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Transporte Humano

Brisbane: uma visita guiada ao corredor bus sudeste

Por Jarrett Walker [a]


Um dever básico dos consultores de trânsito, como eu, é mostrar a cada cidade o que as outras cidades vão fazendo e ajudá-las a perceber qual desses modelos é o mais adequado para a sua própria realidade urbana. Por exemplo, a maioria das pessoas nunca viu um serviço rápido de autocarro construído de tal forma que permita a experiência de transporte rápido a que estamos habituados no transporte ferroviário urbano, com segregação completa do trânsito. Assim sendo, achei que valia a pena oferecer uma visita guiada ao corredor bus sudeste de Brisbane [2], que faz exactamente isso.

Ao avaliar as opções para um mercado particular de transporte colectivo, é importante perceber que muitas das características que nos atraem no transporte ferroviário rápido podem ser transpostas para um ambiente de corredor bus, incluindo o cuidado com o design [3], que está demasiado frequentemente ausente das infraestruturas de transporte colectivo em autocarro.

O termo «serviço rápido de autocarro» (Bus Rapid Transit) é usado para definir quase todos os métodos para acelerar o serviço de autocarro num dado corredor, pelo que começamos por esclarecer as características de exemplo de Brisbane:

  • Corredores bus totalmente segregados, com pouca ou nenhuma interação entre autocarros e restante trânsito.

  • Estações construídas ao nível do que seria de esperar de estações ferroviárias.

  • Muito poucos cruzamentos de nível, pois o corredor bus segue principalmente ao longo de segmentos que já eram desnivelados, tais como partes de auto-estradas ou caminhos-de-ferro.

O terceiro elemento é difícil de replicar noutras cidades. Brisbane teve a sorte de ter faixas já protegidas, nomeadamente o espaço ao longo da auto-estrada da região sudeste, que tinha sido reservado para expansão futura dessa auto-estrada. Tal como acontece com a maioria dos primeiros lançamentos de novos conceitos de serviço, Brisbane começou com este corredor porque era o lugar mais fácil e barato para construir uma infraestrutura de elevado valor acrescentado.

Isto significa, claro está, que cada nova extensão será mais difícil de construir e envolverá mais negociação do que a inicial. Um corredor bus futuro em direcção a Leste, por exemplo, será em grande parte ao nível do separador central duma avenida, pelo que incluirá mais cruzamentos de nível. Iniciar pelo corredor mais fácil é uma estratégia comum nos primeiros lançamentos, seja de corredores bus, seja de caminhos-de-ferro, porque o futuro político de qualquer tecnologia numa cidade é sempre baseada no desempenho, no custo e na impressão causada na opinião pública pela primeira linha.

Os dois grandes elementos do sistema que já estão construídos (a vermelho na imagem à direita) são o corredor sudeste [4] e o corredor norte interior [5]. Esses dois segmentos estão agora ligados através do centro para formar um corredor bus completo, que se estende ao longo dum pouco mais de 20km [b].

O segmento que atravessa o centro da cidade é sobretudo subterrâneo e apresenta duas estações principais: King George Square [2], descrita no início deste ano, localizada por baixo da maior praça da cidade, e Queen Street, que está sob a principal rua pedonal.

As plataformas subterrâneas na Queen Street formam um labirinto que se mistura com os centros comerciais de vários andares em redor, mas a rua pedonal por cima da estação é um espaço grande, com agitação mesmo muitas horas depois da maioria das lojas ter fechado. Note-se a interessante estrutura da cobertura, que torna este espaço um lugar surpreendentemente agradável para estar durante as quentes tempestades tropicais de Brisbane.

Prosseguindo pelo corredor bus Sudeste a partir da Queen Street, chegamos à superfície e atravessamos a Ponte Victoria a caminha da estação Cultural Centre. A ponte tem duas faixas de rodagem separadas, de dois sentidos cada uma: uma para autocarros e a outra para carros, lado a lado, com sinalização independente.

A estação Cultural Centre localiza-se no tabuleiro da ponte, na sua extremidade oeste da ponte, com excelente vista para a cidade a partir das plataformas. Localiza-se no meio dos grandes museus e casas de espectáculos de Brisbane, que são parte integrante do elaborado projecto de re-urbanização da margem sul — um extenso parque pejado de atracções, no local da antiga Expo. Esta estação recebe um volume enorme de autocarros, incluindo muitas linhas que usam apenas o segmento do corredor bus que atravessa o centro, ramificando, em seguida, para outras linhas. Por isso, é uma estação sempre movimentada.

A vista do horizonte, naturalmente, dá as boas-vindas aos passageiros que chegam nos autocarros. É uma fabulosa experiência estética que não se aprecia num metro, embora, obviamente, essa não seja, em si mesma, uma razão para construir à superfície. Operacionalmente, este segmento é o calcanhar de Aquiles de todo o corredor. Em ambos os lados desta estação, estão dois semáforos complexos, onde o trânsito é tão considerável que não há forma de dar prioridade aos autocarros.

