais pelo efeito que a mesma tem nos pais. E para poderem fumar e sentir-se importantes. Mais nada.

As subculturas nunca deixam de sê-lo. Porque, se se tornam culturas, logo vem o legítimo porta-estandarte afirmar peremptoriamente que se perverteram.

O manifesto vem, então, a propósito das raparigas com quem partilhei casa (felizmente, só durante dois meses) quando vivi em Copenhaga e da visita que fiz a esse paraíso na Terra chamado Christiania [1]. Em ambos os casos, parece-me haver uma certa confusão entre despojamento e desarrumação, entre desapego aos bens materiais e desperdício de dinheiro, entre comunhão com a natureza e imundície, e entre relaxamento e preguiça.

Acima de tudo, o que me surpreende é que, aparentemente, estes estilos de vida ditos alternativos — ao convencional, suponho eu, e, como tal, difíceis de enquadrar numa sociedade onde, supostamente, todos deveríamos ser iguais em direitos e deveres, mas vamos ficar por aqui, porque isto agora dava pano para mangas — deveriam fazer mais felizes aqueles que os adoptam. No entanto, não pressupõe a noção de felicidade que exista aceitação do próprio por si mesmo? Mais, gostarmos da vida tal como ela é não é felicidade? Então, como pode uma pessoa dizer-se feliz quando consome substâncias que lhe alteram a consciência? Como pode uma pessoa ser feliz quando precisa de esquecer a sua vida para atingir esse nirvana de felicidade?

O Bernardo Soares tinha álcool bastante em existir. Eu também. Por isso, não bebo e consigo desinibir-me sem precisar de beber e consigo rir desbragadamente sem fumar coisas esquisitas e consigo ter ideias estapafúrdias sem cogumelos e sinto-me bem comigo e com o mundo sem inalar pó de nenhum tipo. Conseguirão as minhas antigas companheiras de residência e todos os que frequentam ou vivem em Christiania dizer o mesmo? Tenho as minhas dúvidas.

Pim!

Só porque isto é um manifesto.

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