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Cândidos anjos, vis mercenários

Por Hélder Oliveira Coelho

Que pensar de quem põe a vida humana na categoria de peça automóvel?!

Ainda não há muitos dias, um administrador hospitalar comparou médicos a operários fabris, chegando ao ponto de dizer que se aproximavam os tempos de «médicos low-cost». Acabou-se a mamã… Adiante no discurso, referiu-se ao código deontológico como «um entrave à produtividade do serviço». Quando confrontado por uma médica jovem, recém-especialista, pelo risco de terminar no desemprego, após anos de trabalho e investimento pessoal [1] e do erário público, a resposta foi:

— Bem-vinda ao mercado de trabalho.

Um sujeito deste calibre só poderia ter sido demitido no minuto seguinte! Ter gestores de mercearia a fazer a gestão corrente de um hospital, com tiques de chauvinismo e ignorando por completo a realidade da vida hospitalar só poderia dar asneira! Pior que desconhecer a realidade, é não respeitar a vida dos seus semelhantes!

Não me sentiria confortável em entregar a minha vida nas mãos de quem tem como critério contratar quem cobrar menos [2]! Criar desemprego médico com intuito de construir uma classe low-cost [3]… que ideia brilhante! Escusado será dizer que o facto de existir desemprego entre os advogados não faz baixar honorários dos grandes escritórios! E quem quer justiça de qualidade, por certo não espera pelos advogados oficiosos! Do mesmo modo… Quem quiser cuidados de qualidade pagará por eles. Ora, quem sobra para ser atendido pelos desgraçados low-cost?! Conseguem adivinhar?!

E quem serão os low-cost?! Provavelmente, os que, por qualquer razão, ou infelicidade, não se puderam pôr a milhas de Portugal, ou os que não foram bons o suficiente para abranger outro mercado!

A Saúde como um Mercado! Nem o médico é um mercador, nem a saúde de um povo pode ser vendida a retalho.

Que é uma necessidade premente que se altere o paradigma do sistema nacional de saúde, eu reconheço [4]! Mas tal não pode significar matar o sistema de saúde [5]! Matar paulatinamente quem não pode pagar para ter cuidados!

Curiosamente, essa classe abjecta e execrável que é definida por quem ao longo de milénios se dedicou a cuidar dos seus doentes. E quem não tem memória de um desses seres sugadores de dinheiro a amparar num momento de dor ou sofrimento. Quem não guarda uma recordação de carinho ou respeito por pelo menos um dos seus médicos?! Mas, se essas criaturas vis, vendidas ao vil metal, ganham tanto por salvar vidas, que dizer dos bem-aventurados gestores?!

Quando o mesmo cavalheiro é confrontado com a quantia de um milhão de prémio que teria recebido no ano anterior, respondeu:

— Um prémio como outro qualquer.

É evidente que, a ter de se cortar, será nos 1.225 euros que recebe um médico interno! Nunca nos prémios dos gestores! Mercenários são esses de bata branca! Porque os de colarinho branco são anjos de candura!

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Como esses senhores são uns ignorantes tudo o que “cheira” a gestão de dinheiro é mercado. Só que esquecem-se de algo fundamental: “Gerir é bom senso”.
Claro que, sendo os recursos escassos, qualquer acto de gestão deve ser eficiente e eficaz. O problema é que na mente dos nossos governantes, e dos seus seguidores, apenas paira o mercado financeiro e todas as Desumanidades que a teoria subjacente a tal mercado encerra.

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