A imagem ao lado apresenta o portal de Melbourne Street, a oeste da estação Cultural Centre, onde os autocarros de saída têm de virar à esquerda para continuar pelo corredor bus. Dado que os australianos conduzem pelo lado esquerdo, a demora maior é para os autocarros que entram no portal, como o que se vê na imagem, que tem de virar à direita no semáforo.

Estes semáforos são o passo limitante de toda a capacidade de autocarros ao longo de todo este segmento crucial. A única maneira de evitá-los teria sido construir o corredor bus num túnel sob o rio, uma opção cujo custo teria condenado todo o projecto. Quando a utilização do corredor ultrapassar este limite de capacidade, a solução mais provável é a criação de novos ramos do corredor passando por outras partes do centro da cidade.

Depois de passado este semáforo, não se encontra outro até ao final do corredor bus. Deste ponto em diante, o passageiro vive a experiência pura de transporte colectivo rápido: serviço frequente, de alta velocidade, bonitas estações espaçadas, e sem atrasos para além do tempo de paragem em cada estação.

O momento dramático seguinte no corredor bus situa-se duas estações mais à frente. A estação de Mater Hill localiza-se no centro dum dos principais centros médicos de Brisbane: o típico agrupamento de hospitais, faculdades, clínicas, consultórios e laboratórios, muitas vezes localizado no cume duma colina, em muitas cidades.

O corredor bus leva os passageiros mesmo até ao coração do centro médico, a uma estação que parece estar cercada de edifícios altos por todos os lados, mas ainda assim recebendo imensa luz. É uma aglomeração notável, colocando um grande número de postos de trabalho e de consultas médicas precisamente sobre o corredor bus. Grande parte deste complexo hospitalar já existia previamente ao corredor bus, mas a construção de novos edifícios continua, aproveitando o acesso rápido em transporte colectivo que o corredor bus proporciona.

Após Mater Hill, o corredor vira para Sul e dirige-se para fora da cidade ao lado da auto-estrada principal. Ao longo do resto do caminho, as estações assemelham-se muito ao aspecto que teriam estações de metro ligeiro situadas no mesmo contexto.

Na maioria do percurso, o corredor estende-se por uma vala abaixo do nível da rua. Ao nível da rua, existe uma estrutura simples que acolhe os passageiros e fornece os elevadores e escadas necessários para aceder ao lado correcto do corredor para a direcção em que pretendam seguir viagem.

Uma característica de design inteligente — impossível de fotografar — é que, embora a plataforma se localize numa vala com paredes de cimento dos dois lados, há uma parede transparente adicional afastada cerca de um metro da parede de cimento, e o espaço entre as duas paredes está ocupado por plantas. O efeito é que os passageiros esperam num ambiente envidraçado, em vez dum muro de betão.

A paisagem está bem estruturada. Na extremidade duma plataforma, por exemplo, encontra-se um canteiro de aspecto perfeitamente autêntico de vegetação australiana.

Estas estações exteriores são todas necessariamente junto à auto-estrada, pelo que existem algumas limitações na sua capacidade de interacção com a malha urbana. A estação Griffith University, por exemplo, está localizada a alguns minutos a pé da parte activa do campus. Algumas destas estações, nomeadamente Eight Mile Plains, destinam-se principalmente a esquemas park-and-ride. Mas existe também uma estação em Garden City, o principal centro comercial para a região sul de Brisbane.

O tecido urbano que o leitor encontra ao sair da estação de Garden City não é o ideal, mas há claramente uma grande quantidade de empregos e oportunidades a uma curta distância. O próximo ciclo de reurbanização irá criar aqui uma entrada apropriada para os passageiros.

Ora, este é o corredor bus sudeste de Brisbane. Tem sido, sob todos os pontos de vista, um enorme sucesso, ajudando a impulsionar o espectacular crescimento do número de passageiros que Brisbane tem visto nos últimos anos. É importante, creio, como um exemplo contemporâneo de um corredor bus de elevada qualidade num contexto de segregação de vias. O meu objectivo aqui não é vender um corredor bus: pode ou não pode ser a melhor solução para a sua cidade. Nem sequer afirmo que as escolhas arquitectónicas apresentadas são as mais acertadas. Mas espero que tenha ficado claro que os corredores bus podem ser construídos com um alto padrão de design, ao mesmo nível do que seria espectável de qualquer novo sistema de transporte colectivo rápido.


Notas:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: A imagem da Translink representada está desactualizada: mostra um pequeno segmento central incompleto, a norte do rio; esse segmento foi concluído em 2008. (n. do A.)

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