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Eu não detesto Macs, mas eles dão-me um sentimento de sincronização

Por Charlie Brooker (The Guardian, 28.II.2011) [a]

Em 2007, escrevi uma crónica intitulada «Eu detesto Macs» [2]. Eu chamo-lhe crónica. Na verdade tratou-se mesmo dum discurso anti-Apple [3] de novecentas palavras. Os Macs, dizia eu, eram «brinquedos didácticos fátuos para adultos; computadores para mariquinhas demasiado assustadiços para aprenderem como os verdadeiros computadores funcionam».

Em 2009, reclamei novamente: «quanto mais trabalhados em termos de design e mais omnipresentes eles se tornam, menos eu gosto deles… Os produtos Mac até poderiam vir equipados com um botão mágico lateral que os fizesse esguichar moedas de ouro e ressuscitar os mortos. Não compro na mesma, portanto podes calar a boca e pôr-te na alheta» [4].

Fala-barato. Poucas semanas mais tarde, verguei e comprei um iPhone. E sabe que mais? Soube bem. Poucos minutos depois de ligá-lo e de deslizar os pequenos ícones fofinhos pelo ecrã fora, estava viciado. Esta foi a minha primeira droga. Pouco tempo depois, já passeava um iPad. E, depois disso, um Macbook. Tudo o que as pessoas diziam sobre os Macs serem simplesmente melhores, sobre serem um doce de usar… era tudo verdade.

Fazem sentir bem, os produtos da Apple. Os pequenos toques: os cantos arredondados, os ecrãs tácteis, o baque prazenteiro ao fechar o Macbook — é sereno. Imperturbável. Como tomar Valium.

Até que, um dia, o leitor tente fazer algo que a Apple não quer que faça, momento em que percebe que seu amigo brilhante não está do seu lado. Nem sequer entende que pode haver mais do que um lado. Só Apple: sempre Apple.

Aqui está um cenário familiar, mundano: o leitor tem um iPhone com montes de música guardada. E tem um computador portátil com um novo álbum nele. E quer passar o novo álbum para o seu telefone. Mas não pode ligá-los e simplesmente arrastar e largar os ficheiros, como poderia com, oh! quase qualquer outro dispositivo. Em vez disso, a Apple insiste que use o iTunes como intermediário.

A Microsoft recebe um monte de críticas por fabricar programas desajeitados. Mas, mesmo durante os dias negros do clipe animado, ou a irritante extensão .docx do Word, nunca a Microsoft regurgitou algo tão abominável como o iTunes — uma hedionda mole binária, que transforma o mundo cintilante da música e do entretenimento numa folha de cálculo flagrantemente ao arrepio do senso comum.

Ligue o seu velho iPhone, da Apple, ao seu novo Macbook, da Apple, pela primeira vez e dado que os dois aparelhos não foram formalmente apresentados, o iTunes irá gaguejar sobre «sincronizar» um com o outro. Ele reclamará que, pura e simplesmente, deverá eliminar tudo do telefone antigo antes de passar qualquer coisa nova para ele. Porquê? Não diz. Limita-se a perguntar alegremente se o leitor deseja prosseguir, como um mordomo-robô optimista que não consegue entender por que está o leitor a chorar.

Ninguém usa termos como «sincronizar» na vida real. Nem mesmo o C3PO. Se eu sincronizar a minha colecção de DVD com a do leitor, vamos acabar com uma, duas, ou nenhuma cópia do «Santa Claus: the movie»? É como tentar descobrir as consequências de viajar no tempo, mas menos divertido, e sem qualquer hipótese de ser adaptado ao cinema com sucesso.

A treta «sincronizada» da Apple é um embuste, que finge tornar a vida do utilizador mais fácil, quando, na verdade, tudo o que quer é tirar-lhe o controlo. Se o utilizador pudesse transferir livremente qualquer ficheiro para o seu aparelho, a Apple poderia potencialmente perder algumas moléculas de ouro. Então, em vez de se arriscarem a isso, eles preferem — sempre — restringir as opções do utilizador, sem sequer pestanejar.

Decerto, o leitor pode contornar o irritante problema de sincronização, mas isso requer um grau de dedicação e de trabalho intelectual, semelhante a resolver o famoso problema lógico sobre como transportar uma carga de raposas e galinhas duma margem dum rio para a outra, sem que tudo acabe em penas e morte. E, mesmo que o leitor ache que é fácil, é um problema que a Apple não quer que o leitor resolva. Eles querem que desista e volte a acariciar estupidamente o ecrã brilhante, parando de tempos a tempos para limpar a baba do queixo.

A Apple procura continuamente espremer ainda mais dinheiro de tudo o que possa conseguir passar pela malha de couro apertada do iTunes. Tomemos os livros electrónicos por exemplo. O próprio leitor da Apple, o iBook, pode ser duma beleza estonteante, mas não é um mero suplemento do Kindle, da Amazon, que longe de ser apenas uma máquina, é um sistema multi-plataforma «nuvem» surpreendentemente arranjado, que permite ler livros em vários aparelhos diferentes, incluindo o iPhone e o iPad. Ele até se lembra da página em que estava, independentemente do aparelho usado por último. (O Kindle faz isso «sincronizando» — mas vamos perdoar-lho, porque a) acontece de modo integrado e b) o utilizador nunca, nunca perde os seus livros).

Agora, a Apple, como já é habitual, já não se contenta em deixar as pessoas ler livros no Kindle nos seus iPhones e iPads sem ir também ao pote. Então a Apple mudou as regras, na tentativa de forçar a Amazon (e todas as outras empresas do ramo) a fornecer compras dos seus produtos dentro da aplicação da Apple. O que esta frase hermética significa na prática é que a Apple quer uma fatia de 30% de cada vez que um utilizador Kindle compra um livro a partir da aplicação Kindle para o iPhone.

São menos 30% para os autores e os editores, e mais 30% para a segunda maior empresa do mundo. E isso assumindo que a Apple deixará todos os livros antigos passarem pela App Store: dado o seu percurso histórico, o mais plausível é que a Apple se recuse a processar tudo o que considerar censurável. Ainda assim, se eles começarem a banir livros, não importa. O «Ursinho Puff» dá um óptimo aspecto ao iPad.

Todos os anúncios da Apple destacam o quão amigos do utilizador os seus dispositivos são. Mas é uma amizade superficial. Para a Apple, o utilizador é nada. Eles nem sequer lhe dão um cabo eléctrico suficientemente comprido para poder usar o telefone enquanto ele está a carregar, pelo que, se ele tocar durante a carga, o dono tem de rastejar para atender, como um cão.

Então, eu já não detesto os produtos da Apple. Na verdade, eu uso-os todos os dias. Mas eu nunca sinto que os possuo. É mais como se estivesse a alugá-los.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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